sábado, 7 de novembro de 2020

Gritaria

 


Fê / Folhapress

Ilustração da coluna de José Simão,
para a Folha de S.Paulo hoje.

O que vejo?
Vejo um demônio a gritar pela boca de certo hospedeiro que ostenta a faixa verde-amarela.
É o que vejo.




Divisão de tarefas


O texto é do grande Fernando Reinach, para O Estado de S.Paulo 

(7 nov 2020), sob o título Fósseis de mulheres caçadoras sugerem que divisão de tarefas por gênero é recente na história humana

         A ideia de que mulheres criam os filhos enquanto os homens sustentam a família, vigente até tempos recentes, também foi observada em sociedades primitivas, a ponto de se pensar que esse arranjo sempre existiu entre os Homo sapiens.

A caça de grandes mamíferos sempre foi pensada como  uma atividade coletiva, principalmente quando feita com lanças de madeira e pontas de pedra. Afirma Reinach: “É a colaboração entre um grande número de indivíduos que permite perseguir, cercar, imobilizar e matar a presa. O fato de nossos ancestrais viverem em pequenos grupos e se movimentarem constantemente dá suporte a essa ideia.” 

Em 2013, no Peru, a 3.925 m acima do nível do mar, foram encontrados grande quantidade de artefatos humanos e vários esqueletos, entre estes o de uma mulher de 17 anos que havia morrido 8 mil anos atrás. Ao lado dela foram achados artefatos que “deviam estar em uma bolsa que se decompôs com o tempo” (pontas de lança, pedras na forma de facas usadas para retirar o couro do animal, facas de pedra para retirar a carne e pedras usadas para limpar o couro), usados na caça de grandes animais. 

Concluem os arqueólogos: “Essa mulher de 17 anos muito provavelmente era uma caçadora que vivia no altiplano se alimentando da caça e de partes de plantas. E, como era comum nessa cultura, foi enterrada junto com seus objetos pessoais.” 

Novas pesquisas revelaram dezenas de esqueletos espalhados desde a América do Norte até o sul do Chile, e “aproximadamente um terço das pessoas enterradas com utensílios de caça eram mulheres”.  

“A conclusão é de que existe a possibilidade de que nossos ancestrais, que viviam como coletadores e caçadores, praticavam a caça em grupos e nessa atividade mulheres e homens compartilhavam as tarefas. Se isso for verdade, é muito provável que a nossa espécie tenha passado a maior parte de sua existência no planeta em uma organização familiar em que homens e mulheres dividiam a atividade da caça.

  A divisão das tarefas entre os sexos, portanto, vem sofrendo modificações em seu arranjo familiar há milênios, fato que se pode observar nos dias de hoje: mulheres saem para trabalhar enquanto homens cuidam da casa e dos filhos. E em tempos de peste, os homens aprendem a cozinhar... 

 

https://ciencia.estadao.com.br/noticias/geral,fosseis-de-mulheres-cacadoras-sugerem-que-divisao-de-tarefas-por-genero-e-recente-na-historia-humana,70003504500

 

Pandemia

Saturação

 

Estava vivo há tanto tempo que se tornou alheio a pizzas.

 

 

 

Pandemia

 

O almoço era o momento mais aguardado do dia. Recebia pelo menos três ligações das moças do telemarketing.

 

 

 

Pós-pandemia

 

A primeira reunião de condomínio ficou lotada.

 

 

 

TOC avançado

 

O tapa na cara veio no metrô, ao tentar libertar a saia enganchada entre as nádegas de uma forte senhora.

 

 

 

Vício

 

Insistia em (não) viver como se a cura para a morte já tivesse sido inventada.



                               Moisés Lobo Furtado 

                               para honra deste blog!

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Morre Lan, aos 95


Lan (1925-2020)


Clique para aumentar, para ler o que está escrito no jornal que foi para o lixo!

Por quê tanto sofrimento?



Friedrich Nietzsche (1844-1900)

 


Por quê tanto sofrimento no mundo? Quem pergunta é toda a humanidade, independentemente de raça, cor, religião, posição política, ou qualquer outra diferença entre pessoas, países, continentes.

            Voltemos a Viviane Mosé, em seu livro Nietzsche hoje, já apresentado nesse blog:

 http://loucoporcachorros.blogspot.com/2020/10/nietzsche-hoje.html.

            Vamos ao capítulo Sobre o Sofrimento (p. 100-101):

 

“A dor advém, antes de tudo, do choque que caracteriza a vida como eterna expansão, eterna superação de si mesma. Em outras palavras, a dor é própria da vida, não tem como eliminá-la completamente, especialmente a dor psíquica, a dor de existir, de ter que fazer escolhas, lidar com as perdas, com o erro, com a morte...”

 

            E Viviane complementa:

 

“A dor é uma positividade, possui uma função no organismo; ela é um sinal, um alarme, portanto é preciso aprender a interpretá-la considerando o fluxo da vida, considerando as forças que estão em questão. A dor é sinal de recolhimento, retração, requer cuidados.”

 

            Nos anos 70, era professor em tempo integral e dedicação exclusiva no Hospital de Sobradinho, cidade satélite de Brasília, o então hospital de ensino da Universidade de Brasília, que vinha desenvolvendo interessante projeto de Medicina Integrada. (Um pobre coitado residente no sul do Piauí, com apendicite aguda, tinha acesso ao nosso hospital com mais facilidade do que encontrava atendimento em outra cidade, incluindo a capital de seu estado.) Tínhamos contato com as patologias as mais variadas, e com os respectivos sofrimentos que as acompanhavam.

            

Menina mirrada, perto de 5 anos de idade, chega ao hospital com enorme inchaço em um dos tornozelos, sem outros comemorativos – no jargão médico –, sem febre, sem dor no local da lesão. Ao exame físico, a manipulação do local afetado não ocasiona qualquer sinal de dor. A radiografia revela fratura grave da tíbia e de alguns ossos do tornozelo. Ela nega dor.

Renomado Professor de Pediatria, natural do Chile, atraído a Sobradinho pelo tal projeto de ensino, como tantos outros o fizeram e convidado ver a menina mirrada. Ele a ouve, examina, olha a radiografia, chama a enfermeira e solicita uma agulha hipodérmica, dessas de injeção. Pede gentilmente que a menina desvie o rosto para o outro lado, toma-lhe o fino bracinho, e em frente de todos nós, o transfixa com a agulha. A menina não se mexeu. Com certo tom teatral, anuncia o diagnóstico: 

– Agenesia Congênita da Dor, doença incompatível com a vida.

Complemento eu: uma simples apendicite aguda, uma pneumonia, levam à morte, pois na ausência de dor não se suspeita de que algo esteja errado, não se faz  diagnóstico precoce. (A menina continuava andando, o que agravava ainda mais as lesões, por não sentir dor.)

Inspirada em Nietzsche, Viviane aponta: [a dor] “possui uma função no organismo; ela é um sinal...”

 

Outro conceito que desejo enaltecer nos dois pequenos trechos apresentados por Viviane, sempre inspirada no filósofo alemão, é que “a dor é sinal de recolhimento”. Em se tratando da dor psíquica, penso que o recolhimento significa prudência e ao mesmo tempo terapia. (Talvez por isso tantos procurem o silêncio e a penumbra de uma igreja.)

Diante do sofrimento psíquico alguns gritam, esbravejam, amaldiçoam, praguejam, o que só faz aumentar o desequilíbrio mental. O recolhimento propicia o olhar para dentro, permite sentir a dor – aprendi com a psicanálise que esta dor pode doer muito, mas não mata.

Gosto muito da palavra recolhimento. Penso que escrever é uma forma de recolhimento. 

Segundo Nietzsche, a dor é própria da vida.

 

            

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Imprevisibilidade



Matheus Davó comemora o gol da vitória corinthiana 

sobre o Internacional Amanda Perobelli/Reuters


 

Muita gente não gosta de futebol, as mulheres não costumam gostar, é claro, não jogaram bola quando criança, alguns homens não gostam, pudera, sempre iam para o gol quando criança, mas os que viveram a infância num campinho de pelada e lá aprenderam que futebol é jogo para homem, lá aprenderam a falar palavrão, a  experimentar caneladas joelhos ralados cotoveladas na cara tornozelos torcidos braços quebrados e outros desaforos, para esses, impossível deixar de gostar de futebol. É o eterno retorno da infância.

            Agora adultos, para nós o esporte ganha outra dimensão, outros interesses, dentre os quais se destaca a imprevisibilidade.

            Vivemos um Campeonato Brasileiro atípico, como quase tudo no mundo de hoje, por causa da peste. Aos trancos e barrancos, os times vão sobrevivendo, lutando contra o vírus, a falta de preparo físico, a ausência de entrosamento em campo. Apenas dois times conseguem manter um bom nível de jogo: o Flamengo, que vinha muito bem antes da pandemia, treinado por Jesus, e o Internacional, mostrando futebol de respeito, competitivo.

            Neste fim de semana ambos contavam com mais três pontos na tabela, a preservar a disputada liderança. No Maracanã, o Flamengo pegaria o São Paulo, time de desempenho irregular, embora bem colocado na tabela. Em Itaquera, o Corinthians, que não vai lá das pernas, mais para a lanterna que para o topo do campeonato, pegaria o Internacional. Os comentaristas de futebol, raça em franca expansão em tempos de peste, eram quase unânimes: O Mengo vai sobrar, O Inter vai enfiar 5.

            O bonito do esporte é a tal imprevisibilidade, contra tudo e contra todos, contra a estatística, o mando de campo, os desfalques, a ausência do craque do time, a torcida contrária ou até a ausência de torcida. Daí o ditado infalível: Clássico é clássico! (Explico, para quem não é do ramo: tudo pode acontecer em um clássico!)

            Não deu outra. Jogando bem o Corinthians ganhou de 1 a 0 do poderoso Internacional e o São Paulo goleou o grande Flamengo por 4 a 1.

            Agora é esperar pela próxima rodada.

 

 

5 microcontos do Moisés


Óculos novos

 

Assustou-se ao ver as mãos de seu pai brotando em seus punhos.

 

 

 

Pré-malignidade

 

 “A partir de agora, alegria só na sombra”, prescreveu a dermatologista.

 

 

 

Melhor idade

 

A velhice caiu-lhe bem. Nunca soube lidar com excesso de opções.

 

 

 

Limites

 

O céu me causa claustrofobia.

 

 

 

Não à precarização

 

O candidato à presidência do sindicato dos taquígrafos prometeu lutar pela reposição dos feriados perdidos na pandemia.



                            Moisés Lobo Furtado