quarta-feira, 20 de maio de 2020

Oficina do Tobias II

Folhetim

Segundo encontro

            Clarice saiu do encontro ensimesmada, Estranho esse professor Tobias, tão famosa essa oficina dele, caríssima, eu vim de tão longe tendo que me hospedar em casa de amiga aqui em São Paulo, cidade que me assusta um pouco, verdadeiro transtorno, durante 15 dias, imagine, e ele me vem com essa história de repetir palavras! Mas vamos lá.
            Os trabalhos da oficina começam às 9 horas da manhã, com sol ou chuva, e se desenrolam até o meio-dia. O restante do dia deve ser ocupado com a redação do texto solicitado, seguida de autocrítica, alguma leitura recomendada. Quem não apresentar o texto pela segunda vez é sumariamente desligado da oficina, sem restituição do valor da inscrição, tudo assentado em contrato.
            Faltando 10 minutos para as 9 horas todo o grupo está a postos em espaçosa sala de antigo prédio localizado na Av. Paulista, com metrô à porta. Há uma pequena copa anexa, com máquina de café expresso, geladeira, para quem desejar trazer um lanche, Não há intervalo, avisa Tobias, Todos são livres para se levantar, beber água, comer alguma coisa, ir ao banheiro, não precisam pedir licença, apenas não façam escarcéu. O lugar é agradável, claro, arejado, com grande lousa ocupando toda a largura da sala, com caixa de giz de variadas cores e apagador, tudo à moda antiga, nada de tecnologia.
            Às 9 em ponto chega Tobias, Bom dia a todos, algum voluntário para apresentar seu texto? diga seu nome, por favor.
            Clarice, de São Carlos, e ela lê pausadamente:

“No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Assim que saí ontem de nosso primeiro encontro pensei que havia feito um mau negócio, me despencando de Goiânia, onde nasci, para frequentar esta oficina: o professor é doido. Que história é essa de repetir palavras? Até que me lembrei de Drummond e da pedra no meio do caminho, quatro versos e quatro vezes pedra, quatro vezes uma, quatro vezes tinha, três vezes caminho, três vezes no meio. Removi a pedra e ficou mais fácil escrever este texto. 
De fato, quando escrevo, eu tenho repetido, porém repetido equívocos...”

            Clarice terminou de ler as três páginas manuscritas com as seguintes palavras: “Estou mais animada hoje: Tobias não é doido!”
Clarice foi aplaudidíssima, inclusive por Tobias, Comentários por favor, comentem com toda a liberdade, acrescentou ele. Josíres foi o primeiro a levantar o braço, Amei amei amei... e a gargalhada foi geral! 
O segundo encontro transcorreu em clima animado, muita gente querendo falar ao mesmo tempo, só elogios para Clarice, ao que Tobias observou, Elogio tão somente alimenta a Vaidade, pecado capital, nada acrescenta de novo, em nada ajuda àquele que veio aqui para aprender, assim sendo, alguém disposto a alguma crítica? vejam, toda crítica é construtiva, não existe crítica destrutiva, o problema é de quem ouve a crítica, como a toma, se referente ao texto ou ao próprio ego. Tobias gostava de ouvir a própria voz, via-se e ouvia-se. 
Ricardo, perto dos 40, engenheiro químico, residente em Florianópolis, ensaiou alguma coisa estimulado pela exortação de Tobias, mas não foi levado a sério. Ana Paula, que desde o encontro anterior não fora com a cara de Ricardo quando este se apresentou ao grupo, aproveitou e desceu a lenha na crítica feita por ele; para arrematar, elogiou Clarice.
Apenas uma morena em seus 30 anos, bonita de rosto e de corpo, sentada ao fundo da sala, não se manifestou uma vez sequer, cruzando e descruzando as belas penas de vez em quando. 
Ao sair, entreguem seus textos, que serão devolvidos amanhã com minhas observações, anunciou Tobias. Para o encontro de amanhã, experimentem escrever sem vírgulas; porém com correção gramatical. Experimentem escrever num fôlego só mas se a pausa for inevitável, usem vírgula.
(A bela morena não entregou qualquer texto.)
Até amanhã. Tenham uma boa tarde.



É guerra...


Alertaram que o combate ao coronavírus seria uma guerra. Os militares então ocuparam o Ministério da Saúde.

terça-feira, 19 de maio de 2020

Uma obrigação moral

18.mai.2020, Folha de S. Paulo 


“Não sei se um impeachment contra Jair Bolsonaro tem condições de prosperar. Numa avaliação política, eu diria que, hoje, não. Mas acredito que temos a obrigação moral de deflagrar o processo, mesmo que não tenha êxito. Os crimes de responsabilidade cometidos pelo atual mandatário são tantos, tão ostensivos e tão graves que deixar de acusá-lo equivaleria a coonestar suas atitudes.”

                                                               Hélio Schwartsman


O título do artigo de Schwatsman é O dever do impeachment - Temos a obrigação moral de deflagrar o processo, mesmo que não tenha êxito.
            Raro alguém falar em “dever moral” nos dias que vivemos. Raro alguém pensar a ética, especialmente com a volta da política baseada no “pragmatismo”.
            O significado da palavra pragmatismo no Houaiss é a “Doutrina que preconiza que as ideias devem ter aplicação prática para ter valor.” Simplesmente isso.
            Como a Língua é viva, cada vez mais pragmatismo se associa a corrupção moral, na qual a aplicação prática se dá apenas em interesse próprio, geralmente escuso.
            A ressalva “mesmo que não tenha êxito” está em oposição a este pragmatismo interesseiro a que me refiro, e enfatiza a obrigação moral de se fazer alguma coisa, mesmo que tão singela quanto escrever estas palavras em um blog que pouca gente lê.



segunda-feira, 18 de maio de 2020

Oficina do Tobias I

Folhetim

Primeiro encontro

Duas vezes ao ano, no início de fevereiro e de agosto, Bráulio Tobias de Sousa Mello, professor de literatura na FALESP, oferece ao público em geral sua Oficina de Escrita Criativa, conhecida como a Oficina do Tobias. As vagas são limitadas a 20 participantes – Tobias não admite os termos aluno, aprendiz e congêneres, pois gosta de enfatizar que de repente aparece alguém com criatividade tão exuberante, alguém que pode ser o professor de todos, inclusive dele mesmo, então ninguém ali é aluno e por consequência ninguém é professor. (Humildade e ousadia, título para romance tipo Jane Austen.)
Vagas limitadas, inscrição caríssima, mesmo assim vem gente de todo o país para a tão festejada imersão em literatura e criatividade, na esperança que surjam novos e talentosos escritores, sonho de cada um dos participantes. 
Tobias criou interessante sistema de seleção de candidatos, ao qual se aferra sem exceções, pois julga que acima de tudo está o interesse, a determinação, a obsessão mesma do candidato pela preciosa vaga. Em seu blog  Estudos sobre Literatura, ele abre as inscrições para a oficina sem aviso prévio, sem hora marcada, nos primeiros dias de fevereiro e agosto, geralmente nas horas mortas de uma madrugada qualquer, e assim que surgem os 20 primeiros inscritos o processo é sumariamente encerrado. Os candidatos passam noites em claro, ligados no blog do Tobias, na expectativa da abertura (e fechamento) das inscrições, verdadeiro pesadelo em vigília.
Quem entrou entrou quem não entrou não entrou! exclama Tobias, e publica a frase no blog, na sessão de microcontos, e ri! Ele gosta tanto da frase que ela se tornou o tema do primeiro encontro –  não admitia a palavra aula, pois ali não havia alunos nem professor, repetia incansavelmente. Valorizava a repetição das palavras no texto literário e recriminava o uso desnecessário da vírgula. Mas voltaremos a isso mais adiante.
            Os escolhidos sentem-se orgulhosos e privilegiados diante da retumbante frase de Tobias, que lhes serve de estímulo para o início dos trabalhos, mas o coordenador não deixa por menos, provoca em seguida, Será que o leitor há de gostar disso? pergunta a Josíres, arquiteto, 45 anos, natural e residente em Campinas, SP, homossexual declarado de modo mais ou menos ostensivo desde o primeiro encontro, rígido e fiel seguidor das regras gramaticais, apreciador da literatura clássica, Eu não gosto muito, Senhor, para que repetir se posso utilizar uma infinidade de sinônimos e correlatos, Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, rebateu Tobias, enfático, e não me chame de Senhor, meu nome é Tobias, sem acompanhamentos, desde que nasci, lá se vão 65 anos. 
Portanto, este será o exercício de hoje, escrever um texto repetindo certas palavras, repetindo de forma a fazer algum sentido, não simplesmente repetir por repetir, de modo a despertar o interesse e a curiosidade do leitor.
            Lembrem-se, a FORMA é tudo; o conteúdo fica por conta da imaginação de cada um. Escrevam. Escrevam com total liberdade. Aqui nada é proibido, xinguem se for preciso, não há palavras proibidas, a única exigência desta oficina é escrever. Não há limites para a extensão do texto, importante é a qualidade da escrita, sua originalidade, o desejo de se aprimorar através da escrita.
Até amanhã. Tenham um bom dia.


sábado, 16 de maio de 2020

Paisagem de verão

Meus quadros favoritos



Egon Schiele
Krumau, 1917

A proa é que é

Ao meu irmão Paulo

 



VI

A proa é que é,
é que é timão
furando em cheio,
furando em vão.

A proa é que é ave,
peixe de velas,
velas e penas,
tudo o que é a nave.

A proa é em si,
em si andada.
Ave poesia,
ela e mais nada.

Soa que soa
fendendo a vaga,
peixe que voa,
ave, voo, som.

Proa sem quilha,
ave em si e proa,
peixe sonoro
que em si reboa.

Peixe veleiro,
que tudo o deixe
ser só o que é:
anterior peixe.


Jorge de Lima
Invenção de Orfeu (fragmento)
Poesia completa
Ed. Nova Aguilar, 1997.


A moça das trilhas

Galeria de Família

Acostumada a fazer trilhas, Maria Helena permanece em esplendia forma! O local aqui revelado não fica longe de onde ela reside, o Vale das Videiras, próximo à cidade de Petrópolis. Lindo lugar!



Helena e Juan, amigo de 6 anos



Subida da Pedra do Índio




Topo da estrada do Vale das Videiras
Petrópolis, RJ


Fotos: Maria Helena, maio 2020.

Anatomia vegetal

Fotominimalismo




Foto: AVianna, mai 2020

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Suzete está de volta!


Meu querido André,

há um bom tempo não nos comunicamos mas nunca deixei de pensar em você e arrisco dizer que o mesmo acontece com você que nunca deixou de pensar em mim. Pretensão minha? Acho que não, você até publicou no blog meu encontro com Ramos, o jornalista.
            Estive ocupada mesmo, verdade, mudei-me para F. com o plano de investir em um Instituto de Beleza, e está dando certo, pode acreditar, a clientela logo aprovou o lugar, tornou-se fiel, às vezes é duro aguentar essas madames metidas a besta com rei na barriga e bosta na cabeça, mas elas me pagam bem e posso pagar bem minhas funcionárias, de modo que vou vivendo com certo conforto, carrinho novo, pagando prestações da casa própria, curtindo a tranquilidade da cidade de interior... até que BUUUMMM, a pandemia! 
            (Estou cumprindo à risca o isolamento social, o salão fechado. Às vezes vou em casa de um cliente, cobro caro.)
            Aproveito o tempo para ler e escrever um pouco. Uma grata surpresa foi o aparecimento de um tal de Moisés em seu blog, André! O rapaz escreve microcontos como ninguém. Adorei um que diz “Justamente agora que as câmaras estão por toda parte, os discos voadores resolveram abandonar a terra.” Bela observação!
Parece que você gosta dele, um novo amigo é sempre uma festa na vida da gente. Perder um amigo é sempre trágico na vida da gente. 
            Notícia boa também foi a publicação do livro de poemas do Paulo Sergio, seu irmão, com lindo título, Esmo, a capa belíssima, fiquei louca para comprar; como fazer, André?; arruma um para mim, por favor. Com dedicatória, tá! (Suzete com Z.)
            Mas ando tristíssima com essa tragédia do corona-vírus, a televisão todos os dias anunciando o aumento do número de mortos, os mortos enterrados em valas comuns sem que os familiares possam se despedir, mortos mortos mortos escreveria você, que gosta de repetir as palavras, era o caso de escrever horror horror horror, e não sabemos onde isso vai parar. Não quero esticar esse assunto. Quero apenas dizer que estou muito triste.
Ler ajuda, escrever ajuda, mas sinto falta de conversar com os poucos amigos que tenho, abraçar eles, sair com eles para um barzinho e tomar vinho tinto para esquentar o coração nessas noites frias de fim de outono.
Escrever a você ajuda muito, querido André. Responda, por favor.
Da sempre sua,

                                               Suzete.
            

Política sem palavras



Foto: Dida Sampaio / Estadão