domingo, 4 de outubro de 2020

Música "brega"





Para início de conversa, uma informação importante:

“O Instituto Memória Musical Brasileira (IMMuB) é uma organização sem fins lucrativos sediada em Niterói – RJ que é voltada para a pesquisa, preservação e promoção da Música Popular Brasileira. ...Fundado em 2006, o IMMuB conseguiu mapear e catalogar mais de 82 mil discos produzidos no país. Isto equivale a aproximadamente 580mil fonogramas, reunindo mais de 91 mil compositores e intérpretes. Fruto de 25 anos de pesquisa, a catalogação abrange toda a história da música brasileira, desde a primeira gravação em 1902 até os lançamentos mais recentes. O acervo segue em constante expansão, recebendo centenas de discos, capas e músicas mensalmente.” 

 

No site do IMMuB, o tema do mês de outubro é “Sem vergonha de amar: a música brega”, texto de Tito Guedes.

Preciso confessar algo aparentemente insólito, pois oriundo de quem vive falando de música clássica o tempo todo, ouvindo Beethoven, Bach e Chopin até na hora de preparar o almoço, fã de Ärvo Part, fã da Osesp, esse blá-blá-blá sobre sonatas noturnos trios quartetos sinfonias missas e agora preciso confessar que gosto de música brega, desde que assisti  o filme brasileiro Paraíso Perdido, pela quarta ou quinta vez. E me emociono às lágrimas, choro perdido no paraíso.

Passemos ao texto de Tito Guedes. 

“Talvez um dos termos mais difíceis de se definir com precisão na música brasileira seja o “brega”. Atualmente emoldurado por uma aura quase cult, ele engloba artistas com produções tão variadas quanto WandoReginaldo Rossi, Waldick Soriano, Sidney MagalMarcio Greyck e Lindomar Castilho. O que esses artistas têm em comum é sobretudo a vocação para falar de amor e sentimentos, o apelo popular e uma coleção robusta de hits.”

Gostei da expressão “aura quase cult”! Um estímulo para que eu me afaste um pouco da elite cultural, acadêmica, e me permita gostar tanto do filme quanto da chamada música brega. Além do que, há bregas e bregas. A breguíssima eu não aguento!

Penso que as letras têm forte influência na definição do que é brega e o que não é. O extremo mau gosto de que comumente é que acusado esse tipo de música talvez venha daí. Já as músicas propriamente ditas, já sabemos, são românticas, melosas mesmo, simples, melodias quase infantis, certamente pueris. A tragédia está sempre na letra, é claro, e este é um problema a ser tratado pelos estudiosos da Linguagem.

Alerta Guedes que no brega “cabe samba-canção, balada romântica, música pop, discotèque, bolero, samba, guarânia, tango, rock´n´roll, soul music, ritmos latinos, música cigana, enfim…tudo!” Tudo que for de mau gosto para o gosto da elite, acrescento eu. 

Mas o estilo continuou se desenvolvendo; no Pará e no Recife, surgiu o “brega pop”, como a lambada e o axé; depois veio “brega funk”, revelando “a pluralidade e a força disso que se convencionou chamar de “música brega”.

Guedes enfatiza: “O fato é que esse estilo se consolidou nesses anos todos como um patrimônio afetivo e cultural da música brasileira.” E enumera alguns hits imperdíveis: “Fogo e paixão” (Wando), “Impossível acreditar que perdi você” (Marcio Greyck), “Sonhos” (Peninha), “Eu vou tirar você desse lugar” (Odair José), “Galeria do amor” (Agnaldo Timóteo), “Mon amour, meu bem, ma femme” (Reginaldo Rossi), “Última canção” (Paulo Sérgio), “Você não me ensinou a te esquecer” (Fernando Mendes), tidas como verdadeiros clássicos da MPB. 

Guedes conclui: “O brega seria o que há de mais simples e ao mesmo tempo mais sublime, como um “arroz e feijão com tempero de mãe”... É, enfim, viver sem vergonha de amar e amar sem vergonha.”

A música brega me traz alegria, revira meus sentimentos, de certo modo parece que me faz voltar à adolescência. Eu gosto de música brega.

 

https://immub.org/p/o-instituto

 

https://immub.org/noticias/sem-vergonha-de-amar-a-musica-brega



Em tempo (8 out 2020):


Paulo acrescentou comentário tão adequado ao texto, tão esmerado na forma, que resolvi incorporá-lo aqui:


“São muitos "eus". O que esteve sempre à tona foi aquele que passou a vida a tentar refinar ("educar") o gosto pelas artes - e isso vale para a música, para a pintura, escultura, etc.. Agora é chegado o momento de um certo "eu", que passou a vida envergonhado e escondido num canto da mente. Deixá-lo então vir ao palco, movido por razões do inconsciente, do afeto, das repressões finalmente liberadas, da liberdade afinal conquistada. Este eu, agora desamarrado, pode ter o direito de se expressar, ainda que seja um exercício de fantasia. Por que não?”  


Obrigado, Paulo. 

sábado, 3 de outubro de 2020

Calorão


Trancou-se no quarto para fugir do calorão, ligou o ar, dormiu. Sonhou com raios, trovões e tempestade. Quando acordou o calorão ainda estava lá.

O certo e o errado


Primeiro foi “Por que torço para que Bolsonaro morra”; depois veio “Vender a Amazônia – seria boa ideia os gringos comprarem-na”; e ontem (2 out 2020), “Por que torço para que Trump não se recupere”.

            Os três artigos foram publicados recentemente na Folha de S. Paulo e são de autoria de Hélio Schwartsman, por quem nutro profunda admiração, vou logo adiantando. O homem sabe pensar, é o que admiro nele, avis rara nos dias de hoje.

            Hélio defende com vigor o Consequencialismo, e explica mais uma vez a filosofia que abraça, na coluna de ontem:

 

“Na ética consequencialista, que a maioria das pessoas abraça, desde que os problemas sejam apresentados de forma abstrata e sem nomes, ações são valoradas por seus resultados. Se há um trem desembestado prestes a atingir um grupo de cinco que caminha sobre os trilhos e existe a possibilidade de um agente acionar um dispositivo que desvia o comboio para um ramal no qual se encontra um único passante, cerca de 90% das pessoas dizem que puxariam a alavanca, salvando quatro vidas.”

 

            “Desde que os problemas sejam apresentados de forma abstrata e sem nomes”, afirma o mesmo Schwartsman. Mas não é o que ele vem fazendo nas crônicas anunciadas, em que cita nominalmente Bolsonaro, Trump e a Amazônia, particularizando assim seu modo de pensar.

            Desejar a morte de alguém me parece intensa manifestação de ódio, difícil de ter o apoio de alguma escola filosófica. Porém não há ódio nas palavras de Schwartsman, é preciso reconhecer isso. Ele defende uma ideia usando apenas a razão, deixando de lado os sentimentos. É o que me parece.

Errado mesmo é o “trem desembestado”.

            Gosto de acompanhar o modo livre de pensar de Schwartsman, admiro a coragem dele, leio as críticas a ele endereçadas, algumas plenas de ódio, e concluo ao afirmar que o grande valor do filósofo é pensar e fazer pensar. (Há quem pense que o Hélio está precisando de umas férias...)

Deixemos de lado o certo e o errado.

 

 

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/helioschwartsman/2020/10/por-que-torco-para-que-trump-nao-se-recupere.shtml

Mãããiiiêêê...

Política sem palavras 



https://veja.abril.com.br/blog/noblat/paulo-guedes-tornou-se-obsoleto/


Especiarias em Marte

Charge do dia 



A NASA anuncia que existem especiarias em Marte.

 

Os portugueses então...

 

 

 

Autor: @DedeTuitteiro

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Besteiras do inconsciente

Charge do dia



Mafalda enlouquece até os psicanalistas! 

Um sorriso

Aquela amizade lhe fazia tanto bem que, quando pensava em coisas boas, lembrava-se do sorriso do amigo.

 

Corrupção demoníaca



 
A pandemia propiciou, entre tantas novidades, um novo tipo de corrupção, impensável até então, pelo menos para mim que tinha como a pior corrupção possível aquela do sujeito que desvia dinheiro da merenda escolar, deixando as criancinhas de barriga vazia. 
          Pois o Demônio – porque isso só pode ser obra do Cão – tomou providências, planejou tudo direitinho e ofereceu de bandeja aos súditos, sempre a postos, uma nova modalidade de roubar, perversa torpe cruel funesta sinistra maligna canalha abominável repugnante pestilenta e quantos adjetivos mais houver serão poucos e insuficientes para classificar esta nova forma de corrupção.
          De início parecia um caso isolado, ocorrido no Rio de Janeiro, e como o que vem daquelas bandas não causa mais estranheza, pouco se falou do assunto. Mas em seguida a praga se disseminou, um rastilho de maldade a incendiar o país. Eis que surge o novo ladrão: ele se aproveita da pandemia e rouba respiradores, equipamentos de proteção individual, medicamentos, tudo que estiver ligado à saúde que pode ser roubado, ele rouba.
          São incontáveis as licitações fraudulentas para a compra de equipamentos de alto custo. Alguns vendem respiradores mas eles não são entregues; outros entregam aparelhos que não funcionam; há quem não entregue nada porque o dinheiro foi desviado. E os ladrões se locupletam às custas do sofrimento e da morte. Morrem crianças pequenas a velhos que se contaminam, morrem médicos, enfermeiros, todos os agentes de saúde, morre o povo brasileiro, por falta de atendimento adequado.
          A Justiça é lenta; prende e solta; procrastina; faltam provas, dizem os espertos advogados de defesa; passa o tempo e esquecemos dos ladrões. Os que morreram estão mortos e não podem reclamar.
          Mas Deus não era brasileiro?
          Parece que se trata de golpe genuinamente nacional. Pouco ou nunca se fala de episódios semelhantes em outros países. Há de haver, sei disso, mas não nas proporções tupiniquins. Adeptos do Diabo, alguns brasileiros elevaram a arte de roubar – porque penso que é assim que eles concebem suas atitudes mais ilícitas, como o Estado da Arte de Roubar – ao mais elevado patamar de sofisticação, e não se perturbam com as funestas consequências.
          Não, Deus nunca foi brasileiro. Bem que Nietzsche avisou...

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Phantom thread



 O homem que surge desde a primeira cena impressiona, domina, fascina, catalisa todas as atenções, parece um magnetizador capaz de fazer o mundo girar em torno de si mesmo. Estilista poderoso – veste a Casa Real Britânica –, vive exclusivamente para a profissão: criar vestidos. 
             Ele traz no forro de seu casaco um feixe de cabelos de sua falecida mãe, “para que ela esteja sempre ao meu lado”. E costura costura costura, meticulosamente, sob a vigilância constante da irmã e da mãe morta, que chega a se materializar algumas vezes, nas alucinações do costureiro, um dos fantasmas. 
             (Nunca imaginei que pudesse assistir um filme de um homem que só faz costurar vestidos.)
             Até que surge Alma, garçonete que impressiona desde o primeiro instante, pela capacidade de satisfazer o pedido do estilista, um sofisticado café da manhã. Ela se torna a partir de então, modelo, musa inspiradora, amante, e por fim, esposa.
            As relações entre esses três personagens movem o filme: o trabalho como tema central, obsessão vivida com rigidez, aspereza, crueldade mesmo, tudo menos amor. Os vestidos valem bem mais que as mulheres que os usam. Tudo são coisas.
            Apenas Alma resiste; nem sempre concorda com o homem; desobedece mesmo, rebela-se; deseja ser amada, mas talvez não saiba o que é o amor.
            Em resumo, o filme é belíssimo (nunca imaginei...), os atores excelentes, com destaque, é claro, para Daniel Day-Lewis (o estilista Reynolds Woodcock); o trabalho do diretor, Paul Thomas Anderson, é espetacular; ótima fotografia; incrível trilha sonora. O título em português, Trama Fantasma, deturpa o sentido do filme. 
            Um grande filme. (Nunca imaginei...)




Quino morreu

 Morreu ontem um dos maiores cartunistas do mundo, Quino.




A nossa homenagem