sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Outros microcontos do Moisés

Herói

 

A coragem foi inevitável. Estava exausto de tanto sentir medo.

 

 

 

Dom

 

Se as pessoas conhecessem a minha capacidade de descansar, me admirariam ainda mais.

 

 

 

Paranoia

 

“É como se a guerra estivesse me seguindo”, disse o refugiado sírio que perdeu as filhas e a esposa na explosão do porto de Beirute.

 

 

 

Medo

 

Temo cada dia mais esse povo que quer salvar a humanidade.

 

 

 

Congonhas

 

Quinze minutos de céu e horizontes de prédios na volta ao conforto da indigência paulistana.

 

 

 

Alta costura

 

– Esses pacotes de dinheiro são indecentes.

– Veja como fica no bolso, Vossa Excelência.



                                 Moisés Lobo Furtado

 

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Diário da demenciação

 A consciência plena da perda contínua e inexorável das capacidades intelectuais é, em si mesma, um tormento a ser superado; mas como?           No princípio ainda há recursos mentais que permitem que se possa pensar sobre o processo já em andamento. A perda da memória para os fatos mais recentes se destaca, e começa a afetar os gestos banais do cotidiano. O sujeito sente sede, vai até a cozinha em busca da água, vê o vidro de biscoitos, não resiste, come um biscoito, volta para o quarto de tevê, e logo em seguida percebe que a sede persiste. 

A mulher reclama de qualquer coisa inadequada que ele fez, nada de grande importância, porém ele se aborrece. Como está de saída para o trabalho, ela diz Já estou indo, até logo, e ele retruca em voz alta, como se estivesse pensando e portanto ninguém mais ouvindo, Já vai tarde. Ela ouve, compreensiva, releva. Ele pensa sobre a própria atitude com autocrítica, acha-a engraçada, infantil, uma espécie de retorno à infância.

À medida em que a perda se acentua, naturalmente fica mais difícil a autocrítica. O que há pela frente? O medo, suponho, deve ser sentimento preponderante, e não se sabe bem até mesmo a razão do medo. Medo de quê?  Simplesmente medo, talvez porque o sentido das coisas está se esfarelando, nada mais faz sentido, e a vida passa a se manifestar através de fragmentos. É o homem em frangalhos.

Começa a ficar difícil manter juntos os fragmentos, unidos em torno de um Eu. Os fragmentos vão se perdendo pelo caminho entre o quarto de tevê e a cozinha: nem água nem biscoito. Melhor não olhar no espelho para não ter de perguntar, Quem é esse aí? qual sua história de vida? onde nasceu? como se chama? teve pai? teve mãe? mas todo mundo não teve pai e mãe algum dia? São perguntas que atordoam, atormentam, cansativas, exaustivas, para as quais não há resposta. Com a dispersão dos fragmentos se acentua o não reconhecimento do próprio Eu.

A Música que ele tanto amava transforma-se em barulho que atordoa. Ele tapa as orelhas com as mãos e o barulho persiste persegue importuna. Estará alucinando?

Ler um livro, nem pensar. Muito difícil juntar B com A em beabá. A infância novamente. Que sentido têm as palavras? Sem tido. Sem... nada.

As imagens de um quadro há muito apreciado agora se embaralham, Onde vai dar essa estrada? árvores? um cavalo? que confusão? Ele prefere não olhar. Ou que a tela esteja em branco. Talvez por isso ele passe horas diante da tela em branco do computador. 

Já é impossível pensar. 

Mesa carro vela acesa fumaça feijão, O cão que lambe a minha mão, esse cão me reconhece, que cão é esse? por acaso ele tem dono?

Mais uma vela que se apaga: ela se diz minha filha, Mas algum dia tive filha?

O pior está por vir. Enfiaram-me um tubo pelo nariz e, dizem, me alimentam por ele. Como? Não como, não sinto gosto de nada. Ainda me lembro, gostava tanto de empadinha de frango! Agora enfiam-me a empadinha pelo tubo e não sinto gosto de nada. A vida perdeu o gosto.

Para quê viver? Arranco o tubo, não quero essa empadinha insípida, desejo morrer, apenas, simplesmente, definitivamente. Mas isso não pode ser aceito por quem cuida de mim.

Perdi minha autonomia, vivo sob cuidados de gente que decide por mim, que devo comer empadinha de frango sem gosto e pronto, porque é preciso continuar vivendo.

 

 

3 de fevereiro

 

Ainda, às vezes, busco algum sentido. Sem tido? Sem.

 

 

15 de junho

 

Quem?

 

 

12 de dezembro

 

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Casa velha



Depois de abandonar no meio do caminho dois livros enfadonhos de autor conceituado porque entrado nos anos não posso me dar ao luxo de ler livros enfadonhos e preciso viver com alegria para saborear a alegria de viver, agora adentro a Casa Velha do velho Machado, conto extraordinário interessantíssimo provocador surpreendente porque trata de gente, do amor, de costumes antigos que nos ajudam a compreender costumes de hoje, Machado mais vivo do que nunca, na boca de um velho cônego da Capela Imperial.

         Eis a descrição da casa:

 

“A casa cujo lugar e direção não é preciso dizer, tinha entre o povo o nome de Casa Velha, e era-o realmente: datava dos fins do outro século. Era uma edificação sólida e vasta, gosto severo, nua de adornos. Eu, desde criança, conhecia-lhe a parte exterior, a grande varanda da frente, os dois portões enormes, um especial às pessoas da família e às visitas, e outro destinado ao serviço, às cargas que iam e vinham, às seges, ao gado que saía a pastar. Além dessas duas entradas havia, do lado oposto, onde ficava a capela, um caminho que dava acesso às pessoas da vizinhança, que iam ali ouvir missa aos domingos, ou rezar a ladainha aos sábados.”

 

         (Comparo-a com minha casa: minha casa não é vasta nem sólida, carcomida por um tipo maligno de cupim, mas é igualmente nua de adornos, sempre foi, e ao ser construída já trazia defeito que precisei carregar por toda vida, nada que incomode na velhice, mas que na infância era motivo de bullying constante – zarolho caolho vesgo...)

         As coisas que se sucederam na Casa Velha espelham antes de tudo o vasto preconceito racial reinante na época, hoje denominado estrutural. (Interessante como de repente surge uma palavra para descrever fenômeno antigo.) O próprio cônego narrador tinha o “seu preto”. Porém Machado descreve principalmente o preconceito social, razão da grande mentira da matriarca dona da Casa.

         A história é boa, mas bom mesmo é o estilo machadiano. Os personagens são descritos com precisão e arte; vejamos como o autor define a matriarca:

 

“A casa fora construída pelo avô, em 1780, voltando da Europa, donde trouxe ideias de solar e costumes fidalgos; foi ele, e parece que também a filha, mãe de d. Antônia, quem deu a esta a pontazinha de orgulho, que se lhe podia notar, e quebrava a unidade da índole desta senhora, essencialmente chã.”

 

         Essencialmente chã: isso é que é arrasar com classe o caráter de alguém! Trazer ideias de solar e costumes fidalgos também constituem construções elegantíssimas, finas e originais.  

         Ninguém escreve como Machado de Assis, o Mago do Cosme Velho. Conto longo ou pequeno romance, que importa! Casa Velha é um grande livro.

         

domingo, 13 de setembro de 2020

Armadilha

A crônica de Sérgio Augusto para O Estado de S.Paulo (12 set 2020),  “Ditos, não ditos e mal ditos”, informa que:

 

“Circulou dia desses nas redes sociais uma profecia de Leonel Brizola, para mim até então desconhecida: “Se os evangélicos entrarem na política, o Brasil irá para o fundo do poço, o país retrocederá vergonhosamente e matarão em nome de Deus”. 

 

E Sérgio Augusto prossegue:

 

“Imagine ler tão apocalíptico vaticínio em meio ao turbilhão de denúncias de corrupção e outras calhordices envolvendo pastores, pastoras, bispos, o prefeito do Rio e políticos da chamada “bancada da Bíblia”, como o que nos engolfou na semana passada. Semana que, aliás, culminou com a obscena e eleitoreira anistia às dívidas de 1 bilhão de reais das igrejas aqui estabelecidas. Nosso Estado é laico, mas o Fisco não.”

 

            Será preciso dizer mais? Até Brizola já sabia!

            Acontece que a bancada evangélica no Congresso Nacional é poderosíssima, e cresce a cada eleição. Bancada eleita pelo povo! (O presidente da república quer um juiz “terrivelmente evangélico” no Supremo Tribunal Federal.)

            Pergunto: Tostines é gostoso por que vende mais ou vende mais...?

            O poder da bancada evangélica é oriundo do povo, mas a opinião do povo vem dos espertos pastores, influenciadores impiedosos, convincentes pela exuberância da palavra calculista, maquiavélica, maliciosa, porque explora a ignorância alheia. Enfim, corruptos.

            Para obter êxito nessa empreitada é preciso manter o povo na ignorância, deixar de investir na Educação e perdoar dívidas fiscais das igrejas.

Está pronta a armadilha! E o Brasil no fundo do poço.


https://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,ditos-nao-ditos-e-mal-ditos,70003434169

 

 

 

Zumbis existenciais e o fundamentalismo


Assim tem início a crônica de hoje de Hélio Schwartsman, “Zumbis existenciais”, para a Folha de S. Paulo:

 

“Para o ministro da Educação, pastor Milton Ribeiro, a descrença em Deus transforma parte dos jovens brasileiros em zumbis existenciais. Segundo o religioso, a ausência de absolutos e de certezas faz com que vivam uma vida sem propósito nem motivações.”

 

Schwartsman replica:

 

“Será? Em “This Life” (esta vida), um dos melhores livros que li na pandemia, o filósofo Martin Hägglund (Yale) defende o avesso da posição do ministro. Para Hägglund, são as incertezas e a precariedade da vida que lhe dão valor. Se pessoas e coisas fossem eternas, aí sim é que não encontraríamos a motivação para nos ocupar delas ou nos importar com seu futuro. A própria ideia de futuro depende da possibilidade de corrupção. A eternidade seria um presente sem fim.”

 

Se nosso invisível ministro se preocupasse mais com a Educação, oferecendo aos jovens a oportunidade de aprender a pensar – o verdadeiro sentido da palavra EDUCAR –, talvez o dilema “crer ou não crer” pudesse ser analisado por cada um de nós com liberdade, ao longo de nossa existência, independentemente da conclusão a que chegássemos, se é que chegaríamos a alguma conclusão.

Ao contrário, o ministro sabe apenas pregar a verdade baseada na crença pessoal dele. O fundamentalismo não educa, apenas induz ao não-pensar.

 

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/helioschwartsman/2020/09/zumbis-existenciais.shtml

 

https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2020/09/sem-fe-jovens-do-brasil-sao-zumbis-existenciais-diz-ministro-da-educacao.shtml

 

sábado, 12 de setembro de 2020

Aldravia N.93


estará
pensando?
o
olhar
tão
expressivo!



Foto: AVianna, mai 2020

Ainda estou pensando...

 

Jessie Buckley ouve explicações de Charlie Kaufman

no set de 'Estou Pensando em Acabar com Tudo'.

MARY CYBULSKI/NETFLIX

 

 

Charlie Kaufman  ganhou o Oscar de melhor roteiro original com o filme Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, e recebeu duas outras indicações ao mesmo Oscar como roteirista com Quero ser John Malkovitch (2000) e Adaptação (2003). Fora isso, que não é pouco, nada que chamasse a atenção do público. Agora, como diretor e roteirista, surge Estou Pensando em Acabar com Tudo, pela Netflix, obra capaz de emocionar alguns e causar profunda irritação em outros.

            Pertenço ao primeiro grupo, penso que o filme é extraordinário mesmo. Por que então irrita a tantos? (Minha mulher deixou a sala de tevê no meio do filme.) A reportagem de Rocío Ayuso, de Los Angeles para El País (11 set 2020), traz o relato de um fato bastante sugestivo, que nos incentiva a perseverar e assistir até o fim:

“Buckley, que interpreta a protagonista, substituiu a atriz Brie Larson poucos dias antes do início das filmagens e, quando recebeu o roteiro, ele veio com um bilhete de Kaufman que dizia: “Não se preocupe. Eu sei exatamente do que se trata”. Kaufman volta a rir com a história. "Às vezes vou longe demais na minha cabeça. Suponho que isso se deva a essa personalidade obsessiva compulsiva que tenho e às minhas ansiedades. Mas gosto de perseverar, de cavar mais fundo, porque é aí que encontro a verdade. " (O grifo é meu.)

 

            Se o expectador acreditar que em algum momento tudo aquilo fará sentido, então ele chega ao fim do filme e há de se surpreender com ele. Acredite no diretor: “Eu sei exatamente do que se trata.” (Terminada a sessão, vale a pena ler alguma crítica, de quem se debruçou sobre a obra, buscou informações que podem nos auxiliar na compreensão da rica mensagem de Kaufman. A Internet está repleta delas.)

            Acrescenta Kaufman:

 

“É disso que mais gosto na física quântica”. ...“É o que me faz sentir emocionalmente equilibrado ao me fazer ver a enormidade do mundo, que é muito mais complicado do que posso entender. Nem tudo é sobre mim, e isso, curiosamente, me tira da minha zona de conforto.”

 

            Charlie Kaufman é um homem corajoso. Foi capaz de retratar a Realidade Psíquica do “protagonista” com maestria.

 

https://brasil.elpais.com/cultura/2020-09-11/charlie-kaufman-a-fisica-quantica-me-faz-sentir-emocionalmente-equilibrado.html

 

Inutilidade


Gostava tanto das palavras que inventou “avencário”. Depois de alguns anos, desapontado, constatou que ninguém a empregava.