Meus quadros favoritos
El Greco, 1596-1600
Má companhia
– Por que você não aproveita para conhecer um lugar diferente?
– Porque quem vai estar lá sou eu.
Má vontade
– Queria ser você, para poder conhecer tudo.
– Queria ser você, para ainda querer tanto.
Aposentado
A quarentena estava lhe atrapalhando. Sentia falta da solidão.
Avô em pandemia
Gostava de sentir a preocupação dos filhos e netos, mas o silêncio do isolamento era ainda melhor.
Cirurgia delicada
O doutor, assustado, lê no jornal que a economia ficará em circulação extracorpórea durante a pandemia. “Será que o coração volta a bater? ”
Lockdown
Antigas suspeitas afloraram na pandemia. A esposa parou de se perfumar.
Moisés Lobo Furtado
Grande notícia! Todos os textos do Moisés agora estão à disposição do leitor no blog dele:
https://moisestitolf.blogspot.com
1º de março, aniversário do Rio de Janeiro!
Nesse dia, em de 1565, Estácio de Sá fundou oficialmente a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.
O propósito era afastar os invasores oriundos de nações estrangeiras, especialmente franceses.
Há que se lamentar apenas o que os políticos fizeram com o Rio nos últimos.
Morei nessa cidade durante 10 anos e a trago no coração!
A foto acima é uma das mais interessantes que conheço da cidade, no primeiro plano o morro do Corcovado.
Aquilo que senti não foi outra coisa senão vergonha ao ouvir Antonio Candido dizer em alto e bom som que havia lido S. Bernardo no mínimo vinte vezes e eu não tinha passado de uma única superficial leitura recém saído da adolescência. Que vergonha!
Encomendei nova edição, a 105a !!!, da Editora Record (2020), com bela capa de Renan Araujo; devorei o livro em três ou quatro dias e não me lembro de ter encontrado tamanha força em texto algum como em S. Bernardo, exceto em trechos de Guimarães Rosa. Escrita seca, dura, frases curtas, frases rudes, sentimentos rudes, sobra rudeza na terra, nas gentes, no geral.
Trata-se do segundo romance de Graciliano Ramos (o primeiro foi Caetés), publicado em 1934, considerado por muitos críticos a obra mais importante do movimento modernista brasileiro.
O cunho político ideológico se revela nas primeiras linhas, na curiosa “divisão de tarefas” para se compor um livro. Graciliano desejava mesmo a transformação da estrutura social vigente nos anos 30. A despeito disso, a caracterização psicológica do personagem principal beira a perfeição, esmiuçada a ponto de sugerir descrição psiquiátrica de caso.
Reconheço a inutilidade desse meu texto diante da monumentalidade da obra; faço esse registro apenas como possível estímulo a quem ainda não leu S. Bernardo, ou àqueles que o leram faz tempo e que poderiam relê-lo agora. Antonio Candido tinha razão: um livro para se ler no mínimo vinte vezes!
Ao meu amigo Sergio Pripas
Terminou ontem o Campeonato Brasileiro de Futebol, da melhor maneira possível para o sistema de pontos corridos: a decisão ficou para a última rodada. (Quando um time dispara na liderança, as últimas rodadas perdem a graça. Explico essas coisas para minha mulher, que pouco entende de futebol, mas que sabe tudo de otorrinolaringologia.)
O Palmeiras jogou contra o Atlético de MG, mas preferi ver São Paulo versus Flamengo. E não me arrependi. Há meses o Flamengo vem despontando como o melhor time do Brasil, com ótimos valores individuais e conjunto bem azeitado; o meio de campo com Gerson, e o ataque com Arrascaeta, Gabriel e Bruno Henrique, são o que há de melhor no futebol brasileiro. Merecidamente é o campeão!
Mas vejam as surpresas que nos pregam o futebol. O São Paulo vem perdendo todas as últimas partidas, jogando mal, sem técnico titular; o Flamengo só precisava de um empate; iniciou o jogo com total domínio sobre o adversário, e perdeu de 2 a 1.
Na outra decisão, Internacional versus Corinthians, o Inter precisava de vitória simples para ganhar o campeonato; o adversário passa por péssima fase; e o jogo ficou no 0 a 0. Muita incompetência do time gaúcho em não conseguir um único golzinho. (A foto acima mostra o anticlímax da decisão: jogadores do Flamengo na espera do encerramento do jogo do Inter.)
Mais uma vez prevalece o chavão: futebol não tem lógica. Mas o resultado final confirmou: venceu o melhor!
O Palmeiras, bem, o Palmeiras venceu a Libertadores, e no próximo domingo joga a primeira partida (melhor de duas) contra o Grêmio de Porto Alegre, pela Copa do Brasil. O time precisa melhorar. Daí esta crônica tão insípida insossa desenxabida.
Fotografia
A pequena ponte de pedra, no primeiro plano da fotografia, une as duas partes do povoado separadas pelo riacho. Ou se trata de pequena vila ou bairro de uma cidade maior? De onde vem água tão limpa e transparente? Ao fundo, tem-se a impressão que há um grande paredão, parcialmente recoberto por exuberante vegetação, por onde penetram raios de sol. O riacho parece contornar o paredão, serpenteia. Imagino que as casas tenham sido construídas em estreita faixa de terra entre o paredão e a água. Que água é essa? Um grande lago? Braço de mar? O rio do qual o riacho é afluente? À esquerda, a construção de três andares, parcialmente recoberta pela era, exibe o amarelo das cidades italianas; a ponte se abre em passagem por dentro desse edifício, verdadeira calçada coberta a margear a água. À direita a construção é de pedra, bem antiga; o pequeno lampião, à noite, ilumina a passagem; mais recentemente, o proprietário acrescentou um puxadinho, revestido de cimento, que chama a atenção pelo vermelho da porta rente à ponte; os pintores adoram acrescentar à paisagem o detalhe em vermelho que dá vida ao quadro – o Quarto do artista em Arles, de van Gogh, é exemplo clássico; aplica-se aqui, portanto, a expressão “parece uma pintura”!
Depois de muito observar esta paisagem bateu-me profunda tranquilidade. A curiosidade inicial – onde fica este lugar? – foi substituída pela fantasia: gostaria de morar ali para poder transitar por aquela ponte e, de costas para o paredão, ver onde deságua o riacho. Se encontrasse no caminho, por sobre a ponte, um conhecido, haveríamos de conversar um pouco, falar do tempo, das coisas banais do cotidiano, nada além disso, e cada qual tomaria seu rumo. Caso encontrasse uma linda mulher, a convidaria para uma taça de tinto na adega mais próxima. Divagações.
Cada lagarta tem seu gosto;
algumas preferem urtigas.
Provérbio japonês
Acima, a epígrafe de Há quem prefira urtigas, de Jun`Ichiro Tanizaki (Companhia das Letras, 2003, tradução de Leiko Gotoda). Assim tem início o romance:
“E então? Você vai?”, desde cedo naquela manhã, Misako perguntava ao marido, mas as respostas ora eram evasivas, ora ambíguas. Aliás, ela própria não sabia que atitude tomar e, indecisos, os dois haviam perdido a manhã. Cerca da uma da tarde, Misako tomou banho e aprontou-se para qualquer eventualidade. Em seguida, sentou-se em mudo incentivo perto do marido que, jogado sobre o tatame, ainda lia o jornal; mas nem assim consegui fazê-lo definir-se.
– Que acha de tomar um banho, ao menos? – perguntou.
– Hum...”
A cena se passa no Japão, década de 1920: Misako e Kaname, que já não encontram amor no casamento nem sentem atração física um pelo outro, decidem se separar. Por razões obscuras até mesmo para ambos, não conseguem pôr fim ao próprio casamento. O autor expõe assim os dilemas da velha tradição japonesa em confronto com a nova geração influenciada pelo ocidente.
O casal estabelece então uma série de regras de comportamento afetivo, na expectativa de que, com o tempo, ocorra a separação definitiva e pouco traumática. Enquanto isso, Kaname visita a prostituta Louise, e Misako pretende refazer a vida ao lado de Aso, seu amante.
Personagem interessantíssima é o velho pai de Misako, amante do tradicional teatro de bonecos, e que vive com a concubina Ohisa, trinta anos mais jovem. É ele quem revive as os costumes japoneses mais tradicionais, que o autor faz questão de enfatizar em seus livros, de modo a valorizar e até mesmo opor a tradição nipônica aos novos hábitos do ocidente.
Ao final do romance, o pai de Misako, bem velho, arroga a si o direito de opinar sobre o destino do casal, que não tem alternativa senão ouvi-lo. Fica patente o respeito que aquele povo tinha pelo parente mais velho àquela época.
(Foi inevitável para mim comparar este aspecto com as relações familiares em nosso meio, nos dias de hoje, onde o mais velho não é ouvido; suas opiniões não interessam ao mais jovem; ele já não tem valor como pessoa; o velho precisa lutar, se assim o desejar, para ao menos preservar o respeito dos mais novos. Não li isso em lugar algum; escrevo assim porque tenho experimentado isso.)
Sou fã de Jun`Ichiro Tanizaki que, com seu estilo bem cuidado, me revela um outro tipo de viver, de sentir, de pensar.