quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

Epítetos presidenciais

 

A assunto tem sido recorrente neste blog, tanto mais que o blogueiro adora listas. Refiro-me ao costume que se difundiu amplamente, o de xingar o presidente; além de enriquecer o vocabulário do leitor, serve para extravasar nossa indignação diante dos desmandos, da insanidade, de tanta incompetência. Quando o casal presidencial inaugurou a exposição pública dos trajes usados na posse, este blog apresentou a lista de epítetos cabíveis.

https://loucoporcachorros.blogspot.com/2020/12/qual-melhor-legenda.html

            Hoje quem traz sua lista é o grande Ruy Castro, para a Folha de S.Paulo: Novos xingamentos contra Bolsonaro - A pecha de corruptor, covarde e traidor se junta às outras para definir o pior presidente do país (26 jan 2021). Ruy escreve:

 

“Desde sua posse, Jair Bolsonaro já foi chamado de cretino, grosseiro, despreparado, irresponsável, omisso, analfabeto, homófobo, mentiroso, escatológico, cínico, arrogante, desequilibrado, demente, incendiário, torturador, golpista, racista, fascista, nazista, xenófobo, miliciano, criminoso, psicopata e genocida. Os autores dessas desqualificações são cidadãos comuns que escrevem mensagens para os jornais, produzem memes e entopem as redes sociais. Está tudo registrado e seria divertido ver o governo processar tal multidão.”

 

            Ruy acrescente: “Mas é inútil, porque nada ofende Bolsonaro. Ele se identifica com cada desaforo. Afinal, foi quem rebaixou o Brasil ao nível de estrebaria de quartel... Nos últimos dias, Bolsonaro ganhou dois novos epítetos populares. Um, o de covarde, ao jogar a culpa por seus crimes nos ministros que ele mesmo escolheu e doutrinou. Outro, e que só agora começa a ser percebido por seu próprio público, o de traidor, ao se pôr de quatro diante dos países, pessoas e instituições que ele ordenou odiar.”

            E a lista cresce sem parar!

            

 

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ruycastro/2021/01/novos-xingamentos-contra-bolsonaro.shtml

 

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Machado para adolescentes


Antonio Candido

Felipe Neto provocou rebuliço nas redes sociais neste sábado (23 jan 2021), ao utilizar a corrente “Crie uma treta literária e saia”, no Twitter, para afirmar que “indicar livros clássicos como os de Álvares de Azevedo e Machado de Assis nas escolas contribuiu para que muitos adolescentes tenham aversão à leitura.”
          Ele acrescenta: “Forçar adolescentes a lerem romantismo e realismo brasileiro é um desserviço das escolas para a literatura. Álvares de Azevedo e Machado de Assis não são para adolescentes! E forçar isso gera jovens que acham literatura um saco.”

A postagem teve mais de 32 mil curtidas e 11 mil comentários, com participação de “especialistas em linguística concordando com o youtuber e muitos leitores revoltados com os argumentos usados por ele na discussão.” 

De antemão, me declaro incompetente para discutir o assunto. Só posso falar de minha experiência pessoal. Criamos, eu e meus irmãos, o hábito da leitura com Monteiro Lobato – leitura fácil, interessantíssima, a prender nossa atenção como se aquilo fosse realidade e não ficção, marca que perdurou pela vida inteira. No ginásio, tivemos o melhor professor de português possível, de nome Afonso, rígido, a cobrar a memorização de um poema por semana e a leitura de um livro (aprovado por ele) por mês. Líamos então Machado de Assis e Álvares de Azevedo.

Era chato? Às vezes era chato. Mas matemática, história, latim, música, e tantas outras disciplinas também poderiam ser enfadonhas em determinados momentos. Não deixamos de estudá-las por isso.

Entrar em contato com Machado já era importante, mesmo que não pudéssemos alcançar um cisco de sua genialidade.

Porém, minha experiência pessoal só vale para mim, não serve de argumento contrário ou a favor do tema em discussão. Me amparo em  autoridade no assunto: no ensaio “O Direito à Literatura”, Antonio Candido já explicava a importância do ensino curricular e democrático da literatura nas escolas:

 

“Por isso é que em nossas sociedades a literatura tem sido um instrumento poderoso de instrução e educação, entrando nos currículos, sendo proposta a cada um como equipamento intelectual e afetivo. Os valores que a sociedade preconiza, ou os que considera prejudiciais, estão presentes nas diversas manifestações da ficção, da poesia e da ação dramática. A literatura confirma e nega, propõe e denuncia, apoia e combate, fornecendo a possibilidade de vivermos dialeticamente os problemas. [...] Ela não corrompe nem edifica, portanto; mas trazendo livremente em si o que chamamos o bem e o que chamamos o mal, humaniza em sentido profundo, porque faz viver”.

 

        Nada a acrescentar. Mas um bom professor pode ajudar muito!

 

https://jovempan.com.br/entretenimento/famosos/felipe-neto-critica-indicacao-de-livros-classicos-para-adolescentes-e-gera-polemica.html

 

domingo, 24 de janeiro de 2021

Questão de competência


Durante a semana, ele cozinha o trivial. Aos fins-de-semana, a chef assume e ele lava os pratos.

Há médicos e médicos!

 

Há médicos e médicos, porque antes de tudo vem a pessoa.

            Mineiro, natural de Uberaba, Clóvis era um desses seres especiais, que escolheu a Medicina por pura vocação. Pessoa simples, pouco afeito às artes em geral e em particular às sutilezas da literatura, fez questão de preservar suas origens no trato com as pessoas e no modo de falar.

            Eu, que o conheci bem  trabalhamos juntos –, guardo dele bela lembrança: nunca conheci profissional que conseguisse estabelecer melhor relação médico-paciente. A comprovação desse fato está na extraordinária história que passo a contar.

            Outro dia atendi em meu consultório a senhora H., acompanhada do marido; ela, perto dos 50 anos, nervosíssima, agitada, assustadiça, qualquer movimento meu era visto como uma ameaça à sua integridade física, queixava-se de surdez na orelha esquerda; o marido, paciente, calmo, sorridente, por certo acostumado com o desempenho teatral da esposa.

            Depois de examiná-la, indiquei uma simples lavagem de ouvido, para remoção de cerume. A mulher foi às nuvens; chorou desbragadamente, gritou, esperneou, imprecou aos céus que se me abatesse uma desgraça qualquer, e por fim, sobrou para o marido, Eu não disse que não queria vir nesse médico? 

            – Não permito de maneira nenhuma, assim ela encerrou o assunto.

            – Já teve filhos, senhora H.? perguntei calmamente.

            – Tive dois, um casal.

            – E como foi isso? Parto normal?

            – Sim, partos normais.

            – A senhora, como se comportou?

            – Doutor, sou uma predestinada porque tive a fortuna de ser atendida pelo Dr. Clóvis, mineiro de Uberaba, o senhor por acaso ouviu falar?

            – Sim, ouvi falar. Bom médico?

            – Aquilo é que era médico, o resto é conversa. Desculpe doutor, sem desfazer do senhor. Vou lhe contar uma história que é a prova de que estou falando a verdade.

            E a senhora H. iniciou longo relato sobre o primeiro parto, o segundo parto, as inúmeras vezes em que foi socorrida pela incomparável competência do Dr. Clóvis, e como era a última consulta da tarde, ouvi com paciência e interesse o caso do meu falecido amigo, de saudosa memória.

            – O que eu mais apreciava no Dr. Clóvis era o carinho com que me tratava! Um belo dia, chamei ele em casa por causa de forte gripe. Ele chegou logo depois da hora do almoço, ouviu minhas queixas, me examinou com o cuidado de sempre, mediu pressão, tomou pulso, escutou coração, pulmões, palpou a barriga (ai que vergonha!), meticuloso, calmo, seguro de si. Passou a receita, me tranquilizou, nada de grave; prescreveu repouso. 

            A consulta estava por terminar quando resolvi lhe oferecer delicioso licor de jabuticaba que tenho guardado com carinho, a especialidade da casa. Dr. Clóvis aceitou de pronto! E tomou o primeiro cálice, pediu mais, o segundo, o terceiro... Conversa vai conversa vem, bebeu toda a garrafa do meu precioso licor, o senhor acredita?

            Estávamos em meu quaro, onde me examinou e onde tenho confortável sofá. Pois não é que Dr. Clóvis pediu licença para repousar um pouco, deitou-se, e quando acordou já era noite fechada. Assim era o meu médico, gente como a gente. Que Deus o tenha, Louvado Senhor Jesus Cristo. Nunca vi outro igual, sem desfazer do senhor, é claro.

            Já mais calma, consegui fazer a lavagem da orelha da senhora H., sem maiores percalços. Fui bastante delicado nas manobras, mas nada que se comparasse ao meu falecido amigo Clóvis. Aquele sim, era um bom médico!

            

sábado, 23 de janeiro de 2021

Blog do Moisés!



 

“Escrever me ensinou a ler. Experimentar a solidão da tela em branco me fez admirar Pessoas, Hildas e Quintanas, mas também despertou a minha inveja em prosa e verso. Milhares de frases, metáforas e ideias que deviam ser minhas já estavam publicadas.”

 

Moisés Tito Lobo Furtado 

 

            O texto acima faz parte da belíssima crônica intitulada Por quê, que inaugura o Blog do Moisés! Uma grande notícia! 

            Para quem não o conhece, Moisés é uma pessoa extraordinária, pela doçura, pela capacidade de sentir e pensar, pela empatia congênita com que se relaciona com as pessoas. Ele lê muito sobre filosofia, de modo que está sempre a nos inquirir, provocar, desafiar mesmo, o que em muito nos enriquece.

            Moisés gosta de ler e escrever, como assinala no parágrafo acima, frequenta oficina de escrita, se esmera na escritura, luta com as palavras, edita e reedita o texto infinitas vezes, exigente consigo mesmo. Há muito espero que os textos dele saiam da gaveta e sejam publicados, para a felicidade geral da nação!

            Moisés é um homem de rara sensibilidade. Conhecê-lo foi um privilégio para mim. Ser seu amigo é uma honraria!

            

 

Agora temos o blog dele:

 

https://moisestitolf.blogspot.com/2021/01/por-que.html

 

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

My dining room

Meus quadros favoritos

 

Wassily Kandinsky, 1909

Paula brilha outra vez!

 








Paula tornou-se vencedora de inúmeros concursos internacionais de foto sub. Parabéns, querida Paula!
Interessante observar o volume de equipamentos com os quais ela mergulha para fotografar!


Mulher aranha!




A Cruzada das Crianças



A Cruzada das crianças, de autoria do francês Marcel Schwob (1867-1905), originalmente publicado em 1896, é uma pequena obra-prima! 

O livro recria, em prosa poética, a lendária cruzada das crianças em 1212 rumo a Jerusalém, em busca do Santo Sepulcro. O autor apresenta o relato independente de oito “testemunhas”, todos ligadas ao evento: o goliardo, o leproso, o Papa Inocêncio III, três criancinhas, o escrevente François Longuejoue, o calândar (monge maometano), a pequena Allys e o Papa Gregório IX. Eis o que este último pronunciou:

 

“Deus trouxe para si as crianças que participaram das cruzadas, graças ao santo pecado do mar; seres inocentes foram massacrados, e seus corpos encontrarão asilo. Sete barcos naufragaram no recife do Recluso: construirei a igreja dos Novos Inocentes nesta ilha, onde nomearei doze prebendeiros. E tu me devolverás os corpos de minhas crianças, mar inocente e consagrado; tu as levarás às praias da ilha; e os prebendeiros acomodarão os corpos nas criptas do templo; e acenderão com os óleos sagrados lâmpadas perpétuas, para mostrar aos viajantes devotos estes pequenos esqueletos brancos estendidos na noite.”

 

            Antes de algumas palavras sobre o que é fato e o que é lenda nessa história, ressalto a bela edição composta pela Editora 34 (2020), com prólogo de Jorge Luis Borges, ilustrações de Fidel Sclavo, e primorosa tradução de Milton Hatoum, da Coleção Fábula. O projeto gráfico é de Raul Loureiro, com belíssima capa a representar “o mar  devorador que parece inocente e azul, mar de ondulações suaves orlado de branco como uma veste divina”, nas palavras de Gregório IX.

 


A Cruzada das Crianças, por Gustave Doré

 

            A Cruzada das Crianças resultou de um conjunto de fatos esparsos, dando origem às mais variadas fantasias populares que se verificaram por volta do ano de 1212. Segundo o historiador Peter Raedts (The Children's Crusade of 1212, Journal of Medieval History, 3 (1977), nesse ano ocorreram “Duas movimentações de pessoas na França e na Alemanha. Algumas semelhanças entre as duas facilitaram que fossem mais tarde agrupadas como uma única história.”

“No primeiro movimento, Nicholas, um pastor de apenas 10 anos, da Alemanha, conduziu um grupo através dos Alpes até à Itália, na primavera de 1212. Cerca de 7 000 chegaram a Génova no final de agosto. No entanto, como as águas do Mediterrâneo não se afastaram para eles poderem passar como prometido, o grupo separou-se. Poucos conseguiram regressar a casa [alguns tornados escravos] e nenhum chegou à Terra Santa.”

“O segundo movimento, segundo Frederick Russell (Children's Crusade, Dictionary of the Middle Ages, 1989), foi conduzido por um jovem pastor de 12 anos chamado Estêvão de Cloyes que em junho de 1212 afirmou ser portador de uma carta de Jesus para o rei de França. Tendo conseguido atrair uma multidão de mais de 30 000 pessoas, dirigiu-se para Saint-Denis onde foi visto a praticar milagres. Aí, terão recebido de Filipe II de França, aconselhado pelos sábios da Universidade de Paris, ordens para dispersar, que a maioria terá seguido. Nenhuma das fontes contemporâneas aos eventos menciona planos para a multidão se dirigir a Jerusalém.”

 

A partir desses fatos, com alguma sustentação histórica, cronistas de várias origens criaram a lenda A Cruzada das Crianças. Talvez os participantes sequer fossem crianças, pois na mesma época surgiram várias migrações de pobres por toda a Europa, bandos chamados de pueri (do latim rapaz). Mais tarde o termo pueri foi traduzido para crianças.

 

 

https://pt.wikipedia.org/wiki/Cruzada_das_Crianças#cite_note-2