quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Mania de Listas


Os 100 Melhores Poemas da Literatura Brasileira, Os 1000 Filmes que você não pode deixar de ver, Os 50 Melhores Romances da Literatura Universal, As Melhores Histórias de Terror de Todos os Tempos, Os Melhores Contos Brasileiros, Meus Autores Preferidos (essa categoria exige que o organizador seja uma celebridade, tipo Gisele Bündchen), e a variedade vai por aí afora. É a mania das listas.
            Basta estampar na capa Os Melhores, e pronto, a armadilha está armada, o chamariz a coçar a curiosidade do leitor. Se alguma editora utilizar-se da palavra Antologia, o efeito não será o mesmo. Antô o que? Agora, Os Melhores serão sempre os melhores.
            Mas que Melhor é esse? Melhor na opinião de quem? Quem organizou a lista? O organizador entende do riscado? Nada disso interessa ao leitor que examina a capa do livro e compra, se for o Melhor! Palavrinha mágica, essa!
            Meu possível leitor pode estar imaginando que deliro, que escrevo asneiras, de onde tirei isso de listas? Humberto Eco escreveu um livro sobre listas: A Vertigem das Listas (Record, 2010), que não comprei porque achei chato demais. Porém o grande escritor, filósofo, semiólogo, linguista, bibliófilo italiano sabia das coisas, e percebeu que essa mania de listas vem de longe. Leonardo da Vinci registrava pequenas listas de compras (com finalidade até hoje desconhecida) em seus preciosos cadernos!
            Este humilde preâmbulo serve apenas para justificar a lista que apresento em seguida, e que sugiro seja examinada com cuidado.
            
Todas as obras de Ludwig van Beethoven,
segundo a organização do próprio compositor.

Número de obras
Nome
Data de composição
op.1 n.1
1.º Trio para piano, violino e violoncelo em mi bemol maior
1793
op.1 n.2
2.º Trio para piano, violino e violoncelo em sol maior
1793-1794
op.1 n.3
3.º Trio para piano, violino e violoncelo em dó menor
1794
op.2 n.1
1ª sonata para piano em fá menor
1794
op.2 n.2
2° Sonata para piano em lá maior
1795
op.2 n.3
3ª Sonata para piano em dó maior
1795
op.3
1.º Trio para violino, viola e violoncelo
1796
op.4
1.º Quinteto de cordas
1795-1796
op.5 n.1
1.ª Sonata para violoncelo e piano
1796
op.5 n.2
2.ª Sonata para violoncelo e piano
1796
op.6
Sonata para piano a quatro mãos
1796-1797
op.7
4.ª Sonata para piano em mi bemol maior
1796-1797
op.8
Serenata para violino, viola e violoncelo
1796-1797
op.9 n.º 1
2.º Trio para arcos
1796-1798
op.9 n.º 2
3.º Trio para arcos
1796-1798
op.9 n.º 3
4.º° Trio para arcos
1796-1798
op.10 n.º 1
5.ª Sonata para piano em dó menor
1796-1798
op.10 n.º 2
6.ª Sonata para piano em fá maior
1796-1798
op.10 n.º 3
7.ª Sonata para piano em ré maior
1796-1798
op.11
4.º Trio para piano, clarineta (ou violino) e violoncelo em si bemol maior
1798
op.12 n.º 1
1.ª Sonata para piano e violino
1797-1798
op.12 n.º 2
2.ª Sonata para piano e violino
1797-1798
op.12 n.º 3
3.ª Sonata para piano e violino
1797-1798
op.13
8.ª Sonata para piano em dó menor "Patética"
1798-1799
op.14 n.1
9.ª Sonata para piano em mi maior
1798-1799
op.14 n.2
10.ª Sonata para piano em sol maior
1798-1799
op.15
1° Concerto para piano e orquestra
1798-1799
op.16
Quinteto para piano e sopros
1796
op.17
Sonata para piano e trompa (ou violoncelo)
1800
op.18 n.1
1.º Quarteto de cordas em fá maior
1798-1800
op.18 n.2
2.º Quarteto de cordas em sol maior
1798-1800
op.18 n.3
3.º Quarteto de cordas em ré maior
1798-1800
op.18 n.4
4.º° Quarteto de cordas em dó menor
1798-1800
op.18 n.5
5.º Quarteto de cordas em lá maior
1798-1800
op.18 n.6
6.º Quarteto de cordas em si bemol maior
1798-1800
op.19
2.º Concerto para piano e orquestra
1794-1795-1798
op.20
Septeto para clarinete, trompa, fagote, violino, viola, violoncelo e contrabaixo
1799-1800
op.21
1° Sinfonia em Dó Maior
1799-1800
op.22
11.ª Sonata para piano em si bemol maior
1799-1800
op.23
4.ª Sonata para piano e violino
1800-1801
op.24
5.ª Sonata para piano e violino "A Primavera"
1800-1801
op.25
Serenata para flauta, violino e viola
1795-1796
op.26
12.ª Sonata para piano em lá bemol maior Marcha Fúnebre
1800-1801
op.27 n.1
13.ª Sonata para piano em mi bemol maior
1801
op.27 n.2
14.ª Sonata para piano em dó sustenido menor "Ao Luar"
1801
op.28
15.ª Sonata para piano em ré maior "Pastoral"
1801
op.29
2.º Quinteto para cordas
1801
op.30 n.1
6.ª Sonata para piano e violino
1802
op.30 n.2
7.ª Sonata para piano e violino
1802
op.30 n.3
8.ª Sonata para piano e violino
1802
op.31 n.1
16.ª Sonata para piano em sol maior
1802
op.31 n.2
17.ª Sonata para piano em ré menor "A Tempestade"
1802
op.31 n.3
18.ª Sonata para piano em mi bemol maior
1802
op.32
Canção: An die Hoffnung para voz e piano
1805
op.33
Sete Bagatelas para piano
1800-1802
op.34
Seis variações para piano
1802
op.35
Quinze variações e fuga para piano (sobre um tema de "As Criaturas de Prometeu")
1802
op.36
2° Sinfonia in ré maior
op.37
3° Concerto para piano e orquestra
1800-1802
op.38
Trio para piano, clarinete (ou violino) e violoncelo, arranjado do op.20
1803
op.39
Dois Prelúdios para piano ou órgão
1789
op.40
Romance para violino e orquestra n.º 1 em sol maior
1802
op.41
Serenata para piano e flauta (arranj. op.25)
1803
op.42
Noturno para piano e viola (arranj. op.8)
1803
op.43
As Criaturas de Prometeu
1800-1801
op.44
14 variações para piano, violino e violoncelo em mi bemol maior
1800
op.45 n.1
1.ª Marcha para piano a quatro mãos
1802-1803
op.45 n.2
2.ª Marcha para piano a quatro mãos
1802-1803
op.45 n.3
3.ª Marcha para piano a quatro mãos
1802-1803
op.46
Canção: Adelaide para voz e piano
1795-1796
op.47
9.ª Sonata para violino e piano "Kreutzer"
1802-1803
op.48
Seis canções para voz e piano (sobre poemas de Gellert)
1803
op.49 n.1
19.ª Sonata para piano em sol menor
1788
op.49 n.2
20.ª Sonata para piano em sol maior
1796
op.50
Romance para violino e orquestra nº 2 em fá maior
1802
op.51 n.1
1.º rondò para piano
1797
op.51 n.2
2.º rondò para piano
1800
op.52
Oito canções para voz e piano (sobre textos de vários autores)
1785-1793
op.53
21.ª Sonata para piano em dó maior "Waldstein"
1803-1804
op.54
22.ª Sonata para piano em fá maior
1804
op.55
3.ª Sinfonia em mi bemol maior "Eroica"
1802-1804
op.56
Concerto Tríplice para piano, violino, violoncelo e orquestra
1803-1804
op.57
23.ª Sonata para piano em fá menor "Appasionata"
1804-1805
op.58
4.º Concerto para piano e orquestra
1806
op.59 n.1
7.º Quarteto de cordas em fá maior
1806
op.59 n.2
8.º Quarteto de cordas em mi menor
1806
op.59 n.3
9.º Quarteto de cordas em dó maior
1806
op.60
4º Sinfonia in si bemol maior
1806
op.61
Concerto para violino e orquestra
1806-1807
op.62
Abertura "Coriolano"
1807
op.63
Trio para violino, violoncelo e piano (trascr. op.4)
1807
op.64
Sonata para violoncelo e piano (trascr. op.3)
1807
op.65
"Ah! Perfido" cena e ária para soprano e orquestra
1795-1796
op.66
12 Variações para violoncelo e piano
1798
op.67
5° Sinfonia in dó menor
1807-1808
op.68
6° Sinfonia in fa maggiore "Pastoral"
1807-1808
op.69
3.ª Sonata per violoncelo e piano
1808
op.70 n.1
5.º Trio para violino, violoncelo e piano em ré maior Fantasmas
1808
op.70 n.2
6.º Trio para violino, violoncelo e piano em mi bemol maior
1808
op.71
Sexteto para sopros
1796
op.72
Fidelio - Ópera em dois atos
1805-1806-1814
op.73
5.º Concerto para piano e orquestra "Imperador"
1809
op.74
10.º Quarteto de cordas em mi bemol maior "Harpa"
1809
op.75
Seis canções para voz e piano (sobre textos de vários autores)
1809
op.76
Seis Variações para piano
1809
op.77
Fantasia para piano
1809
op.78
24.ª Sonata para piano em fá sustenido maior "Pour Thérèse"
1809
op.79
25.ª Sonata para piano em sol maior
1809
op.80
Fantasia para piano, coro e orquestra
1809-1810
op.81a
26.ª Sonata para piano em mi bemol maior "Les adieux, L'absence, Le retour"
1809-1810
op.81b
Sexteto para quarteto de cordas e duas trompas
1794
op.82
Quatro arietas e um dueto para voz e piano
1795-1796
op.83
Três canções sobre poemas de Goethe para voz e piano
1809-1810
op.84
"Egmont" - Abertura e Música de cena sobre um texto de Goethe
1809-1810
op.85
"Cristo no Monte das Oliveiras" para solistas, coro e orquestra
1801-1803
op.86
Missa em Dó Maior
1807
op.87
Trio para dois oboés e corninglês
1793-1794
op.88
Canção: "Lebensglück
1803
op.89
Polonaise para piano
1814
op.90
27.ª Sonata para piano
1814
op.91
"A Vitória de Wellington" para orquestra
1813
op.92
7° Sinfonia in lá maior
1811-1812
op.93
8° Sinfonia in fá maior
1812
op.94
Canção: "An die Hoffnung" (seconda versione)
1813
op.95
11.° Quarteto de Cordas em fá menor "Serioso"
1810
op.96
10.ª Sonata para piano e violino
1812
op.97
7.º Trio para violino, violoncelo e piano em mi bemol maior "Arquiduque"
1811
op.98
Ciclo de canções: "An die ferne Gelibte" (À Bem Amada Distante) para voz e piano
1815-1816
op.99
Canção: "Der mann von Wort" para voz e piano
1816
op.100
"Merkenstein" para voz e piano
1815
op.101
28° Sonata para piano em lá maior
1815-1816
op.102 n.1
4° Sonata per piano e violoncelo
1815
op.102 n.2
5° Sonata per piano e violoncelo
1815
op.103
Octeto para 2 oboés, 2 clarinetes, 2 trompas e 2 fagotes
1792
op.104
3° Quinteto de cordas (trascr. op.1 n.3)
1817
op.105
Seis temas variados para piano e flauta (ou violino)
1817-1818
op.106
Sonata para piano n.º 29 em si bemol maior "Hammerklavier"
1817-1818
op.107
Dez temas variados para piano e flauta (ou violino)
1817-1818
op.108
25 Canções Escocesas para voz, piano, violino e violoncelo
1815-1816
op.109
Sonata para piano n.º 30 em mi maior
1820
op.110
Sonata para piano n.º 31 em lá bemol maior
1820-1821
op.111
Sonata para piano n.º 32 em dó menor
1820-1822
op.112
Duas Canções para voz e piano sobre textos de Goethe
1815
op.113
"As Ruínas de Atenas" abertura e oito peças para orquestra
1811
op.114
Marcha com coro para "A Consagração da Casa"
1822
op.115
Abertura "Zur Namensfeier"
1815
op.116
Terceto para soprano, tenor, baixo e orquestra "Tremate empi, tremate!"
1802-1814
op.117
"Rei Estêvão", abertura e nove peças para orquestra
1811
op.118
Canto elegíaco para quatro vozes e quarteto de cordas
1814
op.119
12 Bagatelas para piano
1820-1822
op.120
33 Variações sobre uma valsa de Diabelli para piano
1819-1823
op.121a
Variações para piano, violino e orquestra
1815-1816
op.121b
"Opferlied" para soprano e orquestra
1796-1824
op.122
"Bundeslied" para soprano, contralto, coro, 2 clarinetas, 2 fagotes e 2 trompas
1822
op.123
Missa em Ré Maior "Missa solemnis"
1818-1822
op.124
Abertura "Consagração da Casa"]
1822
op.125
9.° sinfonia em ré menor "Coral"
1822-1824
op.126
Seis Bagatelas para piano
1823-1824
op.127
12.° Quarteto de cordas em mi bemol maior
1822-1825
op.128
Arieta "O Beijo" para voz e piano
1798-1822
op.129
Rondò para piano
1795
op.130
13.° Quarteto de cordas em si bemol maior
1825-1826
op.131
14.° Quarteto de cordas em dó sustenido menor
1826
op.132
15.° Quarteto de cordas em lá menor
1825
op.133
Grande Fuga para Quarteto de cordas
1825
op.134
Grande fuga para piano a quatro mãos (trascr. op.133)
1826
op.135
16.° Quarteto de cordas em fá maior
1826
op.136
Cantata "Der glorreiche Augenblick" (O Momento Glorioso) para solistas, coro e orquestra
1814
op.137
Fuga para Quarteto de cordas
1817
op.138
Abertura "Leonora n.º 1"
1805


               Os interessados podem agora procurar pelas peças que mais lhes chamaram a atenção ou curiosidade, e nem preciso escrever que se trata do Melhor Compositor de Todos os Tempos! Para isso também servem as listas.

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Novo Quilograma


O quilo é uma das quatro unidades básicas de medida, juntamente com ampere, kelvin e mol, que estão sendo  redefinidas em Paris, pela Conferência Geral sobre Pesos e Medidas. O objetivo da mudança é relacionar essas unidades a constantes fundamentais, e não arbitrárias, como tem sido até agora.


1 Kg: pedaço de platina e irídio
armazenado em Paris / Getty Images

O quilograma atualmente é definido por um objeto, a massa de um cilindro de 4 centímetros de platina e irídio, fabricado em Londres e guardado pelo Escritório Internacional de Pesos e Medidas, em um cofre na França, desde 1889.
Acontece que esse quilo original perdeu 50 microgramas em 100 anos, porque os objetos podem facilmente perder átomos ou absorver moléculas do ar. Todas as balanças do mundo são graduadas de acordo com esse quilo original, e  acabam gerando dados incorretos. Tais diferenças são importantes em cálculos científicos que exigem extrema precisão. 


Balança de Kibble / EPA 

A nova unidade será medida com a balança de Kibble (ou de Watt), que permite comparar energia mecânica com eletromagnética.
Eletroímãs geram um campo magnético. (Eles costumam ser usados em guindastes para levantar grandes objetos de metal, como carros, em ferro-velhos. A atração do eletroímã, ou seja, a força que ele exerce, está diretamente relacionada à quantidade de corrente elétrica que passa por suas bobinas.) 
Existe, portanto, uma relação direta entre eletricidade e peso. Ou seja, os cientistas podem definir um quilograma em termos da quantidade de eletricidade necessária para neutralizar sua força.
Há uma grandeza que relaciona peso à corrente elétrica, chamada constante de Planck – em homenagem ao físico alemão Max Planck, representada pelo símbolo h. Mas h é um número incrivelmente pequeno e, para medi-lo, o cientista Bryan Kibble criou uma balança de alta precisão. A balança de Kibble, como ficou conhecida, tem um eletroímã que pende para baixo de um lado e um peso – digamos, um quilograma – do outro. A corrente elétrica que passa pelo eletroímã é aumentada até que os dois lados estejam perfeitamente equilibrados.



Essa maneira de medir o quilo não muda, tampouco pode ser danificada ou perdida, como pode acontecer no caso de um objeto físico. 
         Digo eu: este mundo está ficando muito estranho!


Viagem maravilhosa



A Viagem Maravilhosa
diante do hospital Sidra, no Catar / AFP

13 fetos e um bebê gigante constituem a obra intitulada “A Viagem Milagrosa”, de autoria do britânico Damien Hirst. Ela foi encomendada pela irmã do emir e fica na entrada do hospital Sidra, no Qatar. Permaneceram cobertas durante cinco anos devido a protestos. 
A reportagem é de Peio H. Riaño para El País (19 nov 2018). São 14 esculturas gigantes de bronze, que vão do desenvolvimento de um feto da fecundação até o nascimento, culminando com um bebê recém-nascido de 14 metros de altura. 
Segundo Hirst , “É a primeira escultura nua no Oriente Médio”.
Informa Riaño: “A instalação é parte da impressionante coleção de arte contemporânea do hospital Sidra, onde a irmã do emir, Al-Mayassa bint Hamad bin Khalifa Al-Thani, investiu no que há de mais seleto no mercado internacional, com a intenção de criar e transmitir uma imagem de modernidade e abertura do país árabe, de 2,6 milhões de habitantes. No total, 65 obras de arte, incluindo uma instalação de neon da provocadora artista britânica Tracey Emin.” 
A polêmica provocada por essa instalação está tornando mundialmente conhecido esse hospital para crianças e mulheres, com 400 leitos, num investimento de mais de 7 bilhões de euros (30 bilhões de reais). 


A peça culminante da instalação de Hirst
com 14 metros © DAMIEN HIRST AND SCIENCE LTD



Verde e rosa com abelha

fotominimalismo





Foto: AVianna, nov 2018, jardim.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

5 microcontos da prisão


1.  Figurão, condenado e preso, não aguentava mais tantas visitas. Pediu a solitária.


2.  Sentiu o peso da solitária. Há muito não sabia o que era estar só consigo mesmo.


3.  Desesperadamente solitário, pediu um livro. Quem sabe surgiriam algumas ideias. Não foi atendido.


4.  Na solitária, não tinha em que pensar. Nunca havia lido um livro. Vazio desesperador. Pediu para sair.


5.  De volta à cela, voltaram também as visitas. Pobre inútil sensação de liberdade.

sábado, 17 de novembro de 2018

David Hockney



Retrato de um artista
(Piscina com duas figuras)
(1972)

Quadro recém leiloado em Nova Iorque por R$ 342 milhões.
David Hockney (1937) é artista britânico.


quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Futebol bruto




Escrevo poucas horas depois da brilhante vitória do Palmeiras sobre o Fluminense pelo elegante placar de 3 a 0, com direito a gol de placa de Felipe Melo.
            Não é um torcedor do Internacional, do Flamengo, do São Paulo ou do desvalido Corinthians, ameaçado de rebaixamento, quem escreve, e que poderia ser acusado de ressentimento, mágoa, inveja ou outros sentimentos do mesmo naipe, pela provável perda do Campeonato Brasileiro de 2018 para o Palmeiras. É um palmeirense genuíno quem escreve, torcedor desde que se entende por gente, criança ainda vivendo no interior, muito antes da invenção da Internet. Portanto, não há qualquer sentimento pessoal negativo no que passo a registrar em seguida.
            O futebol brasileiro anda muito feio!
            Anos atrás os cronistas esportivos chamavam o futebol europeu, em particular o inglês, de futebol força. Nós tínhamos o futebol arte! Pois isso inverteu-se completamente. Dá gosto ver um Barcelona ou um Real Madri jogando. Por aqui, sobram caneladas.
            Os jogos são interrompidos a cada minuto pelas faltas (ou infrações) praticadas por jogadores de ambos os times, de modo que ao final no jogo o torcedor vê menos de 50% do tempo com a bola rolando. (A Fifa sugere no mínimo 60%.) Leva-se uma eternidade para a arrumação da barreira e cobrança de uma falta. O tempo de jogo é surrupiado, o torcedor enganado. É fraude.
            Porém, o que desejo mesmo salientar são os dois tipos de falta tão em moda no futebol de hoje no Brasil, ambas detestáveis, covardes, desumanas, repugnantes mesmo. Precisariam ser combatidas com veemência pelos árbitros, implacavelmente  com o cartão vermelho. 
A primeira delas chamo de pisão-no-pé. O jogador tem a bola nos pés e ainda não teve tempo de decidir o que fazer com ela; o adversário chega com força desmedida, com violência mesmo, e pisa-lhe o pé, crava-lhe as travas da chuteira no dorso do pé do inimigo. Esquece a bola e visa tão somente o pé do adversário. Muitas vezes a bola já nem está por perto, mas sobra o famigerado pisão. As consequências podem ser graves, como torções, rompimento de ligamentos, e até fraturas. O juiz (é assim que o árbitro era chamado no meu tempo de criança) quase sempre aplica o cartão amarelo. Só o uso do vermelho será capaz de coibir esta prática detestável tão difundida em nosso futebol. 
            A segunda falta chamo de mão-na-cara, ou cotovelo-na-cara. Em qualquer tipo de disputa, mesmo sem qualquer perigo de gol, o jogador agressor olha para a bola mas seu braço é dirigido para a face do adversário, atingindo o nariz, a boca, os olhos, o supercílio, com frequência causando algum tipo de sangramento. Muitas vezes o cotovelo é utilizado para a agressão, brutalidade pura. A palavra que se aplica ao lance é mesmo agressão. Por isso, com maior frequência é punida com expulsão. 
            Tudo isso enfeia muito o nosso futebol. Falta educação e humanidade ao jogador brasileiro de futebol.


Foto: Marcelo Fim / O Globo