sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Energúmeno e o ignorante


Devemos consultar sempre o dicionário!  É o que me aconselha meu irmão Paulo Sergio, escritor, poeta, conhecedor da língua mãe, e de quebra, mestre no Esperanto. Diante de certa declaração recente vinda de alta autoridade do governo, nominando Paulo Freire de energúmeno, só me restou ir aos dicionários. Energúmeno?
            Caldas Aulete registra: 
1. Ant. Pessoa possuída pelo demônio ou que age como um possesso; 2. Fig. Indivíduo não confiável, por ser desprezível e estúpido; BOÇAL.
O Priberam informa: 
1. [Antigo]  Pessoa dominada pelo .demônio. = POSSESSO; 2. [Figurado]  Pessoa que, dominada pela paixão, tem atitudes ou comportamentos excessivos.3. [Figurado]  Fanático intolerante.4. [Pejorativo]  Pessoa considerada ignorante ou muito básica. = BOÇAL
Dicionário Online português:   
[Antigo] Aquele que acreditava estar possuído pelo demônio; possesso. [Figurado] Sujeito sem conhecimento, que age como um boçal; imbecil, ignorante. Indivíduo que possui um comportamento descontrolado; quem se descontrola por excesso de paixão; desatinado. 
O Houaiss não podia faltar:
1(obsl.) possuído pelo demônio, possesso; 
2 (p.ext.) indivíduo que, exaltado, grita e gesticula excessivamente; 
3 (fig.) indivíduo desprezível, que não merece confiança; boçal, ignorante.
        No Dicionário Informal encontramos vários sinônimos para energúmeno: cabaço burro idiota possesso imbecil tonto panaca retardado doido inútil preguiço inerte fera xepa estúpido desnorteado tolo incapaz endemoninhado endiabrado energúmeno traquinas travesso fanático carola devoto exaltado jacobino furioso indignado iracundo possuído inútil  endemoniado mal caráter tomado envolvido puto ignorante jegue jumento anta estafermo estrupício cretino mentecapto apaixonado inergúmeno louco besta camelo calhau cavalgadura abécula alimária abantesma desequilibrado descontrolado desatinado arrebatado abestado inábil néscio lerdaço ineficiente disparatado asneirento.
Os demais dicionários consultados, incluindo o respeitadíssimo Laudelino Freire, registram praticamente os mesmos conceitos acima relacionados. Como não encontrasse significado algum que coubesse à ilustre figura de Paulo Freire, muito pelo contrário, só encontrei antônimos, concluo que o acusador não tem o hábito de ir aos dicionários, como recomenda meu irmão. Trata-se de um ignorante, no sentido mais simples do termo: aquele que ignora, que não sabe, e, pior, não busca saber. 



Ruth, Omair e um casamento feliz

Galeria de Família


Para nós, crianças criadas no interior, as visitas do Tio Omair e Tia Ruth, eram acontecimentos mágicos. 
            Relembro: Omair era o irmão mais moço de nosso pai, e Ruth a esposa dele. Para ir logo ao ponto mais importante da história, eles eram os únicos da família com curso superior, ambos químicos formados pela Universidade do Brasil. Pelo menos para mim isso causava um sentimento de respeito e admiração enormes. 
            Ruth e Omair viviam no Rio de Janeiro, cultivavam hábitos modernos, eram pessoas modernas, em comparação aos capiaus de Guaratinguetá. (Pronto, escrevi.)
            Eles eram afáveis no trato, a fala mansa, Tia Ruth tinha uma risada gostosa, mais alta, a boca aberta; não eram de muitas palavras, nunca pronunciavam uma fofoca; cultivavam a Alegria. 
            Por gentileza da Ruth, exponho em nossa Galeria a foto de ambos, a esbanjar alegria. Transcrevo algumas palavras de Ruth, no e-mail em que me enviou as fotos:
            
“Com a graça de Deus e a ajuda de parentes e amigos maravilhosos estou conseguindo conviver com a saudade imensa do Tio. Foram 61 anos de um casamento de muito amor, muito companheirismo e muita felicidade. Estou contribuindo com duas [fotos]: de um encontro da turma da faculdade, que realizávamos todo ano em diferentes hotéis, para o qual confeccionávamos blusas. ENQ (na manga ) significa Escola Nacional de Química (da antiga Universidade do Brasil ), hoje Escola de Química da UFRJ. A segunda dispensa apresentação e corrobora a beleza de nosso País.”

            Emocionantes as palavras da Tia Ruth. Muito obrigado por tudo, Ruth.



quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Chiclete de 6.000 anos


O 'chiclete' vem do cozimento da casca de bétula.
THEIS JENSEN


“Uma espécie de chiclete de 6.000 anos ainda conserva a marca dos dentes de quem o mascava. Com isso, um grupo de pesquisadores pôde obter DNA humano, mas também o das bactérias que tinha na boca. E mais, conseguiram identificar um vírus que portava e até o que havia comido antes de mastigar a goma de mascar milenar. A garota (puderam determinar seu sexo graças à genética) tinha pele e cabelos morenos e olhos claros. Os pesquisadores a chamam de Lola.” É o que informa Miguel Ángel Criado (17 dez 2019) para El País.


Lola



terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Nina Simone: saudade

A foto do dia




Nossa saudade.
Por ora, é o que podemos dizer.

Abuso sexual

Redação, Ansa e Reuters (17 dez 2019):

Papa abole 'segredo pontifício' em casos de pedofilia na Igreja.
Documentos promulgados por pontífice determinam que suspeitas de abuso sexual sejam comunicadas a autoridades civis.

Até que enfim!!! 

CIDADE DO VATICANO - O papa Francisco promulgou nesta terça-feira, 17, mudanças abrangentes na maneira como a Igreja Católica lida com casos de abuso sexual de menores de idade, abolindo a regra de "sigilo papal". Dois documentos emitidos pelo pontífice cobrem práticas que estão em vigor em alguns países, entre elas relatar suspeitas de pedofilia às autoridades civis quando exigido pela lei. 
Os documentos também proíbem que se imponha uma obrigação de silêncio àqueles que relatam abusos sexuais ou alegam ter sido vítimas. 


domingo, 15 de dezembro de 2019

Etimologia


no suor do rosto
o gosto
do nosso pão diário

sal:  salário



                     José Paulo Paes
                     em tempo escuro, a palavra (a)clara
                     Global, 2007.

Escolha definitiva




Aos 19 anos José Mário conseguiu juntar um dinheirinho, sobras daqui e dali, e resolveu experimentar algo inédito em sua curta vida, dar-se um presente. (Naquele instante talvez ele começasse a gostar de si mesmo.) 
            Pela primeira vez experimentou o dilema de quem nunca havia juntado qualquer soma de dinheiro e muito menos tivesse o desejo de transformar isso na aquisição de algum bem material. Comprar o quê? Queria mesmo uma máquina fotográfica Nikon, porém o dinheiro dava apenas para um LP. Precisava então escolher um LP.
            Sob forte influência materna, José Mário se interessou por música erudita; os clássicos Bach, Mozart e Beethoven moldaram seu gosto desde o início. Bom começo. Depois apaixonou-se por Erik Satie, mas isso foi bem depois, melhor não atrapalhar o desenrolar da história.
            No centro da cidade do Rio de Janeiro, mais precisamente no Largo da Carioca, nos idos dos anos 60, havia uma enorme loja de discos no térreo do Edifício Central, com vastíssima coleção de clássicos, além dos populares. José Mário entrou na loja com o coração batendo forte. Analisou com cuidado a prateleira de Bach, Mozart e Beethoven, encantado com a diversidade de gravações, com os álbuns caprichados, nas contracapas uma pequena biografia do autor, o resumo sobre a importância daquela obra específica, dados sobre a orquestra ou sobre o intérprete, um mundo de informações que José Mario devorava sem pressa, havia tirado folga naquela tarde de quarta-feira. Escolheu os Concertos para trompa de Mozart. Grande escolha! 
            José Mário envelheceu ouvindo música erudita. Adquiriu respeitável coleção de CDs, e nas manhãs de domingo ouvia infalivelmente as Valsas nobres e sentimentais, de Ravel; depois de alguns anos, estas foram substituídas pelo Requiem, de Mozart. Para ele, réquiens, missas, qualquer que fosse a música sacra, não significavam pesar, luto, tristeza, nada disso, ele as ouvia com o encantamento de sempre.
            Eram fases, como ele mesmo dizia, Agora estou na fase do estoniano Arvo Pärt, e ouvia o mesmo compositor durante meses. Houve tempo em que parou nos Noturnos, de Chopin; colecionou 11 gravações diferentes, na tentativa de definir sua preferida. Parou também em Stravinski e Shostakovitch, semanas ouvindo The Jazz Album, deste último. Longa foi a fase Villa-Lobos; depois de ouvir quase tudo, parou nas Bachianas, e de lá voltou às Suítes para violoncelo de Bachem particular à de número 6, lembrando sempre que o irmão preferia a de número 1, e de tanto ouvir Bach e Villa, já não sabia mais o que era de Villa e o que era de Bach, bela fusão musical, diriam os menos ortodoxos. Demência, diriam os racionais. José Mário expandiu seu gosto pela música a ponto de gostar do fantástico Quarteto de cordas e quatro helicópteros, de Karlheinz Stockhausen.
            José Mário continuou envelhecendo e com a velhice chegou uma certa surdez, que fez com que o volume do amplificador fosse paulatinamente aumentado, chegando a incomodar vizinhos e própria esposa, Abaixa isso, José Mário, que não tem ninguém surdo por aqui, esbravejava ela. Impossível saber se este fato foi determinante nos acontecimentos que agora passo a narrar.
            De repente o próprio José Mário notou que nas últimas semanas ouvia apenas as Sonatas para piano n. 30, 31 e 32, opus 109, 110, 111, de Beethoven, sempre nessa ordem, certo de que elas compunham uma única peça musical, a mais linda de todos os tempos, finalizada pelo segundo movimento da sonata n. 32, opus 111, descrita como Arietta: Adagio molto semplice e cantabile, música do futuro capaz de levá-lo às nuvens, ao céu, ao paraíso enfim, na interpretação de Alexandre Tharaud. 
            Já com a voz enfraquecida por um tosse crônica, José Mário confidenciava à esposa que sentia muito que a maior parte da humanidade nunca tivesse vivido a experiência de ouvir aquelas sonatas, uma vez na vida que fosse. Talvez elas pudessem ter mudado o mundo para melhor. A força de Beethoven.
            José Mário morreu em paz, ouvindo as Sonatas para piano n. 30, 31 e 32, de Ludwig van Beethoven, em uma tarde de fim de primavera.
            
            

sábado, 14 de dezembro de 2019

Obra de arte mais antiga


 

Um búfalo-anão rodeado de figuras antropomorfas
Ratno Sardi


Obra de arte mais antiga da humanidade é descoberta na Indonésia.
Cena de caça pintada há 43.900 anos pode ser a primeira narração humana conhecida, milênios antes do ‘homem-pássaro’ de caverna francesa. É o que informa Nuño Domínguez (12 dez 2019), para El País.
“Em dezembro de 2017, um homem chamado Pak Hamrullah descobriu a entrada de uma caverna desconhecida em um penhasco da ilha de Sulawesi (também conhecida como Celebes), Indonésia. Subiu por uma figueira até alcançá-la e ao chegar ao fundo avistou uma cena de caça pintada em uma tela de rocha de mais de quatro metros de largura. Após dois anos de estudos, a equipe de arqueólogos que acompanhava Hamrullah naquele dia afirma que essa é a obra de arte figurativa mais antiga do mundo.” 
“O único autor possível dessa surpreendente obra é o Homo sapiens, nossa própria espécie, que chegou a essas ilhas do sudeste asiático entre 40.000 e 50.000 anos atrás.” 
“Não queremos substituir um centro de origem por outro no sudeste asiático”, diz Brumm, “mas é muito interessante encontrar arte rupestre mais antiga do que a europeia”. “Isso nos obriga a nos perguntar se os humanos modernos desenvolveram a capacidade artística quando saíram da África [há 70.000 anos]”, acrescenta. Até agora foram encontradas em Sulawesi mais de 200 cavernas e abrigos com pinturas rupestres. De acordo com Brumm, a cada ano sua equipe encontra “dezenas de novas pinturas rupestres com imagens de todos os tipos”. 
O mais interessante da história é que esta não é a última palavra sobre o assunto.