Charge do dia
Salve o Livro
Obs.: não consegui identificar o autor.
Há poucos dias publiquei Homenagem a Brasília, com uma série de ipês amarelos.
http://loucoporcachorros.blogspot.com/2020/08/homenagem-brasilia.html
Para fazer justiça a esta belíssima árvore, mostro agora dois exemplares igualmente lindos, o ipê do cerrado e o ipê branco. O primeiro, fotografado aqui perto de minha casa, pela Mercêdes. O branco está próximo à casa da Cecília, mas o autor me é desconhecido.
Não é segredo para os raros leitores que me acompanham nesse blog que sou louco por futebol, além de cachorros, ainda mais em tempos de pandemia, e vou logo dizendo que adorei o retorno dos jogos pela tevê, sou totalmente a favor, mesmo sem torcida, os jogadores testados continuamente, com todos os cuidados possíveis contra a peste. Mas a bola rolando.
Entre um programa e outro, mudo de canal e vejo que estão jogando dois times bem fraquinhos, não lhes aponto os nomes para não ofender possíveis torcedores. Com agravante: jogam pela Série B do Campeonato Brasileiro. Continuo assistindo mesmo assim. Zero a zero, muitos erros de passe, técnica pobríssima, os dois times recuados, com medo de atacar, aparentemente satisfeitos com o empate. Continuo assistindo mesmo assim.
De repente, o meia armador do time da casa dá um belo passe de primeira para o ponta direita que dribla o lateral, avança até a linha de fundo e cruza forte à meia altura rente à trave. O centroavante se antecipa ao goleiro e com o peito empurra a pelota para dentro do gol. Gol! Golaço! GOLAÇO!
Por isso continuo assistindo mesmo assim: pela imprevisibilidade, pela surpresa, pela jogada genial desferida por jogador desconhecido e que nunca mais fará algo igual, pelo belíssimo gol inesperado – momento de felicidade.
Um a zero para o time da casa, faltando 20 minutos para acabar o jogo. Começa a cera. O goleiro demora para bater o tiro-de-meta, ninguém quer bater o lateral, inicia-se o cai-cai, todos reclamam do árbitro, não tem mais jogo. Pior, os gandulas (da casa) custam para repor a bola em jogo, até que um deles é expulso.
Nesse ponto é que retorno à infância: meu pai, eu, e o irmão mais novo, sempre a meu lado, sentados em uma arquibancada, torcendo pela Esportiva de Guaratinguetá, jogo duro contra o Bragantino, timaço já naquela época, da chamada Segunda Divisão. Estamos ganhado de um a zero. Jorjão, crioulo de 2 metros de altura por 3 de largura, beque central de chute potentíssimo, isola a bola em direção à arquibancada, o torcedor que a pega não a devolve para o campo, esconde a bola debaixo do assento, a torcida grita de satisfação – a torcida urra de alegria! –, o juiz pede providências ao chefe de polícia que nada pode fazer, o jogo está parado.
(Interrompo aqui esta vibrante narrativa porque uma explicação se faz necessária. Naquele tempo se jogava com uma única bola! Se era chutada para fora do campo, era preciso esperar pelo retorno da mesma, para o reinício do jogo. Excepcionalmente havia permissão para substituição da bola pelo juiz (não se usava a palavra árbitro), não me perguntem a razão de tal procedimento, não saberia responder.)
Voltemos à arquibancada da Esportiva. Durante o impasse, o jogo interrompido, eu, menino, observo de soslaio a reação de meu pai diante de algo visivelmente irregular, até mesmo para o julgamento de um menino – a bola sequestrada por um torcedor porque estamos ganhando de um a zero. Meu pai ri à solta! Ele tão severo, tão cumpridor, acima de tudo respeitador da lei e da ordem e da moral, apenas ri, alegre e divertidamente. Observo e compartilho com ele daquele momento de intimidade mágica. (Tempo da inocência, que não existe mais: hoje o gandula é expulso de campo.)
Enfim a bola é devolvida sob efusivos apupos e o jogo reinicia, faltando 20 minutos para o apito final. A catimba persiste até a vitória!
Por essas e por outras é que hoje teimo em assistir até o joguinho ruim da Série B.
A palavra arroubo me intriga. Os mais diferentes dicionários registram que se trata de manifestação repentina de entusiasmo; êxtase, enlevo, manifestação ou expressão súbita de intensa êxtase; arrebatamento; expressão ou demonstração de êxtase, de enlevo ou de encanto; num arroubo de felicidade; sensação de contentamento causada por uma grande admiração ou felicidade.
A etimologia da palavra parece ser obscura. O grande Deonísio da Silva não faz referência a ela em De onde vêm as palavras (Ed. Novo século). Antônio Geral de Cunha, no Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa (Ed. Lexicon), registra o verbo arroubar, extasiar-se, enlevar-se, arrebatar-se; do castelhano arrobar, ligado a robar, roubar.
Roubar o quê e de quem?
Já o bom Dicionário inFormal registra como Sinônimos de arroubo:
arrebatamento anagogia encantamento enlevo entusiasmo
excitação êxtase focagem furor ímpeto incandescência ira raiva
rapto rompante transporte encanto amenidade atrativo beleza
charme deleite deslumbramento fascinação graça imã magia
mágica sedução suavidade tetéia ebriedade embevecimento
embriaguez admiração espasmo condução translação trasladação delírio vôo suspensão
Chamo a atenção do leitor para os sinônimos ira, raiva, rompante. São eles que me interessam nessa pequena crônica. (Façamos o desconto necessário: sinônimos perfeitos não existem; cada palavra tem seu próprio e único significado.)
Sempre acreditei que a palavra arroubo carregasse uma boa porção de raiva e rompante, que surgem do inconsciente. Rompante implica reação. E reação muitas vezes como resposta inconsciente, automática, deflagrada por determinado estímulo sobre o qual não temos controle naquele momento em que ele é disparado. A tal resposta chamo de arroubo.
Passado o arroubo, podemos pensar sobre ele. Se arroubo significa tão somente manifestação repentina de entusiasmo, não há muito o que dizer sobre isso, é apenas enlevo, encanto. (O que não é pouco.)
Quando é rompante, com raiva, furor e ímpeto, trata-se de algo oriundo do próprio sujeito, daquele que rompe, e não daquele que é atingido pelo arroubo. Entretanto, ambos podem tirar proveito do ocorrido, desde que possam pensar. O autor do rompante, se puder, fará então profunda autocrítica: por que reagir daquela forma? O alvo do arroubo poderá considerar tanto as razões do outro como sua própria maneira de ser, vítima de um rompante.
O roubo, de que fala a etimologia, talvez se refira à capacidade de pensar: o ego é roubado da função fundamental que lhe cabe, a capacidade de pensar. Em vez de pensar surge o arroubo.
Por que razão haverá de me intrigar a palavra arroubo?
Sopro frio pela fresta da janela.
Noite de inverno.
Escorrem pálidos pensamentos na parede do quarto.
Um pássaro sombrio resmunga perto, gutural.
Para além, severo silêncio.
A boca, precária, cala.
Hálito morno isento de palavras.
Paralíticas mãos.
Gesto nenhum, por inútil.
Mínima alma impotente.
Neste momento haverá um mendigo a morrer de frio
[em alguma esquina.
Como adormecer o desalento?
Paulo Sergio Viana
Lição de Composição
A fotografia acima, de autoria da nossa Paula Vianna, é uma lição de composição, muito útil a pintores e fotógrafos.
Vejamos o que dizem Eduardo Lima e Rita Trevisan (NOVA ESCOLA) sobre a Lei dos terços:
“A regra dos terços é uma técnica de composição frequentemente utilizada por pintores e fotógrafos. Sobre a cena a ser retratada, o artista traça quatro linhas imaginárias (ou seja, divide o quadro em terços) e coloca o objeto principal em um dos pontos formados pelas intersecções. Isso geralmente garante um enquadramento mais harmonioso. ...A explicação para isso tem a ver com a Geometria. A regra dos terços não passa de uma derivação daquilo que se convencionou chamar de proporção áurea - uma razão de proporcionalidade muito comum na natureza, presente, por exemplo, nas conchas espirais de alguns moluscos. É por isso, segundo filósofos e matemáticos, que a gente tende a preferir composições que seguem ou se aproximam desse padrão: elas redundam em imagens naturalmente equilibradas. Vale lembrar, no entanto, que regras são sempre muito boas no trânsito ou em jogos de futebol. Na Arte, elas existem para ser quebradas.”
https://novaescola.org.br/conteudo/1015/o-que-e-e-como-funciona-a-regra-dos-tercos
A crônica do biólogo Fernando Reinach, Um mutante menos letal do coronavírus, para O Estado de S.Paulo (29 ago 2020) é bastante esclarecedora porque oferece visão ampla do que chamamos Evolução das Espécies.
Diz ele: “Muitos temem o aparecimento de um SARS-CoV-2 mais perigoso - que se espalhe pelo planeta, aumentando o caos em que vivemos. Já sabemos muito sobre a evolução da relação de um parasita com seu hospedeiro. E, por isso, o mais provável é que aconteça o contrário: o aparecimento de uma forma branda do SARS-CoV-2. Um mutante descoberto em Cingapura é um bom exemplo.
Os vírus são parasitas radicais. Além de só reproduzirem no interior de seu hospedeiro, sobrevivem em um estado de dormência absoluta quando estão fora dele. O SARS-CoV-2 não é diferente. Após aderir à superfície de uma célula humana, ele é posto para dentro e começa a reproduzir. Centenas ou milhares de cópias são produzidas e expelidas pela célula. Uma vez fora da célula, ele não possui metabolismo e fica praticamente “morto”, flutuando passivamente pelo ambiente até aderir a uma outra célula do mesmo hospedeiro ou de outro hospedeiro, onde reinicia sua fase “viva”. Sabemos que, nessa relação vírus-hospedeiro, leva vantagem o vírus que não mata rapidamente o hospedeiro ou produz sintomas.”
Em palavras mais simples: se o vírus mata o hospedeiro, ele também não sobrevive. Apenas sobreviverá aquele vírus que matar menos, ser mais transmissível e acometer o maior número possível de hospedeiros; é uma questão de seleção dos mais aptos.
Este fenômeno vem ocorrendo desde que surgiu a Vida na Terra: sobrevivem os mais aptos, incluindo a espécie humana. Nada de sobrenatural nisso tudo.
Um último lembrete: a palavra evolução aqui empregada nada tem a ver com “crescimento” ou aprimoramento moral; é apenas uma questão de adaptação para a sobrevivência.
https://saude.estadao.com.br/noticias/geral,um-mutante-menos-letal-do-coronavirus,70003417373
Cheguei em Brasília no dia 11 de novembro de 1973, debaixo de uma tempestade assustadora, às 11 horas da manhã de sábado. Achei a cidade linda! Desde então, passados quase meio século, Brasília fica cada dia mais bonita.
Especialmente com a florada dos ipês!