sábado, 20 de junho de 2020

Condenação

Frase do dia


A analogia é com Al Capone. Não podemos afirmar que sua prisão por sonegação fiscal tenha sido injusta, mas não há dúvida de que teria sido mais didático se ele tivesse sido condenado por algum dos muitos assassinatos que ordenou.

Hélio Schwartsman



Dois irmãos constrangidos

Galeria de Família




A escola – o famoso Instituto de Educação “Conselheiro Rodrigues Alves” – tirou uma manhã para fotografar todos os alunos. Com certeza contratou fotógrafo profissional.
            Os alunos sentavam em frente a uma pequena mesa, pegavam da caneta, fingiam escrever alguma coisa num caderno aberto sobre a mesa, os olhos pregados na câmera, e ao fundo a Bandeira Nacional, salve salve o pendão da esperança!
            Paulo Sergio foi assim fotografado ainda no curso primário, penso eu, usando suspensórios, o cabelo bem cortado, a mão esquerda fechada a sugerir alguma tensão, e o olhar mais doce do mundo! 
            Em tempo, a escola era ótima, ensino de primeira, mas os alunos adoravam cantar o refrão: Instituto de Educação, entra burro e sai ladrão!
            



Custei a encontrar a minha foto tirada no mesmo dia – o pendant que faltava. Cursava o segundo ou terceiro ano do primário, hoje fundamental.
Arrumaram-me, ainda por cima, um paletó de brim que não era meu; a caneta e o caderno não eram meus; no linguajar de hoje, a foto é fake!
        Nunca gostei dessa foto, especialmente por causa daquele cabelinho à direita; hoje não vejo nada demais nele, mas quando criança, aquilo me despertava muita raiva. Quem penteou meu cabelo daquele jeito?


segunda-feira, 15 de junho de 2020

Fartura


Elogiou tanto o primeiro vinho, mas tanto, que não lhe restaram adjetivos para o vinho principal.

sábado, 13 de junho de 2020

Luar

Fotominimalismo




Foto: AVianna, jun 2020
iPhone 11 Max Pro

Racismo

Frase do dia


"A verdade é que, gostemos ou não, somos prisioneiros de nossas épocas. Em qualquer período que vivamos, há sempre um horizonte de possibilidades morais além das quais é muito difícil enxergar."

                                     Helio Schwartsman





Oficina do Tobias XV - Epílogo

Folhetim


Décimo quinto encontro


Alguns dos senhores haverão de perguntar por que não chamei Conclusão ao nosso último encontro e preferi Em Resumo. Formulada a questão, torna-se óbvia a resposta. O processo de aprendizagem e o aperfeiçoamento da escrita não terminam nunca, não se concluem. 
            Recebi dos senhores 286 textos, e os devolvi todos com minhas observações; aqueles entregues hoje, os comentários serão enviados por e-mail. Em cada texto coloquei uma das seguintes letras: MB, B e P. Agora, ao final da oficina, revelo o significado delas: Muito Bom, Bom e Persevere. Releiam seus textos, por favor, com o apurado senso crítico que demonstraram durante nossos encontros. Espero ter sido útil em pequena porção que seja, mas não se iludam, será com esforço e tenacidade, a escrever diariamente, se possível, que os progressos virão.
            Façam isso com alegria! É preciso sentir prazer em escrever. E cuidem da forma. Lembrem-se, não há fôrma; não se prendam a regras, a padrões ou estilos pré-estabelecidos, exerçam a liberdade de criar, cuidando da forma.
            Portanto, em resumo, o que os senhores puderam aprender nesses 15 encontros?
            Ana Paula foi a primeira a se manifestar, Professor, desculpe, mas esperava mais da sua Oficina, esperava dicas, orientação, ideias, macetes, alertas, para melhorar a minha escrita. Tobias curto e grosso, Você escolheu a oficina errada, minha filha; digo mais, NINGUÉM ENSINA NADA PARA NINGUÉM, A PESSOA APRENDE! E o silêncio voltou à sala.
            Pois eu adorei, sapecou Suzete, alegrinha, convencida de que voltava para casa cheia de ideias.
            Eu só tenho a agradecer, acrescentou Tina, pela oportunidade de contar uma historinha; a idade me ensinou que, de fato, a responsabilidade de aprender é só minha.
            Josíres não poderia ser mais enfático: amei amei amei! Obrigado, Professor.
            Vejam os senhores como está arraigada na cabeça da gente este binômio Professor/Aluno, ou seja, AQUELE QUE SABE/AQUELE QUE NÃO SABE. Ao lhes dar total liberdade para escrever, sem entraves e estorvos, pretendi lhes oferecer a autoridade DE QUEM SABE.
            Agora é Clarice quem pede a palavra, Tobias, você podia sugerir algumas leituras que acha fundamentais para quem deseja escrever, Boa pergunta, menina, pois nela está implícita a ideia de que é preciso ler, antes de tudo. Sugiro que não passem um dia de suas vidas sem que não tenham um livro nas mãos. Sugiro ainda que alternem um clássico e um autor contemporâneo. Um clássico, porque é preciso ler os clássicos, e um contemporâneo, para que se familiarizem com a literatura de nosso tempo e para que novos autores possam vender seus livros e comprar comida. As risadas voltaram ao salão, que o clima era de muita severidade até então.
            Devo acrescentar uma última sugestão, completa Tobias, Leiam Machado de Assis, sempre, leiam e releiam, não apenas os romances mais afamados, leiam os contos, as crônicas, leiam tudo de Machado, para se entranharem na intimidade da língua portuguesa. Mas também não deixem de ler Grande Sertão: Veredas, do nosso querido Rosa, pois ali a intimidade com a língua será consumada.
            E chega de conselhos. Tornou-se hábito no último encontro de nossa oficina, que alguém, por um motivo ou por outro, tenha se destacado, não que seja o melhor, ou a melhor, nada disso, é apenas um mimo meu, que essa pessoa receba uma lembrança, certamente um livro. Nesse seleto grupo, escolhi Suzete, que leva de brinde o livro de poemas chamado Esmo, de autoria de Paulo Sergio Viana.


            Os estrondosos aplausos sugerem quase que a unanimidade em favor da escolhida. Digo quase, vocês sabem, Ana Paula...
Bom que terminamos, senhores, arremata Tobias, porque vem aí gravíssima pandemia, um novo vírus talvez surgido na China e que se espalhou pela Itália e certamente chegará por aqui. Havendo quarentena, aproveitem o tempo para ler e escrever. Felicidades a todos. Foi um enorme prazer conhecê-los. Ah!, o almoço hoje é por minha conta.
A oficina termina com ruidosa e prolongada salva de palmas. Uns poucos enxugam uma lágrima que ameaça cair.

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Oficina do Tobias XIV

Folhetim


Décimo quarto encontro


No décimo quarto encontro, com tema livre, o grupo se divide entre os que escrevem à larga, sem peias, gostando do vento batendo no rosto como numa veloz cavalgada, e aqueles que diante da folha em branco ou da tela vazia, empacam, tamanha dificuldade diante da partida. 
            Aí está a razão pela qual Tobias escolhe o tema livre. Professor, não sei por onde começar, afirma Beatriz; ela é jornalista e necessita de um mote, um fato jornalístico, para começar, não sabe escrever ficção. O mesmo acontece com Solange, dona de casa, sempre muito atarefada, mas quando senta para escrever, As ideias somem, Professor! Tina não sofre desse mal, Tenho muitas histórias para contar, aqui vai uma delas:

Cruzava uma ponte sobre um ribeirão do qual já não me lembro o nome quando vi um menino pequeno dentro daquela água fétida, em plena enchente, tentando recuperar uma bola de futebol. Outras pessoas já se aglomeravam sobre a ponte, gritando para que o menino saísse da água. Reconheci-o! Chamava-se André, filho de Ondina, minha amiga que morava na casa ao lado. Corri até lá, gritei pela mãe, para que ela com sua autoridade obrigasse o menino a sair da água. Esbaforidas, corremos as duas para a ponte, mas André já estava na margem, agarrado a sua bola. 
– Vai para o castigo, menino, bradou-lhe a mãe. 
– Vou, mas com minha bola na mão!

            Choveram aplausos, Tina, você precisa escrever um livro, disse Suzete, conte mais histórias deliciosas como esta! 
Tobias, de onde veem essas ideias estranhas que os escritores colocam em livros e mais livros, pergunta Tomás, timidamente; de onde veio aquele microconto do Kafka, onde as crianças se trancam dentro de uma mala e morrem sufocadas? Esta é uma pergunta interessante, de onde veem as ideias, e ninguém menos do que Freud procurou respondê-la, disse Tobias. Veem do inconsciente, segundo o mestre. A bela história que nos contou Tina vem das experiências pessoais dela, guardadas na memória. Nossas experiências de infância são sempre muito ricas, e acabam esquecidas porque não as escrevemos. Qualquer ideia serve, desde que a forma seja de qualidade – não canso de repetir isso. Oficina serve para tratar da forma.

Ela conviveu conosco nos últimos 15 anos. Era da família, gente como a gente. Chamava-se Flor. Era da raça shih-tsu, branca com manchas marrons, o rabinho peludo, sempre alegre e meiga a abanar o rabinho. Mas envelheceu, a catarata avançada, acabou ceguinha de tudo, sofria com a artrose mas ainda andava pela casa sem se perder. Agora vem o mais interessante da história, Flor perdeu o apetite completamente, daí o emagrecimento progressivo, sem força nem para andar, a prostração doentia. Até que descobrimos o único alimento que Flor aceitava com gosto, comia com prazer e lambia os beiços e pedia mais: caqui. Flor era louca por caqui, comia caixas e mais caixas de caqui, e ainda viveu entre nós alguns anos comendo caqui! Acabou morrendo de velhinha. Nós, que ficamos, toda vez que comemos caqui nos lembramos de Flor. Ela ainda está entre nós.

Tudo serve para a escrita, continuou Tobias, mas a forma é essencial. Apresento-lhes pequeno trecho das Memória póstumas de Brás Cubas, cuja mãe acabara de falecer. Escreve Machado, na voz de Brás Cubas:

“A dor suspendeu por um pouco as tenazes; um sorriso alumiou o rosto da enferma, sobre o qual a morte batia a asa eterna. Era menos um rosto do que uma caveira: a beleza passara, como um dia brilhante; restavam os ossos, que não emagrecem nunca.”

            Vejam os senhores, em pleno sofrimento da perda materna, Brás Cubas nos fulmina com a mais fina ironia: os ossos não emagrecem nunca! Que ousadia! Que humor fino! Que imagem para se guardar para sempre: os ossos não emagrecem nunca! Frase como esta vale um milhão. Procurem essas frases – elas estão por aí –, ousem, não tenham medo do ridículo, corram riscos, saiam do ramerrão papai-mamãe, liberdade liberdade liberdade de pensamentos e ideias.
            Via-se, Tobias empolgara-se! O grupo percebe o entusiasmo nas palavras dele, e isso é contagiante. Aplaudem calorosamente.
            Suzete ainda relata interessante episódio ocorrido em seu salão de beleza, em que um homem morrera exsanguinado por uma tesourada na virilha, a artéria femoral seccionada. Ela faz daquilo um conto policial.
            Senhores – é sempre com essa palavra mais ou menos solene que Tobias encerra os trabalhos do dia –, amanhã teremos nosso último encontro. O tema será: EM RESUMO.
            Tenham uma boa tarde.