sábado, 7 de dezembro de 2019

"No ar"

Fotografia



Foto de Alexey Zozulia


Fotografia premiada no concurso internacional Nature Photographer of the Year 2019, ao qual se apresentaram 14.000 imagens provenientes de 73 países diferentes.


Duas questões diante deste magnífico salto.
Haverá outra razão para a proeza que não seja a manifestação de alegria?
Se ela salta de alegria, haverá outro motivo para uma baleia, além da alegria de viver?


Em Tempo: Informa minha filha Paula, fotógrafa-sub, que a baleia não este fora d'água, mas mergulhada completamente. O salto seria para dentro. O fotógrafo apenas virou a imagem por 180 graus. De fato não há céu na fotografia.
Resolvi, mesmo assim, deixar registradas as duas questões que levantei, que tratam da alegria de viver. A baleia está alegre ao mergulhar...


quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Mais de José Paulo Paes





POÉTICA

         não sei palavras dúbias. meu sermão
         chama ao lobo verdugo e ao cordeiro irmão.

         com duas mãos fraternas, cumplicio
         a ilha prometida à proa do navio.

         a posse é-me aventura sem sentido.
         só compreendo o pão se dividido.

          não brinco de juiz, não me disfarço em réu.
          aceito meu inferno, mas falo do meu céu.


                        José Paulo Paes
                        em tempo escuro, a palavra (a)clara
                        Ed. Global, 2007.

rosinhas

fotominimalismo



Clique para ampliar.

Foto: AVianna, dez 2019, jardim
iPhone8

janelas de Sevilha








janelas de Sevilha
não são janelas
são portas
que se abrem para dentro
jardins
fontes
perfume
luz do sol
penetram pelas janelas de Sevilha


Fotos: AVianna, out 2008.



terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Crise existencial


Sempre assinou seu nome sem o acento. Ao renovar a carteira de identidade, surgiu um Sérgio. Perdeu então a própria identidade.

A barra mais pesada que tiveram


Seis horas e trinta e quatro minutos.  O despertador avisava pela terceira vez.  Os postes do início da W3 ainda acesos. Os ônibus começavam a chegar ao centro da capital. Faltava menos de meia hora para o início do plantão. Melhor levantar. Empurrou o marido da cama, tomou um banho rápido, deu beijinhos nos gêmeos e desceu as escadas do segundo andar mastigando um pão de queijo dormido. Arrumou os cabelos enquanto caminhava em direção ao Hospital de Base. O plantão de domingo nunca era tranqüilo. Os exageros do final de semana lotavam as macas do pronto socorro. 
            Estava no quinto e último ano de residência em neurologia. Foram anos de muito trabalho. Conciliar as tarefas de mãe com a formação médica era quase impossível. A maioria interrompia a carreira por algum tempo. Mônica não teve essa opção. Sua mãe nunca concordou com o seu casamento. Não ajudava. Não foram raras as vezes em que o marido teve que levar os bebês para serem amamentados no hospital. 
Apesar disso, a jovem era querida e elogiada. Médicos, enfermeiras e auxiliares ficavam impressionados com o seu comprometimento. Escolheu uma especialidade difícil. A angústia de pacientes inconformados por incertezas e sequelas neurológicas sem poder oferecer grandes esperanças endurecia o coração da maioria dos médicos da área. Mônica sabia manter o otimismo e conseguia confortá-los da melhor maneira. Sentia falta de tempo para meditação e para os filmes do Godard. Em breve tudo melhoraria, pensava.
A família era valente. Trocaram a moto e o “camelo” por uma espaçosa Caravan 78, cor-de-abóbora. Iam ao parquinho do foguete, ao Nicolândia, ao Jardim Botânico e até a Alto Paraíso. Eduardo não era mais “o boyzinho das aulinhas de inglês”. Além do leva-e-traz diário com as crianças, intercalava o trabalho em um posto gasolina do setor hoteleiro sul com o curso de Processamento de Dados na UnB. Seu rendimento melhorou um pouco, mas perdia pelo menos uma matéria por semestre. Prometeu a Mônica que terminaria o curso. Melhor cumprir. 
O pai ainda dormia no tapete ao lado da cama, quando a pequena Bia foi lhe pedir o café da manhã. Abraçou a filha e depois de muitos beijos, cócegas e gargalhadas resolveu fazer o que ela queria. Melhor não abusar. Leozinho acordou mal humorado duas horas mais tarde perguntando pela mãe. Tinha pesadelos. Eduardo prometeu levá-los ao clube. As crianças completaram quatro anos e aquela quitinete diminuía de tamanho a cada dia. No próximo ano, a casa no condomínio irregular próximo a Sobradinho estaria pronta. 
Os três chegaram ao clube após o meio-dia. O sol e a secura do agosto brasiliense não impediram horas de futebol, pique-pega e piscina. Interromperam para o almoço. Bia estava com fome. Desceram para a churrasqueira mais próxima do lago. Aproveitaram a ausência da mãe para se fartarem de pão com linguiça, catchup, fanta uva e chicabom. Exaustos, dormiram no gramado embaixo das árvores. A partir daí as lembranças ficariam menos nítidas. Melhor esquecer.
Os gritos aflitos de uma mãe acordaram Eduardo. Ela dizia ter visto uma criança desaparecer no lago. Ele e dois outros homens passaram a garimpar as águas turvas no local indicado, metro por metro. Minutos preciosos foram se perdendo. Quando todos pensavam em desistir, inexplicavelmente, Eduardo decidiu caminhar em direção ao fundo. Sentiu perna tocar no corpo. Melhor correr.
Retirou a criança e a levou rapidamente para margem. Somente quando iniciou as manobras de reanimação, ensinadas pela esposa, percebeu que a vítima era o seu próprio filho. Minutos inomináveis se passaram até a chegada da ambulância. O pequeno Léo foi levado ao Hospital de Base em estado crítico.
Horas, dias e semanas de angústia e incerteza. Medo. O menino permanecia no coma em prognóstico sombrio. Ninguém arrancava Mônica da beira do leito. Seu estado depressivo preocupava. A esperança se esvaia. Impossível saber como a criança acordaria. Melhor não pensar. 
Eduardo abandonou o trabalho e a universidade. Não lembrava onde estava quando as tartaruguinhas atraíram o filho para o fundo do lago. Porém, daria tudo para conseguir esquecer o que ocorreu em seguida. Voltar no tempo. Não ter saído de casa. Não ter pegado no sono. Melhor não existir.
Bia já não perguntava pelo irmão.
– Moniquinha! Moniquinha! Acorda, menina! Tem paciente pra você no box da neuro. Calma! Já vi que não é nada grave – gritou baixinho, a experiente enfermeira, bem próximo a cama da sua residente preferida, no repouso das médicas. Inês sabia como acordar um médico sem assustá-lo, quando queria. 
Pouco adiantou. Mônica se levantou atordoada por uma sensação que ainda não conseguia compreender. Vestiu o jaleco. Cinco horas e 16 minutos. A segunda-feira, enfim, amanhecia. Caminhou pelo silêncio e pelo vazio, no corredor de acesso ao pronto-socorro. Não arrumou os cabelos. Atendeu a paciente rapidamente. Terminou o plantão. A residência terminaria depois. Precisava voltar para casa.
Melhor assim.

         Moisés Lobo Furtado                               21/11/2019

Beija-flor repousa





                    o beija-flor repousa
                    terá aprendido em algum lugar
                    o significado da palavra
                    camuflagem
                    ou nasceu sabendo
                    como todos nós
                    e nossos instintos


Foto: AVianna, fev 2008, jardim.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Procura-se


Paul Gauguin casou-se com menina de 13 anos. Recompensa milionária para quem oferecer informação segura sobre seu paradeiro.

Paul Gauguin torna-se réu


'Tehamana tem muitos pais'
 Retrato da amante menor de idade de Paul
Foto: Instituto de Arte de Chicago

Sob o provocativo título Devemos parar de admirar Paul Gauguin?, Farah Nayeri escreve para The New York Times (2 dez 2019) artigo que há de gerar polêmica. Portanto, interessa a este blog.
“Está na hora de pararmos de vez de olhar Gauguin?” Esta é a pergunta espantosa que os visitantes ouvem no guia áudio, circulando pela mostra Gauguin Portraits na National Gallery, em Londres.” Estão expostos autorretratos, retratos de amigos, de colegas artistas, das jovens com as quais viveu no Taiti e dos filhos que ele teve com elas.
Destaca-se o retrato de Tehamana (1893), amante adolescente de Gauguin, segurando um leque. O artista “manteve frequentemente relações sexuais com adolescentes, ‘casou’ com duas delas e teve filhos”, informa o texto na parede do museu. 
Paul Gauguin nasceu em Paris em 1848, viveu no Peru na infância, até regressar à França. Começou a pintar com pouco mais de 20 anos e viajou para Taiti de barco em 1891, aos 43 anos de idade, desiludido com sua produção artística até então. 
A inovação formal apresentada pelo pintor a partir de então tornou-se sucesso mundial, marco fundamental na história da pintura. Afirma Nayeri: “Em uma época de extrema sensibilidade às questões de gênero, raça e colonialismo, os museus estão reavaliando o seu legado. Agora, tudo deve ser revisto em um contexto muito mais pormenorizado", disse Christopher Riopelle, um dos curadores da mostra da National Gallery.  
 Sasha Suda, diretora da National Gallery do Canadá editou alguns dos textos afixados ao lado dos quadros. Por exemplo, em vez de “o seu relacionamento com uma jovem taitiana”, ela escreveu “o seu relacionamento com uma menina taitiana de 13 ou 14 anos”. Disse mais: “Tratar dos “pontos cegos” da obra de artistas históricos “poderia tornar estes artistas mais relevantes”. Entretanto, “para outros profissionais dos museus, o reexame da vida de artistas do passado, da perspectiva do século 21, é arriscado”
“Eu posso ter horror e sentir asco pela pessoa, mas a obra é a obra”, explicou Vicente Todoli, diretor artístico da fundação de arte Pirelli Hangar Bicocca de Milão. “Uma vez que um artista cria algo, isto deixa de pertencer ao artista, passa a pertencer ao mundo”. 
“Ashley Remer, uma curadora da Nova Zelândia, que em 2009 fundou a girlmuseum.org, um museu online sobre a representação de meninas na história e na cultura, insistiu que, no caso de Gauguin, as ações do homem foram tão escandalosas que ofuscaram a obra. “Ele foi um pedófilo arrogante, superestimado, paternalista, chegando a ser tosco”, afirmou. 
Agora vem a parte mais surpreendente, para não dizer estarrecedora, do artigo de Farah Nayeri: “Para garantir que o legado artístico de Gauguin não seja manchado por seus “casamentos” com adolescentes, estes relacionamentos deveriam permanecer cobertos nas exposições, segundo Line Clausen Pedersen, curadora dinamarquesa que organizou várias mostras de Gauguin. Em cada exposição, “retira-se outra camada da proteção da história de que ele de certo modo se aproveitou”, disse. “Talvez tenha chegado o momento de arrancar mais camadas do que antes”. E acrescentou: “O que resta dizer a respeito de Gauguin é que devemos retirar toda a sujeira”.
 Uma certa ministra do atual governo talvez pudesse convocar aquela senhora para reavaliar a produção artística nacional, desde sua origem até os dias atuais, para retirar tanta sujeira. O fundamentalismo religioso não impera apenas entre nós, infelizmente. Fico pensando quanto da arte seria escondida debaixo de panos, empoeirando em salas obscuras dos museus, guardada em porões de antigas bibliotecas, censurada aos olhos dos homens, a partir de julgamento moral, e não artístico, de um determinado julgador onisciente e onipotente.
Voltamos à Idade Média? Seria isso o começo do fim da Arte?



domingo, 1 de dezembro de 2019

Essa gente




Devoro em menos de 48 horas Essa gente, o novo livro do Chico Buarque de Hollanda (Companhia das Letras, 2019), alucinante, delicioso, atualíssimo, surpreendente, e quantos mais adjetivos houver para enaltecê-lo ainda seria pouco.
            Gosto de ler um autor pelo começo, meio e fim, quer dizer, ler o primeiro livro dele, o segundo, todos os que publicar, até o último (?), com a pretensão de achar que conheço o homem que escreve. Pura ilusão, mas gosto mesmo assim.
            Do Chico só não gostei do Benjamim e do O irmão alemão; dou destaque para Estorvo, uma preciosidade. Agora, Essa gente é mesmo uma delícia, literatura contemporânea do mais alto nível, escrita ágil, livre, liberta, delicada às vezes, bruta quando precisa ser bruta. Gosto de repetir o que aprendi faz tempo, ainda nos tempos do ginásio: o Demônio não tem lábios, tem beiço!
            Aqui vai uma pequena amostra:

“Também existe a categoria dos sonhos lúcidos, quando você sabe que o sonho é sonho, mas não consegue ver a saída. Ou vê, mas não quer sair, ou sai e já volta porque aqui fora é o absurdo, ou tem a pretensão de o conduzir a seu bel-prazer, como se você fosse um diretor de sonhos. Feito o desta madrugada em que, à cata de companhia, deito o olho numa mulata alta e airosa na Praça Paris. Quanta honra, diz ela, quando enlaço sua cintura e faço sinal para um taxi. ... Apesar de célebre, ainda não fiz fortuna, e a Yngrid parece ostentosa demais para o meu orçamento. Quando ao entrar em casa lhe pergunto pelo michê, pisca o olho e diz que vai depender da prestança. A palavra prestança ainda gira na minha  cabeça quando ela cruza as pernas no sofá. Pede champanhe, mas se contenta com um licor de maracujá, e pela fenda do macacão de seda exibe coxas saradas, sem celulites.”

            Poucas linhas adiante o leitor haverá de compreender a citação da ausência de celulites. São detalhes como este que aguçam o interesse e imaginação do leitor. É a prestança dos detalhes.
O tom de realismo da escrita é reafirmado pela recorrente história dos desvalidos meninos dos morros do Vidigal e Babilônia, castrados pelo pastor Jersey, nos fundos do templo da Igreja da Bem-Aventurança, a pedido do pedófilo maestro italiano, preocupadíssimo com as “primeiras audições no salão do Orfeão Nossa Senhora da Fátima”. Era tremendo o sucesso de Everaldo Canindé, o castrato, acompanhado por orquestra de câmara.
            A orelha do livro é assinada por ninguém menos que Sérgio Rodrigues, esse homem de sete instrumentos, a personalidade do momento. Ele termina o texto da segunda orelha com frase magistral, que resume o livro com perfeição: “Pensando bem, essa gente somos todos nós.”