domingo, 6 de janeiro de 2019

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Pouso no lado oculto

A foto do dia


Sonda Chang'e - 4
pousou hoje no lado oculto da Lua

Fotografia de um sonho


Firmino Freitas tinha doze anos quando ganhou do pai uma câmera fotográfica da marca Minolta, acompanhada de complicado manual redigido em inglês, contendo termos e expressões e uma infinidade de comandos impenetráveis para um menino daquela idade. Obstinado, Firmino destrinçou pouco a pouco o funcionamento daquele emaranhado de botões, pediu ao pai dinheiro para comprar um rolo de filme Kodak preto & branco 24 poses, ganhou a rua para a primeira experiência como fotógrafo.
            Depois de hora e meia andando a esmo pela cidade à cata de objeto digno de ser registrado, o aprendiz de fotógrafo deu de cara com uma mudança em pleno andamento, alguns homens trabalhando numa complicada operação, subindo um sofá de quatro ou cinco lugares para uma janela do quarto andar do edifício, já que o mostrengo jamais subiria por escada ou elevador. Exultante, Firmino começou disparar sua máquina, buscando o melhor ângulo, a iluminação ideal, a fotografia premiada. No íntimo, torcia para que ocorresse algum acidente, já via a foto estampada na primeira página do jornal da cidade acompanhada da estrondosa manchete – SOFÁ DESPENCA DO QUARTO ANDAR E MATA DOIS TRANSEUNTES –, e logo abaixo, FOTO: FIRMINO FREITAS.
            Chegou esbaforido em casa, já na hora do almoço, foi logo pedindo ao pai que levasse o filme para revelar, ansioso pelo resultado, mesmo que o sofá não tenha despencado. O pai, severo, acedeu sem uma única palavra.
Passaram-se os dias, uma semana, duas semanas, o pai não tocava no assunto; Firmino arriscou Será que está pronto, pai? E do pai nada, apenas o silêncio carrancudo.
Depois de um mês de absoluto silêncio Firmino resolveu conversar com a mãe, saber se ela tinha alguma notícia do filme, se podia interferir junto ao pai, Meu filho, você sabe como é seu pai, me disse que fotografia é coisa de veado, foi horrível, não sei que destino ele deu ao seu filme, sinto muito meu filho. Encerrou-se assim a estreia fotográfica de Firmino Freitas.
O menino cresceu, mudou-se para cidade grande, tornou-se profissional respeitado, com frequentes fotos nas primeiras páginas de grandes jornais e algumas exposições em galerias famosas. Casou-se com uma linda arquiteta – o  pai, severo demais, havia se enganado –, com quem teve dois filhos; Firmino, homem sério, pouco menos severo com os filhos, nunca se esqueceu do filme perdido na infância.
Passados longos anos, Firmino já velho e aposentado, certa manhã despertou subitamente de um longo sonho, do qual restara gravada na memória, como ponta de aço que fere a chapa de metal, apenas uma única frase: Nunca fotografe um anão

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

domingo, 30 de dezembro de 2018

A Arte de Helena Lopes


“Helena Lopes nasceu em São Paulo. Pintora, gravadora e professora. Formada em Artes Plásticas pela Universidade de Brasília, dedicava-se à gravura em metal. Sua primeira exposição ocorreu em 1980. 
Entre 1980 e 1990 participou da edição de três álbuns de gravuras editados em Brasília. 
Em 1986 recebeu uma bolsa de estudos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico para desenvolver o projeto Cerrado: Fonte Geradora de Imagens em Gravura em Metal. Esse projeto durou quatro anos, quando interrompeu suas atividades docentes na Faculdade Dulcina de Morais para dedicar-se integralmente ao projeto. 
Como professora, ao lado de Stella Maris Figueiredo Bertinazzo, fundou o Ateliê de Gravura, embrião do que mais tarde viria a ser o Núcleo de Gravura do Instituto de Artes da Universidade de Brasília. 
Desde 1998 não faz mais gravuras e dedica-se à pintura, utilizando-se dos mais diferentes suportes (tecido, gaze, etc.). Passou a utilizar técnicas mais “saudáveis”, que não exigissem tanto esforço físico, nem usassem produtos químicos tão danosos à saúde, como na gravura em metal. 
Hoje, artista premiada, atua na organização de eventos sobre gravura em metal através de mostras coletivas em Brasília e, desde 1987, vem participando de várias exposições no Brasil e no exterior.”



Este blogueiro, agora amigo de Helena, sente-se honrado em poder reproduzir pequena amostra de seu trabalho encantador.
(Clique nas fotos para ampliar.)















 Este site mostra outras obras da artista:



sábado, 29 de dezembro de 2018

Morre Amós Oz



Amós Oz
Foto: Dan Balilty / AP

O mundo perde um grande homem. 

"O nacionalismo moderado é o único poder capaz de frear o nacionalismo fanático, no Oriente Médio e em qualquer lugar. Mas é preciso que seja instaurada uma esperança concreta de condições melhores e da resolução dos problemas, para que os moderados saiam de seus refúgios e se imponham aos fanáticos. Só então a desesperança e o desespero podem recuar e o fanatismos ser contido."

Em: Como curar um fanático, Ediouro, 2004.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Animais estampados em moedas

A foto do dia


Quênia troca as imagens de políticos em moedas pelas dos animais! Grande avanço civilizatório!

Síndrome de Stendhal



Um homem contempla 'O nascimento de Vênus'
Alberto Pizzoli / Getty Images


“Um turista italiano de 70 anos sofre uma parada cardíaca e desaba enquanto contempla O Nascimento de Vênus. À sua direita ficam as telas A Primavera e A Adoração dos Magos; à sua esquerda, A Anunciação; às suas costas, o imponente Tríptico Portinari, do pintor flamengo Hugo van der Goes. Aconteceu no último dia 15, em Florença. Um grupo de médicos que também visitava a exposição conseguiu reanimá-lo com os desfibriladores da pinacoteca.” Trata-se da maravilhosa  Galeria degli Uffizi!
            É o que nos conta Lorena Pacho, de Roma para El País (26 dez 2018). Aventou-se logo o diagnóstico de síndrome de Stendhal, uma espécie overdose de beleza, de intoxicação pela Arte. 
Foi em Florença que o escritor francês Stendhal, em 1817, apresentou sintomas de profundo mal-estar, ao entrar na basílica da Santa Cruz, afetado por tamanho esplendor. “Tinha alcançado esse nível de emoção em que as emoções celestiais das artes e os sentimentos apaixonados se encontram. Senti palpitações no coração, caminhava temendo cair”, escreveu. 
Informa ainda a reportagem: “Este caso é o mais grave já visto no museu, mas não o único. O diretor relata que há alguns anos um jovem sofreu um ataque epilético em frente à tela A Primavera, também de Botticelli. “Nossos assistentes de sala têm formação em primeiros socorros, e um deles o atendeu”, relata. E acrescenta que esses funcionários já estão praticamente familiarizados com os desmaios dos visitantes. “Acontece em frente às obras de arte maiores, mais famosas”,  observa. O exemplo mais recente se deu há alguns meses, durante a inauguração da nova sala dedicada a Caravaggio. Um homem desmaiou em frente à Cabeça de Medusa, uma das obras mais inquietantes do gênio do barroco. “Quando se trata de simples desmaios é mais fácil teorizar sobre uma síndrome de Stendhal”, opina.”
Notícia interessantíssima!


quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Roma, o filme de Cuarón




A Netflix entrou definitivamente para o primeiro mundo cinematográfico e de forma brilhante com a produção de Roma, com roteiro, fotografia, direção, tudo realizado por Alfonso Cuarón.
O tema central lembra o bom filme brasileiro, “Que horas ela volta?”, de Anna Muylaert; ambos tratam da relação entre patrões e empregados domésticos em famílias de classe média. Roma se passa na Cidade do México, nos anos 70, em um bairro com esse nome, onde Cuarón cresceu. 
Yalitza Aparicio, a mulher que interpreta o papel principal, o de empregada da família, nunca havia trabalhado como atriz, e talvez ganhe uma indicação para o Oscar. O filme é dedicado à doméstica que criou o diretor na vida real, e que inspirou a personagem Cleo. Roma ganhou o Leão de Ouro em Veneza, está indicado em várias categorias do Globo de Ouro.
O depoimento de Cuarón a Luiz Carlos Merten, para O Estado de S.Paulo (26 dez 2018) é bastante elucidativo: “É meu filme mais pessoal. Tem muito de autobiográfico, também, e eu tenho a impressão de que toda a minha vida e carreira foi uma preparação para chegar aqui. A partir de um momento, dei-me conta de que tinha de contar essa história, liberar-me dos meus fantasmas. Mas tanto quanto o filme era necessário para mim, eu duvidava que pudesse interessar aos outros. Cheguei a comentar com meu irmão que muito provavelmente ninguém iria vê-lo. Foi realmente uma grande surpresa, uma catarse, receber aquela ovação em Veneza. E, logo em seguida, o Leão. Meu filme mais pessoal tocou as pessoas, tornou-se universal, e isso não tem preço. É uma coisa que me emociona profundamente.” 
            Crítico de cinema famoso escreveu que “o filme nunca emociona”. Suponho que ele tenha dormido durante a projeção; de fato o início é arrastado, monótono, nada acontece, como acontece com a vida das domésticas, arrastada, monótona, onde nada acontece. Mas a história vai ganhando dramaticidade e culmina com cena das crianças em uma praia, de arrepiar.
            Cinco estrelas, com o bonequinho aplaudindo de pé! E o melhor, a gente vê em casa.