Diante do isolamento e solidão, sem saber o que pensar, resolveu escrever sobre papel higiênico.
sexta-feira, 20 de março de 2020
Prateleiras vazias
Um repositor empurra um carrinho com papel higiênico até uma loja em Málaga
Por que o papel higiênico está se esgotando no mundo com o coronavírus? Pergunta Paz Álvarez, de Madri, para El País (18 mar 2020).
O papel higiênico desapareceu das prateleiras dos supermercados, desde o início da crise, na Espanha, Hong Kong, Estados Unidos, Reino Unido, Cingapura, Austrália e outros países. A procura também é grande entre os brasileiros. No supermercado de bairro perto de minha casa, logo na entrada há uma pilha enorme do produto, a chamar a atenção do cliente que chega; não há falta, portanto.
Afirma David Coral, presidente da agência BBDO, que “um produto higiênico dá uma sensação de segurança”. Além disso, “se você vê que as pessoas estão comprando, pensa que é por alguma razão e que é necessário, e nesse tipo de comportamento se demonstra que somos gregários”.
O professor de marketing, Paco Lorente, diz que “o consumidor, diante da possível escassez de um determinado produto, decide acumular a maior quantidade possível. Em uma crise como a que estamos vivendo, os produtos que nos dão bem-estar e limpeza são os mais valorizados”.
Afirma ainda Lorente: “No entanto, existe outro fator que determina essa compra compulsiva: a prateleira vazia. O lugar vazio leva as pessoas a pensar que vai escassear e isso provoca ansiedade, além do fato de que o que o consumidor mais quer é controlar a situação”.
Jaime Veiga, diretor acadêmico do Master in Market Research and Consumer Behavior, fala de comportamentos irracionais gerados pelo estresse e pelo medo. “Uma situação de confinamento a longo prazo gera dúvidas sobre quanto vou precisar, mas gera principalmente medo que o produto acabe. E concorda com os outros especialistas consultados que o efeito da histeria coletiva costuma acontecer quando um artigo é escasso. Quando há muitas latas de conserva em uma prateleira, isso não gera ansiedade, mas se está faltando, uma necessidade urgente de consegui-las se produz”. Ele acredita que a “amplificação de tudo isso teve a contribuição das redes sociais, que reproduziram imagens que incitavam ao consumo desenfreado.”
Há uma estratégia de marketing, especialmente no setor do luxo, no qual são lançadas edições limitadas para aumentar a percepção de exclusividade de um artigo. Mas isso não parece acontecer com o papel higiênico, mesmo aqueles de folha tripla e perfume de lavanda, verdadeiras joias - porque ele merece!
Não estou certo que que seja apenas isso que dizem os especialistas, mas temos algo em que pensar, sobre fato tão intrigante.
quinta-feira, 19 de março de 2020
esmo
Acaba de ser publicado pela Agência Comunica o livro de Paulo Sergio Viana intitulado esmo – poemas, para enorme alegria e orgulho de seus amigos, familiares e admiradores.
Quem pega o livro pela primeira vez há de ficar encantado com a capa, belíssima, com fotografia do próprio autor e projeto gráfico de Joaquim Olímpio (desde já nossos agradecimentos a Paula Vianna, dona da Comunica).
Na contracapa Paulo escreveu:
Na contracapa Paulo escreveu:
“O verso elusivo é laço, visgo que envolve a presa fugidia e a imobiliza em pleno ar, por um átimo. Tênue abraço amoroso. Puro esmo.
Poesia é privilégio.”
O privilégio é nosso, ao poder receber o abraço do poeta, cuja poesia é de rara qualidade nos dias atuais. A poesia contemporânea parece que deixa a desejar, pelo menos na opinião deste blogueiro. Paulo a recoloca em seu devido lugar.
Eis um belo exemplo:
ao mar
ó mar imenso mago
líquida esmeralda
eterno dançarino horizontal
sobre tablado invisível
cão pacífico
a lamber de maré
as franjas dos continentes
a sussurrar em linguagem de espuma
líquida esmeralda
eterno dançarino horizontal
sobre tablado invisível
cão pacífico
a lamber de maré
as franjas dos continentes
a sussurrar em linguagem de espuma
a abraçar o mundo
cúmplice da lua
parceiro do sol
mar das regiões abissais
onde há peixes cegos
e criaturas de formas improváveis
cúmplice da lua
parceiro do sol
mar das regiões abissais
onde há peixes cegos
e criaturas de formas improváveis
partilho contigo ó mar
a funda escuridão do pensamento
a funda escuridão do pensamento
Com o livro nas mãos, o leitor não deixe de observar que há na parte intitulada Caminho, sete lindos sonetos. Suspeito que o início da produção poética do autor tenha sido através dos sonetos, a forma clássica e difícil da boa poesia, árduo caminho a ser percorrido.
Outro exemplo:
O rastro
A vida é como o rastro que o navio
desenha à superfície do oceano,
caminho passageiro e fugidio
que o mar de vagas varre, soberano.
que o mar de vagas varre, soberano.
É feito só de espuma, puro engano,
o belo, luminoso, luzidio
traçado sobre a água azul. Insano
o belo, luminoso, luzidio
traçado sobre a água azul. Insano
querer que pelo mar corresse um rio.
Assim serão os fatos desta vida,
dos quais nenhum resquício há de ficar,
dos quais nenhum resquício há de ficar,
por mais que luminosa e apetecida.
Deixemo-los, que vão se desmanchar,
olhemos só à proa, atrevida,
que o importante, mesmo, é navegar.
que o importante, mesmo, é navegar.
Deixo aqui os nossos efusivos cumprimentos – escrevo em nome de toda a família – ao Paulo Sergio, pelo magnífico esmo!
quarta-feira, 18 de março de 2020
aconchegadamente
se deseja varanda acolhedora
cubra o piso com lajotas
use boa madeira de guarda
pinte de branco as paredes
forre o teto com madeira
decore-a com diversas plantas
de variadas flores e perfumes
de variadas flores e perfumes
e espere vinte anos
até que tudo se ajeite
aconchegadamente
Foto: AVianna, mar 2020
iPhone 11
terça-feira, 17 de março de 2020
Matar o tempo
Há dias ouvi num programa de rádio, em emissora conceituada, que diante da necessária reclusão social causada pelo coronavírus, e da perspectiva de passar em casa o fim-de-semana e também a semana seguinte inteira, e depois a outra, o caro ouvinte tinha duas opções.
A primeira seria maratonar. Nem aspas preciso utilizar ao escrever esta palavra, pois ela já está registrada no Dicionário inFormal: (https://www.dicionarioinformal.com.br)
Maratonar:
1. Assistir a um seriado, ler um livro ou consumir qualquer produto de entretenimento de forma ininterrupta, frenética e incessante, com bastante interesse e empolgação, consumindo inteiramente ou parcialmente em um curto período de tempo.
2. Assistir a uma série sem parar.
2. Assistir a uma série sem parar.
Eis um belo exemplo de criatividade que a língua propicia a nós, falantes! É pegar uma série de 8 capítulos por temporada com duração de 1 hora cada e assistir as 10 temporadas em um único fim-de-semana. Isso é maratonar.
A segunda opção recomendada pela locutora seria providenciar jogos de tabuleiro. Fiquei espantado com a sugestão! Jogar xadrez, damas, banco imobiliário, palavras cruzadas, gamão, parece voltar no tempo! Logo pensei: não serve para mim: minha mulher não joga nada pois não tolera perder. E ficou nisso o aconselhamento da rádio.
Fiquei esperando a terceira opção, que não veio. Por que não pegar um bom livro para ler? Até o Dicionário inFormal registra “ler um livro” como possibilidade de maratonar. Já não tenho idade para tanto, mas estou enfrentando as 715 páginas de As irmãs Makioka, de Jun’ichiro Tanizaki. Uma delícia! De forma frenética e com empolgação, como recomenda o dicionário, já tracei 240 páginas.
A quarta opção estou cansado de recomendar: ESCREVER! É divertido, acalma o espírito, ordena os pensamentos, ocupa a mente de forma saudável e criativa. E mais, a presença constante do leitor virtual não é contagiante!
Se você é daqueles que diz não ter assunto, então escreva uma carta ao seu melhor amigo, pergunte por ele, como vai de saúde, de dinheiro, de casamento, fale de você, se está bem de saúde, de dinheiro, de casamento, assunto é que não há de faltar. Se o amigo responde, está estabelecia uma correspondência, coisa raríssima hoje em dia, porém preciosa para aqueles que a cultivam.
E não é que escrevi uma crônica sobre como matar o tempo! Sofrível, mas que importa? Alguém pode até se divertir com ela.
Rabo-branco-de-margarette
Foto: Stephen John Jones
O professor inglês Stephen John Jones, desde que se mudou para Pernambuco, há 15 anos, procura uma espécie rara de beija-flor, o rabo-branco-de-margarette.
De nome científico Phaethornis margarettae, a ave pode ser encontrada na Bahia, Alagoas e Pernambuco. "Muitos achavam que ela estava extinta em Pernambuco, porque ela habita a mata atlântica de baixada com feições primárias, que é uma raridade por aqui", explica Jones. "Devido à forma como ela se alimenta, ela precisa percorrer distâncias grandes e fica difícil prever sua localização."
Atualmente, ele contribui com o banco de espécies do WikiAves, que reúne fotos, hábitos e outras informações de pássaros encontrados no Brasil.
domingo, 15 de março de 2020
Pragmatismo
– Você, um conhecedor de uísque, bebendo esta zurrapa?
– É que agora só me interesso pelo efeito.
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