segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

A presumível verdade do outro




 

“Para o alfarrabista, a história pessoal dificilmente poderia ser narrada pelo próprio indivíduo, antes pelo vizinho que, embora ausente do drama alheio, tinha o mérito de deformar, de ampliar, de cancelar qualquer aspecto da jornada do outro, de se acercar da sua presumível verdade.”

 

            O trecho acima encontra-se na página 369 de Um dia chegarei a Sagres, de Nélida Piñon (Record, 2020), um livro “difícil” (voltaremos a ele), mas que dá margem a comentários e especulações. O alfarrabista da história representa o sábio, homem que coleciona documentos históricos – dá valor à verdade! –, mentor do personagem central do livro.

            A primeira sentença é categórica: “a história pessoal dificilmente poderia ser narrada pelo próprio indivíduo”. 

            Alguém próximo (vizinho), ou que se aproxima, este sim será capaz de contar a história do outro, embora não a viva propriamente. Por que? Porque será capaz de se utilizar da ficção para contá-la; só a ficção tem a capacidade de deformar a realidade, de aumentá-la ou mesmo suprimi-la. 

            E para quê modificar a realidade vivida pelo outro através da ficção? Simplesmente para poder chegar um pouco mais perto da verdade. Se o sujeito, ele mesmo narra sua história pessoal, haverá de afastar-se cada vez mais da verdade, sem se dar conta disso; a ótica dele se estreita, ao reduzir a visão das coisas e do mundo apenas sob seu próprio olhar e entendimento; onde não haverá ficção, e sim mentira. Mentira inconsciente, não intencional, pois a verdade mais íntima de cada um ninguém revela, distanciando-se assim da verdade.

            E a verdade será sempre presumível, como escreve Nélida Piñon.

 

domingo, 10 de janeiro de 2021

Um sentido para a vida

 

O primeiro dos aforismos de Franz Kafka, na tradução sempre correta de Modesto Carone (Serrote, IMS, 2009), é um alerta para todo ser humano: 

 

“O verdadeiro caminho passa por uma corda que não está esticada no alto, mas logo acima do chão. Parece mais destinada a fazer tropeçar do que a ser percorrida.”

  

 

            Inspirado na fotografia acima, compus minha versão da ideia kafkiana: A vida é uma pinguela repleta de espinhos por onde andamos com a certeza de que em algum momento vamos tropeçar e cair.

            Minha mulher traduziu tudo isso de maneira mais clara e objetiva: “Quando você pensa que está abafando, é aí que cai no buraco.”

            Septuagenário, por experiência própria, posso atestar que a ideia é verdadeira. Estamos sempre a tropeçar. E a cair. Então, fazer o quê?

            Duas possibilidades se apresentam diante da queda: ou permaneço estendido no chão, ou me levanto. A primeira se encerra em si mesma. Mas se me levanto, me situo novamente diante da certeza que tornarei a cair.

Caio pela segunda vez. Duas possibilidades se apresentam: ou permaneço estendido no chão, ou me levanto. A primeira se encerra em si mesma, já sabemos. Mas se me levanto, agora sei que tornarei a tropeçar e cair. Aprendi com a dor da experiência. Então, como enfrentar a inexorável e infinita sentença?

Primeiro, aprendo aceitar tal realidade: a vida é um eterno tropeçar, cair e se levantar. Coloco-me diante de um espelho – porque o mundo real é um espelho onde posso me observar permanentemente – e me vejo repetindo esta cena: tropeçando, caindo, me levantando. Se me observo, posso ir aprendendo alguma coisa, sempre a duras penas. Se vou aprendendo, talvez possa tropeçar menos; e se tropeçar, posso me equilibrar e não cair. (Na certeza de que da próxima vez, vou cair.)

Que sentido emprestar a isso tudo? 

Que estamos aqui para aprender. Assim atesta a Evolução das Espécies.

A série continua!

Non-sense-photography 


Infância mal digerida.




O celular não a deixava comer.


quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Um escritor

 

Ele gostava mesmo de escrever. Escrevia muito. Na opinião de alguns, escrevia muita merda. Ainda assim, não parou de escrever.


O Anjo na Vila

Meus quadros favoritos

  


Marc Chagall, 1930


Reconhecimento facial

 


Dois invasores do Congresso Americano

As faces não se parecem com aquelas da Idade Média, reveladas por inúmeras pinturas?



Golpe anunciado

 

Bolsonaro apoia Trump e diz que houve fraude nos EUA enquanto mundo critica assalto ao Capitólio. Esta é a manchete do El País (6 jan 2021). A reportagem informa:

“Os principais líderes mundiais assistiram com espanto ao ataque à sede do Congresso dos EUA por manifestantes instigados pelo presidente Donald Trump. A seriedade dos acontecimentos no Capitólio dos Estados Unidos levou à condenação de grande parte dos líderes mundiais, que concordam em pedir calma e respeitar a vontade das urnas. Não foi, no entanto, o caso de Jair Bolsonaro.”

         

Bolsonaro apoiou a invasão do Congresso americano incitada por Trump, e quando perguntado por apoiadores, respondeu: “Eu acompanhei tudo. Você sabe que eu sou ligado ao Trump. Você sabe da minha resposta. Agora, muita denúncia de fraude, muita denúncia de fraude. Eu falei isso um tempo atrás.”

Em seguida Bolsonaro voltou a falar em fraude na sua eleição em 2018. “A minha eleição foi fraudada. Eu tenho indícios de fraude na minha eleição. Era para eu ter ganho no primeiro turno.” Mas ele nunca apresentou as provas.

 

Está mais que evidente que é a nossa democracia que está permanentemente ameaçada por Bolsonaro; se ele não for reeleito em 2022, uma tentativa de golpe está desde já anunciada.

 

 

https://brasil.elpais.com/brasil/2021-01-07/bolsonaro-apoia-trump-e-diz-que-houve-fraude-nos-eua-enquanto-mundo-critica-assalto-ao-capitolio.html

 

Barbárie

A foto do dia 


Invasão do Capitólio dos EEUU ontem

Leah Millis / Reuters

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Beleza

Fotografia

 

Marlon Brando fotografado por Cecil Beaton, 1946

 

 

Para as mulheres, e quem mais gostar, eventuais leitoras do Louco. A foto e o gajo são mesmo lindos!

 

Tem lógica?

 

 

Viña comemora o terceiro gol do Palmeiras

Juan Ignacio Roncoroni/Reuters

 

 

Quem gosta de futebol adora e cultiva o riquíssimo jargão futebolístico, a emprestar precioso toque de humor ao esporte. Algumas frases são verdadeiras pérolas da mais pura ingenuidade infantil, repetidas ao longo das décadas. O jogo só acaba quando termina! Futebol é coisa séria! Clássico é clássico! Estes são exemplos desse folclore!

            Porém, há um dito que considero infalível, e deve ser aplicado quando seu time vai enfrentar adversário sabidamente superior – como ocorreu ontem à noite, no jogo de ida da Libertadores, entre River Plate e Palmeiras, na Argentina. A frase é: Futebol não tem lógica.

            O Palmeiras vem de uma série extenuante de jogos, com muitos jogadores contundidos (do jargão), e uma contaminação generalizada pela covid-19 há poucas semanas. O River, em casa, é considerado imbatível, mesmo porque tem um ótimo conjunto e preserva o mesmo técnico há vários anos. Minha previsão era de que se perdêssemos por 1 a 0, este seria um bom resultado. 

O adversário começou jogando melhor, com preciso toque de bola, errando poucos passes. Mas o alviverde (jargão de novo) não recuou, e Weverton, o goleiro, fazendo lançamentos surpreendentes para Rony, um perna-de-pau desmiolado. Pois foi esse desmiolado que abriu o placar (jargão...) com belo chute (que desviou no beque), depois de clamorosa falha do goleiro portenho. 1 a 0! O técnico argentino estampou sorriso irônico e balançou a cabeça, Isso é apenas um acidente.

O Palmeiras aproveitou a leve desorientação do adversário e continuou no ataque, com gol anulado por poucos centímetros de impedimento (não vou explicar para as mulheres o que isso significa).

Logo no começo do segundo tempo, belíssimo gol de contra-ataque do Verdão! Inacreditável! 2 a 0! O técnico argentino mostrou novamente seu sorriso irônico e tornou a balançar a cabeça.

Às tantas, Gabriel Menino deu uma de argentino, matou a bola de letra, e causou o maior destempero no time adversário, que se sentiu humilhado. Na primeira oportunidade, um esquentadinho desferiu incrível pontapé em Gabriel, na cara do juiz, sendo imediatamente expulso de campo. Era a vitória que se anunciava.

O River não desistiu, continuou atacando. De repente, de bola parada, em escanteio, Viña marcou de cabeça: 3 a 0 para o Palmeiras! Muito sério, carrancudo, o técnico argentino agora olhava para o chão. Eu, ria à toa!

Mais que improvável, tal resultado era impensável antes da partida. Porém, reza a cartilha popular, futebol não tem lógica.