quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Mais 3 do Moisés


Desejo

Acorde! A paixão é por si mesmo. É ventania. Destrói casas.



Não tenha pressa

– Neto querido, terás muito tempo para a castidade e a clausura monástica quando te tornares um velho como eu.



Maldita web

Jornais, revistas e TVs se tornaram meras fontes de informação sobre suas próprias linhas editoriais.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Parasita ganha todos os prêmios




O diretor sul-coreano Bong Joon-ho fez um filme brilhante, original, espetacular mesmo, chamado Parasita, título que chama atenção, intriga, provoca e leva o expectador ao cinema, e ele não se decepciona, aplaude.
            (Tenho dificuldade para escrever sobre o filme sem contar a história, aquilo que modernamente se chama de spoiler; prefiro a nossa expressão ‘contar a história’, bem mais afetuosa.) 
Enumero apenas 10 fatos que me pareceram marcantes, numa síntese esquemática, com a pretensão de descrever, mais do que revelar. Destaco a dualidade, a simetria e a assimetria constantes. (O que faço mesmo é organizar minhas ideias através da escrita, para pensar melhor o filme.)
            
1.  2 famílias: 2 maridos, 2 mulheres, cada uma com 2 filhos, 1 menino e 1menina em cada família, de modo a perfazer 2 meninos e 2 meninas. 

2.  2 condições sócio-econômicas opostas, pobreza e riqueza extremas.

3.  2 casas ou moradias distintas, tão marcantes, elaboradas com tantos detalhes, que poderiam ser consideradas também protagonistas.




4. A casa da família rica, na ficção, foi criada pelo famoso arquiteto Namgoong Hyeonja. Tem linhas retas, é contemporânea, a sala com imensa janela de vidro ao fundo. O projeto é do cenógrafo Lee Ha Jun, construído em terreno baldio da Coreia do Sul, com calculada incidência de luz solar sobre o jardim, por exigência do diretor. A casa é tão real que é possível que alguém, mesmo durante o filme, tenha buscado no Google informações sobre sua origem e localização. 


(Divulgação)

5. Os pobres vivem em um buraco fétido, subterrâneo sem iluminação, onde nunca chega a luz solar, onde abundam insetos e todo tipo de quinquilharias; e eles são acumuladores de pobreza. A única pequena janela do buraco se abre para o rés da rua, onde vizinhos mijam à vontade. (Há quem viva ainda hoje em tais habitações na Coreia do Sul.)




7.  A família pobre, sem qualquer caráter, à sua maneira está bastante viva para praticar falcatruas, contar mentiras, espoliar (origem da gíria spoiler) o próximo, em busca de uma vida melhor, pois o buraco onde habita cheira mal. Eles têm esperança, representada por uma pedra mágica que ganharam de presente (portanto, sem qualquer esforço).

8.  A família rica é disfuncional, pobre de ideias, atolada na superabundância material, tudo de ótima qualidade porque vem dos Estados Unidos. Não sabem o que significa ter esperança porque têm tudo, não precisam de mais nada. (Mesmo assim, há uma cena em que o motorista despeja na mesa uma dezena de quinquilharias ou eletrônicos.) Eles toleram os pobres, só não suportam o cheiro deles, o que no filme não é um mero detalhe.

9.  2 famílias parasitas; pensando bem, quando o filme termina, percebemos que todos são parasitas.

10.  Ao final, sobram 2 de cada lado. (Ops!, quase conto a história.)

            Há muito mais para ser pensado, apenas não posso contar aqui. Mas é um grande filme, para entrar para a história do cinema.

Foto e microconto




Ao entrar no quarto de dormir, surpresa, perguntou, Ainda tem lugar pra mim aí nessa cama?



Foto: Cecília Vianna, fev 2020.

Sagres refaz epopéia



Navio-escola português Sagres refaz a primeira viagem de circunavegação no séc. XVI. 
Foto: Infoglobo


Em jornada de 371 dias, o navio-escola Sagres zarpou de Lisboa no dia 5 de janeiro, para passar por 22 portos de 19 países diferentes, repetindo o episódio que marcou para sempre a história da navegação, grande feito da humanidade. A reportagem é de Filipe Barini para O Globo (10 fev 2020).
“A jornada do navio-escola Sagres busca o caminho feito há 500 anos pela esquadra comandada por Fernão de Magalhães. Sem os recursos de navegação, de comunicação ou mesmo de saúde disponíveis hoje, os cinco navios com 250 tripulantes a bordo se lançaram rumo ao Oceano Atlântico em 20 de setembro de 1519. Foram 1.081 dias a bordo, cruzando três oceanos e mudando a perspectiva sobre o planeta, destroçando mitos medievais e traçando novas rotas comerciais.
O custo humano, porém, foi colossal: dos 250 tripulantes que começaram a viagem, apenas 18 retornaram ao porto de Sanlúcar, na Espanha, em 6 de setembro de 1522. Fernão de Magalhães não estava entre eles: o navegador foi morto durante uma batalha nas Filipinas, em abril de 1521, sendo o restante da viagem comandado pelo espanhol Juan Sebastián Elcano.”




segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Com o passar do tempo 2...


Conservador

Lia, relia, voltava a ler, anos a fio, Machado de Assis. Tornou-se monarquista.


Convivência

Especialista de renome, passou a vida tratando de adolescentes. Ela mesma nunca chegou à idade adulta.


Ilusão desfeita

Inteligentíssima, memória elefantina, a certa altura da vida pensou que sabia tudo. Amarga ilusão...

sábado, 8 de fevereiro de 2020

Mozart no céu


No dia 5 de dezembro de 1791 Wolfgang Amadeus
                               [Mozart entrou no céu, como
                               [um artista de circo, fazendo
                               [piruetas extraordinárias sobre
                               [um mirabolante cavalo branco.

Os anjinhos atônitos diziam:    Que foi?   Que foi?
Melodias jamais ouvidas voavam nas linhas
                               [suplementares superiores da
                               [pauta.
Um momento se suspendeu a contemplação inefável.
A Virgem beijou-o na testa
E desde então Wolfgang Amadeus Mozart foi o mais
                               [moço dos anjos.


                                Manuel Bandeira

Mártir



Médico Li Wenliang foi infectado pelo coronavírus e morreu
Foto: Reprodução/Redes Sociais



 Li Wenliang, médico oftalmologista de 34 anos, no final de dezembro tentou alertar as autoridades sobre um vírus misterioso. Parece que a polícia chinesa não concordou em divulgar a notícia, retardando o diagnóstico, tratamento e prognóstico da epidemia que se desenvolveu. Há três dias Li Wenliang morreu, e até sua morte encontrou dificuldade para ser divulgada.
            E há quem peça a volta da ditadura.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Com o passar do tempo...


Homem pássaro

Uma vida a fotografar pássaros: gestos delicados em silêncio, passos lentos, fiapo de voz. Até que aprendeu a voar.


Mulher peixe

Não fazia outra coisa senão mergulhar. Com o passar do tempo, desaprendeu a falar. Apenas borbulhava. 


Gosto de sangue

Depois de longa vida como cirurgião, aposentou-se. Inconformado, comprou um açougue.

Fotos de Enio Machado

A foto do dia




Saíra-sete-cores, Enio Machado


Enio Machado é fã de pássaros e Fotografou 200 espécies da Mata Atlântica desde 2014, nas serras do Mar e da Mantiqueira (Folha de S. Paulo, 5.fev.2020). 
“Enio Machado, 53, prefere procurar pássaros sozinho, sem contar com guias. O jornalista precisou treinar o ouvido para reconhecer cantos e a paciência para conseguir uma boa foto. “Pássaros não param um segundo, se aproximar deles é muito difícil. Você fica em concentração absoluta”, conta.”



Morte de George Steiner




Escritor, crítico e filósofo francês George Steiner
Bertrand Guay - AFP


Três perguntas de George Steiner:

1.    Como é possível a um ser humano civilizado ler Goethe ou Rilke à noite e trabalhar em Auschwitz na manhã seguinte?

2.    Então a cultura não é uma força humanizadora, como acreditamos desde Platão? Finda a hegemonia da cultura livresca, com sua bagagem clássica, vem o quê?

3.    Toda linguagem é um pacto. O pacto antigo morreu, e poucos lamentaram isso porque era um pacto elitista, mas como negar a perda de substância humanística envolvida na operação de trocar a fruição de uma cultura clássica plena de sentido pelo faça-você-mesmo banal do culto ao homem comum?


Essas questões aparecem no artigo de Sérgio Rodrigues, Fiadores da civilização - Morte de George Steiner é um marco sutil mas revelador do nosso tempo, para a Folha de S. Paulo (6.fev.2020), no qual ele lamenta a morte do crítico literário e ensaísta George Steiner, aos 90 anos. Afirma Rodrigues:  “é um daqueles fatos que podem ser lidos como marcadores do “fim de uma era”.
            Escreveu Steiner: “Tecnocracias populistas e de massa caracterizam-se pelo semianalfabetismo”. “Prosperam em meio a uma crise de linguagem, após o fim de um modelo de compreensão do mundo em que “a fala instruída e a escrita eram os fiadores da civilização”.

            Tudo isso me parece muito atual.