quinta-feira, 2 de abril de 2020

Moisés afiado!


Má vontade

– Queria ser você, para poder ser e conhecer tudo.
– Queria ser você, para ainda querer tanto.



Má companhia

– Por que não aproveita para conhecer um lugar bem legal?
– Porque quem vai estar lá sou eu.



Aposentado

A quarentena estava lhe atrapalhando. Não conseguia mais ficar sozinho em casa.



Avô em pandemia

Gostava de sentir a preocupação dos filhos e netos, mas o silêncio em casa era ainda melhor. 


                          Moisés Tito Lobo Furtado,
                          para a honra deste blog.

Ipanema em tempo de Apocalipse

A foto do dia


Que desperdício de felicidade!

Hora chegando

Charge do dia
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Laerte Coutinho

segunda-feira, 30 de março de 2020

O livro

Meus quadros favoritos


John Lyman
Pintor canadense (1866-1967)


eis a melhor receita
para suportar com alegria
o isolamento social

Gigante!

A foto do dia
dedicada a Paula Vianna



Nature

Depois que a quarentena acabar


...
– O que você vai fazer quando a quarentena acabar?
– Mando rezar missa pela alma dos mortos.
– E você, o que vai fazer?
– Vou passar dez dias em Paris.
– E você?
– Vou visitar uma tia que mora em Floriano, no Piauí.
– Bem, agora só falta você.
– Caio na esbórnia!
...

domingo, 29 de março de 2020

Coronavírus e a Igreja



Papa reza na Praça São Pedro vazia
Foto: Reuters/Guglielmo Mangiapane


A atitude do Papa Francisco de rezar missa em plena solidão de uma Praça São Pedro deserta, no Vaticano, em melancólica tarde chuvosa, me pareceu exemplar. “Senhor, não nos abandone”, implorou o pontífice.
            Nada de aglomerações, prescreve a Ciência. O Papa obedeceu, e mais que isso, revelou ao mundo que se dobrava às recomendações da Ciência, em rara comunhão de ideias entre Religião e Ciência. O mundo precisa disso nesse momento difícil por que passamos. Nunca dependemos tanto da Ciência e dos cientistas, dos pesquisadores e agentes de saúde que trabalham sem cessar em busca de soluções diante de inimigo poderoso.
            Que a missa vazia possa servir de exemplo para outras tantas religiões e seitas tão populares em nosso país, que teimam em realizar cultos em salões repletos de gente, em franca desobediência às recomendações da Organização Mundial da Saúde. O fundamentalismo religioso ignora a Ciência e prefere crer em milagres. Fora Satanás e seu vírus maldito, vociferam alguns pastores mais exaltados! Ou ainda, Nesta Casa do Senhor este vírus não entra! 
            Aqueles que preferem acreditar em fantasias infantis, tomados desde sempre pelo pensamento mágico, acreditam piamente no que dizem os pastores... e adoecem. O dízimo, porém, foi pago.
            Uma palavra para os que creem: Jesus Cristo exortou a vigiar e orar (Marcos 14:38): “Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca”. Ensinou também onde orar (Mateus 6:6): “Mas tu, quando orares, entra no teu aposento e, fechando a tua porta, ora a teu Pai, que vê o que está oculto; e teu Pai, que vê o que está oculto, te recompensará”. 
            A missa vazia de Francisco pode ser vista como alguém que ora em seu próprio quarto, em silêncio.
            A comunhão entre Ciência e Religião mostrada pela Igreja nesse episódio me parece um avanço no chamado processo civilizatório, quando fé e razão caminham juntas, pacificamente. Um outro fato, no entanto, ocorrido quase ao mesmo tempo, revela quão difícil é libertar-se do pensamento mágico como tábua de salvação para as angústias, temores e sofrimentos humanos. 
Na véspera da citada missa (26 mar 2010) a Itália foi palco de ato religioso contra a pandemia, quando certo crucifixo de mais de 500 anos, tido como milagroso, foi levado de uma igreja em Roma para a Praça de São Pedro, para uma oração especial conduzida pelo mesmo Papa Francisco. Em 1522, o crucifixo foi carregado pelas ruas de Roma, também  num pedido pelo fim de uma grande peste que assolava o país.  
Eis que a fé supera a razão, no retorno do pensamento mágico. Aflora a clara manifestação da infância da humanidade, a demonstrar quanto ainda nos falta caminhar em direção do predomínio da razão. Mas é preciso mesmo ter paciência para com a humanidade.

sábado, 28 de março de 2020

Moisés de novo


Altares

Era ateu convicto. Praticava rituais e sacrifícios do início ao fim do dia.



Inconscientização

A decrepitude já aparecia em seus sonhos sem acordá-lo. Estava pronto.



Agonia

Apenas o caos e o cansaço lhe acalmavam.



Pandemia

Quando as clínicas veterinárias foram fechadas, a família entrou em pânico.




                               Moisés Tito Lobo Furtado

Terapia desnecessária


Hélio Schwartsman, que não é médico (mas a esposa dele é!), trata hoje de tema fundamental na Medicina, porém relegado a segundo plano por pacientes, familiares e pelos próprios médicos, diante da dificuldade de encarar a morte, e até de falar sobre a morte (Mais que um paliativo, Folha de S. Paulo, 28 mar 2020). Vejamos o que diz Schwartsman:

“Mesmo antes da epidemia, uma falha da medicina brasileira era a pouca atenção dada aos cuidados paliativos. Todo o mundo sabe que vai morrer um dia, mas, por uma série de fatores, esse é um assunto que preferimos evitar, inclusive nos hospitais. O resultado é o prolongamento de esforços terapêuticos para além do razoável, muitas vezes aumentando o sofrimento do paciente e incorrendo em gastos difíceis de justificar.”

O articulista salienta a falta de leitos de UTI em todo o Brasil, o que se torna ainda mais grave nesses tempos de pandemia. Os 47 mil leitos de UTI do país têm taxas de ocupação de 95% no SUS e 80% na rede particular, antes da COVID-19. Assim, “pacientes paliados que já não tenham como se beneficiar de internação devem, até para reduzir o risco de contrair nova moléstia, ser transferidos para casa ou unidades de retaguarda”, afirma Schwartsman.
            Esta é uma realidade antiga em nosso sistema de saúde. Para início de conversa, fala-se muito pouco da morte e do processo de morrer em nossas Faculdades de Medicina. Diante de um paciente terminal, fica mais fácil colocá-lo numa UTI do que conversar com a família, explicar adequadamente a situação, e encaminhar o paciente para casa, com o devido suporte paliativo. Falta habilidade aos médicos para tratar do tema. Falta disposição e coragem aos familiares para encarar a perda de um ente querido.
Ao final de sua crônica, Schwartsman faz uma pergunta importantíssima, sobre outro assunto tabu entre médicos e pacientes: “Como estão os estoques e a distribuição de morfina?” Médicos ainda têm muita dificuldade em administrar morfina mesmo a pacientes terminais, sob a absurda alegação de que “eles vão se viciar”. (Ouvi com frequência esta frase ao longo de minha vida de cirurgião.) Trata-se da negação da morte, sem dúvida, e com ela, o sofrimento desnecessário do paciente.
Muito importante que um pensador do nível de um Hélio Schwartsman traga o tema à baila em artigo de jornal.