segunda-feira, 15 de junho de 2020

Fartura


Elogiou tanto o primeiro vinho, mas tanto, que não lhe restaram adjetivos para o vinho principal.

sábado, 13 de junho de 2020

Luar

Fotominimalismo




Foto: AVianna, jun 2020
iPhone 11 Max Pro

Racismo

Frase do dia


"A verdade é que, gostemos ou não, somos prisioneiros de nossas épocas. Em qualquer período que vivamos, há sempre um horizonte de possibilidades morais além das quais é muito difícil enxergar."

                                     Helio Schwartsman





Oficina do Tobias XV - Epílogo

Folhetim


Décimo quinto encontro


Alguns dos senhores haverão de perguntar por que não chamei Conclusão ao nosso último encontro e preferi Em Resumo. Formulada a questão, torna-se óbvia a resposta. O processo de aprendizagem e o aperfeiçoamento da escrita não terminam nunca, não se concluem. 
            Recebi dos senhores 286 textos, e os devolvi todos com minhas observações; aqueles entregues hoje, os comentários serão enviados por e-mail. Em cada texto coloquei uma das seguintes letras: MB, B e P. Agora, ao final da oficina, revelo o significado delas: Muito Bom, Bom e Persevere. Releiam seus textos, por favor, com o apurado senso crítico que demonstraram durante nossos encontros. Espero ter sido útil em pequena porção que seja, mas não se iludam, será com esforço e tenacidade, a escrever diariamente, se possível, que os progressos virão.
            Façam isso com alegria! É preciso sentir prazer em escrever. E cuidem da forma. Lembrem-se, não há fôrma; não se prendam a regras, a padrões ou estilos pré-estabelecidos, exerçam a liberdade de criar, cuidando da forma.
            Portanto, em resumo, o que os senhores puderam aprender nesses 15 encontros?
            Ana Paula foi a primeira a se manifestar, Professor, desculpe, mas esperava mais da sua Oficina, esperava dicas, orientação, ideias, macetes, alertas, para melhorar a minha escrita. Tobias curto e grosso, Você escolheu a oficina errada, minha filha; digo mais, NINGUÉM ENSINA NADA PARA NINGUÉM, A PESSOA APRENDE! E o silêncio voltou à sala.
            Pois eu adorei, sapecou Suzete, alegrinha, convencida de que voltava para casa cheia de ideias.
            Eu só tenho a agradecer, acrescentou Tina, pela oportunidade de contar uma historinha; a idade me ensinou que, de fato, a responsabilidade de aprender é só minha.
            Josíres não poderia ser mais enfático: amei amei amei! Obrigado, Professor.
            Vejam os senhores como está arraigada na cabeça da gente este binômio Professor/Aluno, ou seja, AQUELE QUE SABE/AQUELE QUE NÃO SABE. Ao lhes dar total liberdade para escrever, sem entraves e estorvos, pretendi lhes oferecer a autoridade DE QUEM SABE.
            Agora é Clarice quem pede a palavra, Tobias, você podia sugerir algumas leituras que acha fundamentais para quem deseja escrever, Boa pergunta, menina, pois nela está implícita a ideia de que é preciso ler, antes de tudo. Sugiro que não passem um dia de suas vidas sem que não tenham um livro nas mãos. Sugiro ainda que alternem um clássico e um autor contemporâneo. Um clássico, porque é preciso ler os clássicos, e um contemporâneo, para que se familiarizem com a literatura de nosso tempo e para que novos autores possam vender seus livros e comprar comida. As risadas voltaram ao salão, que o clima era de muita severidade até então.
            Devo acrescentar uma última sugestão, completa Tobias, Leiam Machado de Assis, sempre, leiam e releiam, não apenas os romances mais afamados, leiam os contos, as crônicas, leiam tudo de Machado, para se entranharem na intimidade da língua portuguesa. Mas também não deixem de ler Grande Sertão: Veredas, do nosso querido Rosa, pois ali a intimidade com a língua será consumada.
            E chega de conselhos. Tornou-se hábito no último encontro de nossa oficina, que alguém, por um motivo ou por outro, tenha se destacado, não que seja o melhor, ou a melhor, nada disso, é apenas um mimo meu, que essa pessoa receba uma lembrança, certamente um livro. Nesse seleto grupo, escolhi Suzete, que leva de brinde o livro de poemas chamado Esmo, de autoria de Paulo Sergio Viana.


            Os estrondosos aplausos sugerem quase que a unanimidade em favor da escolhida. Digo quase, vocês sabem, Ana Paula...
Bom que terminamos, senhores, arremata Tobias, porque vem aí gravíssima pandemia, um novo vírus talvez surgido na China e que se espalhou pela Itália e certamente chegará por aqui. Havendo quarentena, aproveitem o tempo para ler e escrever. Felicidades a todos. Foi um enorme prazer conhecê-los. Ah!, o almoço hoje é por minha conta.
A oficina termina com ruidosa e prolongada salva de palmas. Uns poucos enxugam uma lágrima que ameaça cair.

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Oficina do Tobias XIV

Folhetim


Décimo quarto encontro


No décimo quarto encontro, com tema livre, o grupo se divide entre os que escrevem à larga, sem peias, gostando do vento batendo no rosto como numa veloz cavalgada, e aqueles que diante da folha em branco ou da tela vazia, empacam, tamanha dificuldade diante da partida. 
            Aí está a razão pela qual Tobias escolhe o tema livre. Professor, não sei por onde começar, afirma Beatriz; ela é jornalista e necessita de um mote, um fato jornalístico, para começar, não sabe escrever ficção. O mesmo acontece com Solange, dona de casa, sempre muito atarefada, mas quando senta para escrever, As ideias somem, Professor! Tina não sofre desse mal, Tenho muitas histórias para contar, aqui vai uma delas:

Cruzava uma ponte sobre um ribeirão do qual já não me lembro o nome quando vi um menino pequeno dentro daquela água fétida, em plena enchente, tentando recuperar uma bola de futebol. Outras pessoas já se aglomeravam sobre a ponte, gritando para que o menino saísse da água. Reconheci-o! Chamava-se André, filho de Ondina, minha amiga que morava na casa ao lado. Corri até lá, gritei pela mãe, para que ela com sua autoridade obrigasse o menino a sair da água. Esbaforidas, corremos as duas para a ponte, mas André já estava na margem, agarrado a sua bola. 
– Vai para o castigo, menino, bradou-lhe a mãe. 
– Vou, mas com minha bola na mão!

            Choveram aplausos, Tina, você precisa escrever um livro, disse Suzete, conte mais histórias deliciosas como esta! 
Tobias, de onde veem essas ideias estranhas que os escritores colocam em livros e mais livros, pergunta Tomás, timidamente; de onde veio aquele microconto do Kafka, onde as crianças se trancam dentro de uma mala e morrem sufocadas? Esta é uma pergunta interessante, de onde veem as ideias, e ninguém menos do que Freud procurou respondê-la, disse Tobias. Veem do inconsciente, segundo o mestre. A bela história que nos contou Tina vem das experiências pessoais dela, guardadas na memória. Nossas experiências de infância são sempre muito ricas, e acabam esquecidas porque não as escrevemos. Qualquer ideia serve, desde que a forma seja de qualidade – não canso de repetir isso. Oficina serve para tratar da forma.

Ela conviveu conosco nos últimos 15 anos. Era da família, gente como a gente. Chamava-se Flor. Era da raça shih-tsu, branca com manchas marrons, o rabinho peludo, sempre alegre e meiga a abanar o rabinho. Mas envelheceu, a catarata avançada, acabou ceguinha de tudo, sofria com a artrose mas ainda andava pela casa sem se perder. Agora vem o mais interessante da história, Flor perdeu o apetite completamente, daí o emagrecimento progressivo, sem força nem para andar, a prostração doentia. Até que descobrimos o único alimento que Flor aceitava com gosto, comia com prazer e lambia os beiços e pedia mais: caqui. Flor era louca por caqui, comia caixas e mais caixas de caqui, e ainda viveu entre nós alguns anos comendo caqui! Acabou morrendo de velhinha. Nós, que ficamos, toda vez que comemos caqui nos lembramos de Flor. Ela ainda está entre nós.

Tudo serve para a escrita, continuou Tobias, mas a forma é essencial. Apresento-lhes pequeno trecho das Memória póstumas de Brás Cubas, cuja mãe acabara de falecer. Escreve Machado, na voz de Brás Cubas:

“A dor suspendeu por um pouco as tenazes; um sorriso alumiou o rosto da enferma, sobre o qual a morte batia a asa eterna. Era menos um rosto do que uma caveira: a beleza passara, como um dia brilhante; restavam os ossos, que não emagrecem nunca.”

            Vejam os senhores, em pleno sofrimento da perda materna, Brás Cubas nos fulmina com a mais fina ironia: os ossos não emagrecem nunca! Que ousadia! Que humor fino! Que imagem para se guardar para sempre: os ossos não emagrecem nunca! Frase como esta vale um milhão. Procurem essas frases – elas estão por aí –, ousem, não tenham medo do ridículo, corram riscos, saiam do ramerrão papai-mamãe, liberdade liberdade liberdade de pensamentos e ideias.
            Via-se, Tobias empolgara-se! O grupo percebe o entusiasmo nas palavras dele, e isso é contagiante. Aplaudem calorosamente.
            Suzete ainda relata interessante episódio ocorrido em seu salão de beleza, em que um homem morrera exsanguinado por uma tesourada na virilha, a artéria femoral seccionada. Ela faz daquilo um conto policial.
            Senhores – é sempre com essa palavra mais ou menos solene que Tobias encerra os trabalhos do dia –, amanhã teremos nosso último encontro. O tema será: EM RESUMO.
            Tenham uma boa tarde.

quarta-feira, 10 de junho de 2020

Oficina do Tobias XIII

Folhetim


Décimo terceiro encontro


Tobias, ao iniciar o encontro, afirma, Esta oficina não pretende formar poetas, porque a Poesia é um dom, mas quem sabe alguns de vocês têm o dom e podem desenvolvê-lo; no entanto, ler poesia todos podemos e devemos fazer, se possível todos os dias.  Distribui impressos quatro poemas, e os lê para o grupo.

Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor.

                        ***
AUTOPSICOGRAFIA

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas da roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.

                        ***
No meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

                        ***
Metade

construí minha casa pela metade
paredes de metro e meio
as portas sem fechadura
escadas sem corrimão
a mesa não tem cadeiras
o prato não tem talher
há no quintal meia horta
e meia lua no céu
nessa casa de meeiro
habita pela metade
metade do meu desejo
as minhas meias palavras
só permanece o meu sonho
inteiro inteiro inteiro 

            Sem anunciar o nome dos poetas, convida Tobias, Agora vamos conversar sobre eles.
            Gosto mais desse, gosto mais daquele, palpites se sucedem, bem pobrinhos, sem profundidade, como se nada ou muito pouco tivessem assimilado. O primeiro poema, 5 alunos conhecem o autor; o segundo, 2 alunos; o terceiro já visitara a oficina, trazido por Clarice no segundo encontro; e o último, apenas Suzete identifica o poeta, aliás ela conhece todos eles. Tobias pede que falem sobre as diferenças de estilo. Nem todos sabem o que é um soneto, nem como é construído. Ana Paula arrisca uma pergunta, Professor, pode escrever assim sem nenhuma pontuação, como no último poema? Para falar a verdade, eles não sabem nada sobre Poesia. Tobias, experiente, não esperava outra coisa.
            Pelo menos vocês gostaram de ouvir os poemas, pergunta Tobias levemente alterado, procurando esconder a irritação. A resposta positiva é unânime. Então comprem livros de poesia, de preferência os mais finos, de poucas páginas, fáceis de carregar, e leiam poesia todos os dias, leiam em voz alta, um poema ao dia que seja, homeopaticamente, pois faz bem à saúde, ao corpo, ao bestunto e principalmente à alma.  
            Tudo pode em poesia, Ana Paula, é a forma de escrita mais livre que há. Mas tomem cuidado, já dizia Fernando Pessoa: “O poeta é um fingidor”. Não é tão somente de beleza que se trata, como no primeiro verso de Luís Vaz de Camões: “Amor é fogo que arde sem se ver”. A pedra de Drummond definitivamente não é um paralelepípedo. (Alguns sentem que Tobias está meio puto da vida com tanta ignorância.) Quando o poeta Paulo Viana fala da metade das coisas, ele quer mesmo falar do sonho inteiro. 
            Repito, escrever poesia é para poucos, ler poesia é para todos. Leiam leiam leiam poesia, é o que posso lhes dizer, senhores.
            Amanhã será nosso penúltimo encontro: o tema é livre. Escrevam. 
            Tenham uma boa tarde.
            

terça-feira, 9 de junho de 2020

Oficina do Tobias XII

Folhetim


Décimo segundo encontro


Ricardo, o engenheiro químico que até agora tem participação apagada, inicia o encontro:

Em primeiro lugar, deveríamos perguntar o que é um palavrão. Quem decide o que é ou não é um palavrão? O que será palavrão para um, não será para outro. A definição de taboo word (palavrão, na língua inglesa) no Oxford Advanced Learner’s Dictionary é “a palavra que muitas pessoas consideram ofensiva ou chocante, por exemplo, porque se refere ao sexo, corpo ou raça”.
            Isso sem falar nas mudanças que o significado obsceno das palavras sofre com o passar do tempo. Que diabo! Diabo há alguns séculos era palavra impronunciável. Hoje, nem palavrão é.
Os pesquisadores descobriram que o palavrão nasce em um mundo à parte dentro do cérebro. A linguagem comum fica a cargo da parte mais sofisticada denominada neocórtex; já os palavrões ficam no subterrâneo, no chamado sistema límbico. É também a parte que controla nossas emoções. Trata-se de uma zona primitiva; nosso neocórtex é mais desenvolvido do que o dos demais mamíferos, mas o sistema límbico é bem parecido. Lá reside nossa parte animal, que sai da jaula de vez em quando na forma de palavrões. 
            Essas informações científicas explicam porquê falamos palavrões. De vez em quando eles saem... Porém, escrever um palavrão é outra coisa. Quem escreve pensa, e as palavras não saem, são registradas letra por letra. A responsabilidade de quem escreve portanto é maior, exatamente porque tem tempo para pensar. Isso não que dizer que não possamos escrever um palavrão. Podemos, porém com mais parcimônia do que o dizemos.
            Lembro-me de um texto de José Saramago, nosso Nobel de Literatura, em que ele vinha mostrando toda sua indignação para com uma determinada posição política, num crescendo de raiva, até que subitamente escreve um palavrão, e causa grande impacto no leitor! Portanto, colegas, o problema reside em que momento do texto lançar mão do palavrão. 
            Obrigado pela paciência, termina Ricardo.

            Aplaudidíssimo, merecidamente. E o que vocês acharam da carta lida ontem por João, pergunta Tobias. Clarice logo responde que não gostou. Bem, Professor, ele conseguiu o empréstimo, acrescenta Suzete, para risada geral; com os palavrões parece que João conseguiu dar credibilidade ao seu estado de penúria, com intenso realismo; a grosseria exposta na carta tinha essa finalidade, e comoveu o amigo; eu gostei, conclui a cabeleireira. 
            Tina, a senhora de Guaratinguetá, observa, Conheço bem o escritor e poeta Paulo Viana, que já teve uma bela crônica lida aqui; ele diz com toda a ênfase que “Machado de Assis nunca escreveu um palavrão”, o que penso ser um baita argumento. Thiago contra-ataca, Era um outro tempo, Tina. 
            Sucedem-se as opiniões, uns pró, outros contra. Clara, que pouco tinha falado até agora, cita Marcelo Mirisola, que ganhou notoriedade abusando do uso de palavrões, mas infelizmente nem Tobias havia lido qualquer coisa de Mirisola. Puta que pariu, vocês precisam ler mais, dispara Clara! E, sob gargalhadas, todos concordam que o palavrão agora está bem empregado.
            Tobias resolve dar uma aula, contrariando seus princípios:

O folclorista pernambucano Mário Souto Maior (1920-2001) decidiu percorrer várias regiões do país em busca dos palavrões e o resultado pode ser encontrado na nova edição de "Dicionário do Palavrão e Termos Afins". E mostra o livro!


O dicionário foi publicado originalmente em 1974, com prefácio de Gilberto Freyre, e sofreu censura dos militares. Foi relançado nos anos 80, e a primeira edição esgotou rapidamente. Carlos Drummond de Andrade defendeu o glossário publicamente:
"A carga de tais preconceitos é tamanha que o "Dicionário do Palavrão e Termos Afins", de Souto Maior, levou anos trancado em gavetas de censura, porque certo ministro da Justiça considerava atentatória aos costumes uma obra que tem similares de nível universitário na Alemanha, na França e outros países. Foi necessário que a opinião pública forçasse os governos militares à abertura democrática, embora tímida mas já hoje irrecusável, para que esse livro conquistasse direito de circulação e, portanto, de ser criticado. Seu autor, julgado sumariamente em sigilo de gabinete, seria assim um pornógrafo, quando na realidade se trata de um dos mais qualificados estudiosos da cultura nacional em seu aspecto de criação popular, de riquíssima significação."

            Se tem até dicionário, o palavrão merece nossa consideração, penso eu, e estou em boa companhia, arrematou Tobias.
            Senhores, para amanhã conversaremos sobre Poesia! Tenham uma boa tarde.

segunda-feira, 8 de junho de 2020

Oficina do Tobias XI

Folhetim


Undécimo encontro

Penso eu, talvez ninguém mais pense assim, de modo que os senhores não precisam concordar, mas bem que podiam experimentar: – que escrever cartas é a maneira mais fácil de iniciar na arte da escrita. Assim Tobias dá início ao encontro.
            E prossegue, Escolham um amigo, um parente próximo ou distante, vivo ou morto, namorado ou namorada, um antigo professor por quem nutram alguma admiração ou mesmo ódio, um político para ajustar contas, um antigo colega de turma, um destinatário qualquer. E escrevam: sobre tudo e sobre nada, falem do tempo, da política federal, futebol é ótimo tema para quem gosta, Literatura – assunto infinito –, Cinema – outro assunto infindável –, Arte, Filosofia, Religião, escrevam ao pai como Kafka escreveu, à mãe, aos filhos, escrevam sobre cães e gatos, passarinhos e borboletas, assunto não faltará nunca. Manoel de Barros escreveu: “Qualquer palavra serve para a poesia”; eu escrevo: as palavras servem para ser pronunciadas e para ser escritas, mas estas últimas são as que ficam!
            
Caríssimo Fulano de Tal,

escrevo para saber notícias de você e de sua família...

            Assim comecem, e por aí vão..., arremata Tobias, com esta frase que entra para a história da Oficina! Lembrem-se, a carta não precisa ser necessariamente enviada; guardem-na, entretanto; será sempre possível uma releitura crítica no futuro. Tobias parece empolgado com o tema, deve ser mesmo um missivista contumaz. 
            Helena, pediatra que ainda não havia se manifestado, fala Quando passei no vestibular para Medicina minha mãe me pediu para escrever uma carta à minha primeira professora do ensino fundamental, D. Dulce, e gostei da ideia, assim o fiz, para exprimir minha gratidão. Essas coisas a gente aprende, não nasce sabendo, como sentir gratidão, empatia, e escrever aquela carta me ajudou a registrar em minha mente tal sentimento. (Foi aplaudida, não preciso dizer.)
            Vou lhes confessar, disse João à queima-roupa, o carioca estudante de Farmácia, certa feita me encontrava numa pindaíba desgraçada, na dureza geral, sem um puto no bolso, então resolvi escrever a um amigo, solicitando algum. Colei no envelope um selo usado e enfiei debaixo da porta do apartamento dele, em Copacabana. Diz a carta – João tirou ensebada folha de papel do bolso do paletó e leu:

“Alfredo, queridíssimo e saudoso amigo,

espero que esta lhe encontre em ótimo estado de saúde, em plenas condições mentais e financeiras, para suportar o baque das notícias que infelizmente passo a relatar. Alfredo, estou na penúria absoluta. Não como há 2 dias. Tenho passado a pão e água. Visto farrapos sujos, pois não posso pagar uma lavanderia. Tenho o cabelo desgrenhado pois não posso pagar o barbeiro, que não me corta fiado. Alfredo, estou fodido. Puta que pariu Alfredo!, eu não merecia isso. Mas sejamos objetivos: preciso de 10 mil no momento, o que me aliviaria deveras. Você é minha última esperança, Alfredo. Trata-se de um empréstimo, que saldarei logo que minha condição financeira permitir.
Contando com sua compreensão, do amigo de sempre e de todas as horas, 
                        João Aquino da Cruz e Sousa.”

            Vocês não vão acreditar, meus colegas! Alfredo me emprestou os 10 pilas! Readquiri minha dignidade, comprei um terno novo, tinindo, me aprumei, minha situação financeira e social melhorou muito. Sabem como? Casamento de conveniência, encontrei viúva podre de rica. Só assim pude pagar a matrícula dessa porra de oficina. É que, para disfarçar, que agora sou homem de respeito, arranjei emprego num jornal, para escrever obituários, por isso estou aqui. Larguei a Farmácia, agora sou jornalista. E vão me desculpando os palavrões. Ah!, saldei a dívida com meu amigo Alfredo.
            O grupo permanece em assombrado silêncio, sem saber o que pensar. Ana Paula não se aguenta, Isso tudo é verdade mesmo ou você está dando uma de Suzete? Verdade verdadeira, assente João, rindo, sem um pingo de vergonha na cara.
            (Nelson Rodrigues afirma que todo canalha é magro; João é magro..., pensa Tobias e guarda para si tais elucubrações, que não está ali para julgar ninguém.) 
            Tobias não perde a pose, Vejam os senhores como é fundamental saber redigir uma carta, pode mudar a vida de vocês, o que não é pouco, ironiza. E diante desta inesperada oportunidade, só me resta anunciar o tema de amanhã: o uso e abuso do palavrão.
            Tenham uma boa tarde, senhores.