domingo, 12 de abril de 2020

aos pés dos donos





aos pés de seus donos
felicidade total
de barriga cheia
          o amor incondicional
          que nos dedicam os cães



Foto: autor desconhecido

camélias





jardim em silêncio
quando as camélias florescem
das flores, rainha
            verdadeiro encantamento
    pureza e intenso perfume






Fotos: AVianna, mai 2020

Tanka e Renga




pleno fim de outono
o imperador do jardim
jequitibá-rosa
            as folhas ainda verdes
            enfeitam o céu azul

***

            Tanka é um tipo de poesia japonesa formada por 31 sílabas, distribuídas no formato 5-7-5/77, em 2 estrofes. Importante notar que os dois últimos versos não podem ser uma continuação natural, explícita, dos três primeiros, embora devam ter significado correlato.
            Depois de algum tempo, por volta do século XV, o tanka passou a ser composto por duas pessoas, um responsável pela primeira estrofe, outro pela segunda. Recebeu então o nome de Renga.  
            Exemplo de renga e seus autores, Mercêdes e André respectivamente:




no escuro da noite
o roseiral sorve as gotas                                
derradeira chuva
          na manhã de fim de outono
          delicioso perfume

***


           Mais tarde a primeira estrofe do tanka ganhou autonomia, vida própria, vindo a chamar-se Haikai, forma de grande prestígio até hoje no mundo da poesia.



Fotos: AVianna e Mercêdes, abr 2020.

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Mania de microconto


Tome cuidado, todo aquele que gosta de escrever!
            Cuidado para não ser tomado pela mania do microconto, pois ela gruda que nem chiclete. Tudo pode virar um microconto: uma paisagem, cachorro bebendo água, gato vadio, orquídea em flor, as quatro estações do ano, um domingo de sol. Os sentimentos, então, nem se fala.
            Estou lendo Diário de um velho louco, de Jun`Ichiro Tanizaki, e de repente me deparo com um microconto prontíssimo, a saltar aos olhos, lindo, e o autor não sabia que estava compondo um microconto, estava apenas escrevendo seu diário, sossegado, mas eis que o leitor atento descobre no texto um belo microconto.

“– Apesar das dores, eu me distraio escrevendo. Prometo parar quando ficarem insuportáveis. No momento, estou melhor assim. Deixe-me sozinho, por favor.”

            O microconto é síntese, e por isso mesmo dá o que pensar. Para quem escreve e para quem lê.

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Imprevisto diante da fome


Quando tentou receber seus R$600,00, viu que tinha problema com o CPF. O sobrenome da mãe tinha um N só.

500 anos da morte de Raffaello Sanzio



Escola de Atenas (1509-1510)
Palácio Apostólico, Vaticano

As comemorações do aniversário de 500 anos da morte de Raffaello Sanzio, um dos maiores mestres da pintura italiana, foram ofuscadas pelo surto de coronavírus na Itália.
Raffaello Sanzio (Urbino, 6 de abril de 1483 — Roma, 6 de abril de 1520), um dos maiores mestres da pintura e da arquitetura renascentista, morreu com apenas 37 anos. Seu corpo foi sepultado no Panteão, como ele próprio havia solicitado. Mais tarde, seus restos mortais foram exumados e um molde de seu crânio ainda é exibido e preservado, em seu local de nascimento. 


Ressurreição de Cristo (1499–1502)
Museu de Arte de São Paulo

“Raffaello Sanzio nasceu em Urbino, na região de Marche, um dos centros mais importantes do Renascimento italiano, dos quais o legado arquitetônico ainda é totalmente preservado, sendo o seu centro histórico Patrimônio Mundial da UNESCO, desde 1998. 
Filho de Giovanni Santi, poeta e pintor na corte de Urbino, Raffaello Sanzio recebeu de seu pai as primeiras lições de desenho e pintura. Segundo Vasari, já muito cedo o artista tornou-se aprendiz, no ateliê de Pietro Perugino (1446 – 1523), o maior expoente da pintura da Úmbria do século XV - informação que é posta em dúvida pela historiografia recente.  A mãe de Raffaello faleceu em 1491 e seu pai três anos depois, ficando ele órfão aos onze anos de idade.
Raffaello Sanzio é considerado “o culminar de toda a cultura artística ocidental e cristã”, segundo Rodolfo Papa, historiador de arte e presidente da Accademia Urbana delle Arti em Roma: "Raffaello é o modelo indiscutível há séculos de toda a arte sacra da Igreja, ele encarna o ideal de Artista cristã, que combina o estudo da realidade das coisas, o conhecimento antiquário da arte e a penetração espiritual dos textos do Evangelho”, afirma.
Em 1504, Raffaello encontra-se em Florença, onde permanece por quatro anos, aprofundando a grande lição dos mestres florentinos, sendo Florença o berço do período que mais tarde passa a ser definido como "Renascença".
Então, no final de 1508, ele transfere residência para Roma, convocado pelo Papa Júlio II para afrescar as Salas do Vaticano, que ele inicialmente teve que pintar com outros artistas, mas que depois lhe foram confiadas exclusivamente.”


Auto-retrato (1505–1506)
Galleria degli Uffizi, Florença



País da piada pronta

Charge do dia
Clique para ampliar



André Dahmer

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Nenhum dia se passa...



“Creio que o fenômeno seja comum à maioria dos idosos, mas a verdade é que, nos últimos tempos, nenhum dia se passa sem que eu não pense em minha própria morte. Não só nos últimos tempos, porém, no meu caso. Eu pensava nisso desde muito antes, desde a época em que eu tinha meus vinte anos, mas a recorrência do pensamento é tão grande, atualmente, que impressiona. “Pode ser que eu morra hoje”, imagino cerca de duas ou três vezes ao dia. A ideia não vem necessariamente acompanhada de medo. Na minha juventude, vinha associada a uma intensa sensação de pavor. Agora, porém, chega até a me proporcionar certo prazer. Em compensação, fico imaginando pormenorizadamente as cenas que se seguirão à minha morte. O velório, por exemplo...”


Extraído de Diário de um velho louco,
de Jun‘Ichiro Tanizaki, Estação Liberdade, 2016, tradução de Leiko Gotoda.

Le Pouldu

Meus quadros preferidos



Paul Gauguin (1889)

terça-feira, 7 de abril de 2020

Um novo mundo?


Dá o que pensar a crônica de ontem do grande Ruy Castro para a Folha de S. Paulo, Dilema do escritório (6 abr 2020). Ele fala da criação dos escritórios, e de como “o mundo melhorou com os escritórios”, embora tenham gerado “afetos, desafetos, intrigas e paixões, com tudo que isso implica —prazer, êxtase, amor, assim como, às vezes, sofrimento, desespero, dor”. Enfim, Ruy Castro fala das consequências das mudanças do comportamento humano diante de uma crise.
E conclui sua crônica:  “É o que veremos depois de superado o coronavírus: se o mundo a que voltaremos será o de antes, que nos moldou como somos, ou se será um novo mundo, habitado por pessoas que talvez não reconheçamos de saída e custaremos a entender quem são — nós mesmos.”
Com o isolamento social temos tempo de sobra para pensar. É tanto tempo sobrando que começamos a conjecturar Sobre O Que Virá Depois. Isso faz parte da natureza humana, conjecturar diante do desconhecido, talvez com o intuito de aplacar o medo e a angústia.
Ruy Castro nos apresenta uma inquietante questão: haveremos de nos reconhecer a nós mesmos depois da catástrofe? Espertamente, ele não nos oferece qualquer resposta.
Se a resposta for negativa, é possível que sobrevenham transtornos mentais, mais ou menos intensos conforme os fatores preexistentes. Portanto, a melhor pergunta não é o que virá depois, mas o que podemos fazer hoje para que não venha o pior. Enfim, o que fazer hoje para que Não Deixemos De Nos Reconhecer?
Pensar pensar pensar, manter o aparelho de pensar (Bion) em pleno funcionamento, dormir bem, fazer exercícios físicos, ler bons (?) livros, ouvir boa (?) música, cozinhar a própria comida, informar-se minimamente sobre o que ocorre no mundo, e, dentre outras coisas, escolher duas ou três pessoas que também saibam pensar e conversar – o que não é fácil – e conversar com elas, mesmo que virtualmente, à distância, com certa regularidade. (Digo duas ou três pessoas porque não acredito que haja tanta disponibilidade assim, para quem deseja conversar. Como é difícil conversar, meu deus!)
            A qualidade dos livros e da música fica por conta de cada um. Contra a praga das tais redes sociais, recomendo um livro de 700 páginas que prenda o leitor como chiclete. Na música, em função das comemorações dos 250 anos de nascimento de Beethoven, ouvir a obra completa do compositor ocuparia isolamento social de um semestre. Ficam aqui as dicas. 
Quanto aos amigos, ah! isso é mais difícil de recomendar...