quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Ética


A fé dele se foi; as virtudes ficaram. Nunca estiveram ligadas.


                                             

                                                 Moisés Lobo Furtado

o amolador


o som agudo da flauta

invade a casa

os cães latem

 

outra vez a flauta do amolador de facas

chega aos meus ouvidos

a me lembrar que a vida continua

 

a despeito das máscaras

do isolamento

do perigo da faca amolada

 

no ar a ameaça permanente

da foice amolada

a flauta em silêncio

 


Nova Rota da Seda


Trens de carga chineses no Terminal Intermodal de Duisburgo.

Foto: Jasper Bastian

 

 

“Não há pandemia que freie o trem chinês no coração da Europa. A cidade alemã, ponto de chegada da Nova Rota da Seda na Europa central, luta para atrair capital em um clima de crescente tensão política com Pequim”, escreve Ana Carbajosa de Duisburgo (16 ago 2920).”

 

“Trens chineses chegam carregados a Duisburgo. No grande porto no interior da Europa param agora mais composições procedentes da China do que antes da pandemia. “As exportações chinesas se recuperaram muito rapidamente. Agora recebemos entre 45 e 60 trens por semana”, explica Martin Murrack, diretor de Finanças da Prefeitura dessa cidade da Alemanha. Este é um número recorde em comparação com os 35 de vezes anteriores. Enquanto as relações diplomáticas entre a Europa e a China estão tensas como resultado da gestão de uma epidemia que acabou afetando todo o mundo, as relações comerciais estão em excelente estado de saúde. 

Nova Rota da Seda contornou a pandemia ao chegar de trem à Europa.”

 

https://brasil.elpais.com/internacional/2020-08-16/nao-ha-pandemia-que-freie-o-trem-chines-em-duisburgo.html

 

Vale a pena ler a reportagem completa sobre a Nova Rota da Seda!

Outra do Vozinho

Galeria de Família


 

Meu querido pai, também conhecido por Vozinho, gostava de televisão. Pela manhã, via o noticiário; à tarde, um faroeste italiano. Às vezes usava um chumaço de algodão em ambas as orelhas...

A foto foi tirada no apartamento de Cabo Frio.

terça-feira, 18 de agosto de 2020

Ana Cora Coralina: Pequena Biografia

 


Aninha nasceu em 1889, Cora 14 anos depois. Faziam parte da mesma pessoa, Ana Lins dos Guimarães Peixoto.

Aninha já entrou na vida subtraída do pai e da caçulice. Os poucos anos de estudo e o pior lugar entre as mulheres da família na decadente casa velha da ponte foram suficientes para enriquecer sua infância e forjar sua vontade. 

Adolesceu na Fazenda Paraíso entre árvores, rio e bichos. Da paixão pela terra surge a primeira necessidade de contar o que vê. Ali nasce a escritora Cora Coralina.

Os primeiros escritos são publicados em jornais e revistas. A amarela moça feia brilhava nos recitais de encontros literários. Lá decidiu se encantar pelo ciúme de Cantídio Bretas, advogado paulista bem formado, mal separado e vinte dois anos mais velho.

O namoro curto, a gravidez gemelar e o passado suspeito do noivo não cabiam na pequena cidade de Goiás. Ana, Cora, a barriga e Cantídio ganham o mundo cavalgando um corcel negro.

Em Jaboticabal a moça perdeu dois filhos, criou quatro, plantou árvores, participou de jornais e construiu um asilo. Em 1927 Ana deixou a cidade e o nome de Cora na estação de trem. 

Mudou-se para a capital para melhorar os estudos dos filhos, mas a morte decide lhe tirar o marido e o sustento. Ana descobriu a força do seu trabalho e decidiu não se cansar.

Em Penápolis, abriu a loja de tecidos Borboleta, organizou a associação dos comerciários e entrou para Ordem Terceira de São Francisco. Aos cinquenta anos, Ana decidiu não ter medo. 

Ainda inquieta, viu boa chance na área de ocupação pioneira de Andradina. A mulher terra se reencontrou com a natureza no Sítio da D. Cora, o mais respeitado pouso de boiadas da região. 

Aos sessenta e seis anos, Ana é chamada a testamentar sua herança em Goiás. Resistiu o quanto pode, desconfiou do risco. O chamado era maior. Deixou filho, filhas, genros, netos e bisnetos prontos. Foi só e não voltou.

“Vestida de cabelos brancos” caminhou pelas ruas de pedra, molhou os pés nas águas ensaboadas do Rio Vermelho, atravessou a Ponte da Lapa, entrou na velha casa da infância, encontrou Aninha dormindo e Cora desperta, lhe esperando. 

Vendeu doces, escreveu livros, ganhou prêmios e comprou a sua herança. A moça feia da casa da Ponte da Lapa criou uma velha linda e corajosa.

As palavras de Cora Coralina falam do que viveu, não conseguem inventar. Elas têm a força do olhar atento e faminto de quem amou existir e a doçura simples dos que sabem servir. Testemunham os interiores de um país gigante e de uma alma ainda maior.

 

Moisés Lobo Furtado         30/07/2020

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Pensar a Moral

 O psicanalista Contardo Calligaris publicou há 8 dias (5 ago 2020) artigo instigante na Folha de S.Paulo, ao relacionar moral e fé religiosa. 

        Informa Calligaris: “O Pew Research Center acaba de publicar uma pesquisa em que indivíduos de 34 países, geográfica e culturalmente diversos, responderam à pergunta: “É preciso ser religioso para ter moralidade.”

O resultado da pesquisa revela que “a ideia de que só há moralidade graças à religião prospera nos lugares de menor desenvolvimento econômico e cultural — entendendo por “desenvolvimento” cultural a proximidade com as ideias da modernidade ocidental.”

            Eis alguns dados pinçados por Calligaris:

Na Indonésia e Filipinas, 96% estão convencidos de que não há moral sem religião. 

Espanha e Itália, berços do catolicismo, ficam em 23% e 30%.

França, grande pátria da modernidade, 15%. 

Estados Unidos: 54% respondem que é possível sermos morais sem religião, e 44% pensam o contrário.

Os menos convencidos são a Suécia: 9%.

No Brasil e África do Sul, 84% pensam que a religião é a condição da moralidade, logo atrás da Nigéria e do Quênia.

Completa Calligaris: “A modernidade recusa a ideia de que os valores morais estão fora da gente — numa escrita sagrada ou nas palavras do camarada Stálin, do pastor, do padre, do papa ou do PCC, tanto faz. A modernidade é contra a elevação dos braços para convidar o rebanho a adorar, e pouco importa que a gente levante uma hóstia, uma Bíblia ou uma caixa de cloroquina — para a modernidade, o gesto de levantar os braços pedindo adoração é imoral em si. Para a modernidade, a fonte da moralidade está na gente. Ela não se mede na conformidade a mandamentos externos. Ela é uma responsabilidade de foro íntimo.” 

            Ao aceitar  “liberdade moderna”, o homem assume a responsabilidade daquilo que é a moral para cada um de nós; “procurar o certo e o errado na conformidade com prescrições (divinas ou terrenas, tanto faz), isso é sempre o mais imoral dos atos”, resume Calligaris.

            Tudo parece muito bem posto pelo conhecido psicanalista. Até que ontem o mesmo jornal publica crônica de Hélio Schwartsman, De onde vem a moral?, em resposta à provocação de Calligaris.

            Segundo Schwartsman, “De fato, não há boçalidade muito maior do que imaginar que não exista moralidade fora da religião. Acho até que podemos radicalizar o argumento. Não há nada mais imoral do que a moral diretamente extraída das Escrituras, que nos autorizam a vender filhas como escravas (Ex. 21:7) e nos obrigam a matar gays (Lv. 20:13).”

Prossegue o filósofo: “Acredito, contudo, que a moralidade seja um fenômeno com fortes componentes externos (situacionais). Ela é forjada na teia de relacionamentos sociais que mantemos com nossos semelhantes.” ... 

Para Schwartsman, “A moralidade é a solução encontrada pela evolução para compatibilizar os impulsos egoístas do indivíduo e a necessidade de reduzir conflitos dentro do grupo. Essa permanente tensão entre bichos que são ao mesmo tempo rivais e aliados desemboca em emoções e sentimentos socialmente relevantes como inveja, raiva, gratidão, compaixão, vergonha, culpa, que são a tabela periódica com a qual cada sociedade constrói seu código moral.”

 

É possível pensar que as ideias aqui expostas se complementam. É Igualmente razoável admitir que uma pessoa profundamente religiosa – e que pensa com liberdade – seja capaz de reconhecer naquele que não crê a moralidade perfeitamente estabelecida. Penso que a tal “modernidade” deve implicar necessariamente liberdade de pensamento e expressão, e acima de tudo, tolerância para com aquele que pensa diferente.

 

 

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/contardocalligaris/2020/08/ideia-de-que-moral-depende-da-fe-prospera-em-paises-menos-desenvolvidos.shtml

 

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/helioschwartsman/2020/08/de-onde-vem-a-moral.shtml

 

domingo, 9 de agosto de 2020

100 mil vítimas


Primeira página  

Retorno à infância

 


Quase tudo na vida de um adulto, os gostos e os desgostos, se originam na infância. Durante toda minha infância e parte da adolescência eu jogava bola oito vezes por semana – aos domingos jogava pela manhã e à tarde. Daí meu gosto por futebol. Poderia ser diferente? Haverá quem pergunte, Mas isso não é algo muito infantil, ao que respondo, Com muito orgulho e carinho preservo esse menino em mim. Quando toca o Hino Nacional, já estou pronto para entrar em campo.

            Daí o baque, tristeza sem fim, pela ausência do futebol durante a peste. As tardes de domingo ficaram completamente vazias. Não me adaptei às reprises, ao contrário, aumentavam minha melancolia. O mundo já não era o mesmo.

            Até que ressurge o Campeonato Paulista 2020, interrompido perto do final. Os times voltaram a campo como que enferrujados, jogadores sem reflexos, com má forma física, há meses sem jogar. Treinavam, mas não jogavam. 

            E para resumir, chegamos ontem à finalíssima, Palmeiras x Corinthians Paulista. O jogo anterior já havia sido equilibrado: 0 a 0. Ontem, primeiro tempo difícil, o Palmeiras mais bem distribuído em campo, Cassio brilhando novamente. Aos 3 min do segundo tempo o Verdão abre o placar, com Luiz Adriano, belo gol de cabeça! E o time dominou todo o segundo tempo.

            Segundos antes dos 50 min, ao fim da prorrogação de 5 min, um pênalti bobo, desnecessário, dentro da área: o Corinthians empata o jogo. A decisão será por pênaltis.

            Três gols para cada time, o último a bater será o Palmeiras, se fizer, leva... E o técnico escolhe um neguinho de 20 anos para cobrar o último pênalti! Pensei comigo, agora fudeu. Patrick de Paula o nome dele, criado em Campo Grande, no Rio, prata da casa do Allianz Park. 

            Patrick toma grande distância, pára na risca da grande área, permanece imóvel por segundos intermináveis, Meu deus, o que pensa esse menino num instante como este, meu coração saindo pela boca! Então dispara em direção à bola, enche o pé, coloca a pelota no ângulo superior esquerdo da meta de Cassio, chute incrível imprevisto impensável indefensável inesquecível e corajoso acima de tudo, de quem sabe e tem futuro brilhante no futebol.

            Palmeiras Campeão Paulista de 2020! Com sofrimento...



Patrick de Paula, o neguinho do Palmeiras





sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Crimes imperceptíveis



“Agora que se passaram os anos e tudo foi esquecido, agora que recebi da Escócia um e-mail lacônico com a triste notícia da morte de Seldom, acho que posso quebrar a promessa, que, em todo caso, ele nunca me pediu que fizesse, e contar a verdade sobre os acontecimentos que no verão de 1993 apareceram nos jornais ingleses em manchetes que oscilavam entre macabras e sensacionalistas, mas às quais Seldom e eu sempre nos referíamos, talvez pela conotação matemática, simplesmente como a série, ou a série de Oxford.”

 

            Assim tem início o romance do argentino Guillermo Martínez (1962), Doutor em Matemática, que há muitos anos me fascinou com o espetacular Acerca de Roderer, publicado em 1992.   

            Agora, a referida introdução, escrita de um só folego em extenso parágrafo, bem ao gosto do Tobias, conhecido dos leitores deste blog por sua Oficina, e também do meu gosto, agora o livro chama-se Crimes imperceptíveis (Editora Planeta, 2004).

            A escrita é cuidadosa, quase formal, e é ela que me animou chegar ao fim do livro. O enredo não chega a empolgar, com momentos interessantes. Para os apreciadores do romance policial, é obra razoável. Não há um Espinosa para nos deleitar – saudade de Garcia-Rosa! 

Homenagem aos mortos de Beirute

A foto do dia 


Imagem da bandeira do Líbano 

projetada no Cristo Redentor.

Homenagem às vitimas de Beirute.

Olhar Estadão, Foto: Antonio Lacerda / EFE