segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Músicas que iluminam


“Quando escuto Bach, imagino que Deus existe”. 
A afirmação é de Alberto da Costa e Silva para a Folha de S.Paulo (23.set.2018), quando o historiador, poeta, ensaísta, membro da Academia Brasileira de Letras, vencedor do Prêmio Camões, revela sua relação com Johann Sebastian Bach, mais precisamente com a Missa em Si Menor. 
         Confessa Costa e Silva: “Desde menino, deixou-me a fé. Por isso, penso que não posso emocionar-me e comover-me com a mesma intensidade de quem, sendo católico, ao ouvir essa missa, pede perdão por não ser santo. Quando a escuto, porém, esqueço muitas vezes a minha desesperança de incréu e não resisto a imaginar que Deus existe e que a vida é uma parábola da eternidade. ...A grande “Missa” de Bach iluminou a minha juventude. Pus nela o meu horizonte de perfeição, e dela fui aproximando as sucessivas descobertas das muitas formas com que se dá a beleza.” 
         Eduardo Giannetti, em seu excelente livro O elogio do vira-lata e outros ensaios (Companhia das Letras, 2018), descreve seu arrebatamento pela Partita N.2 para violino solo, de J. S. Bach: “Religião: religarerelegere. Ouvir concentradamente a Partita II de Bach constitui, para mim, a experiência religiosa por excelência: o restabelecimento do vínculo sagrado com a totalidade do universo (religare) e o retorno a uma síntese primeira, anterior à cisão da autoconsciência e à dor de formas repartidas (relegere). Acima de tido que conheço, reverencio ou possa conceber, a pureza e a perfeição austera destes sons traduzem a ideia do absoluto.”
         Giannetti prescreve ainda o modo-de-ouvir sua música predileta: “Ouvir bem – estar minimamente à altura do que se ouve – é trabalho exigente, normalmente precedido de um pequeno ritual. Silêncio, isolamento e concentração são essenciais: olhos cerrados, respiração apaziguada, corpo na horizontal.”
         O leitor pode constatar a que ponto chega a influência de determinada obra (ou mesmo a música e arte de modo geral), na mente desses dois ilustres pensadores. Quem lê os dois ensaios e ainda não conhece as respectivas peças, corre atrás delas, na tentativa de descobrir as emoções registradas por ambos os ensaístas. Quem já as conhece, torna a ouvi-las, com a certeza que o tal arrebatamento se renovará.
         Chama a atenção deste blogueiro que em ambas as críticas, os autores não entram em grandes considerações técnicas ou teóricas, detendo-se exaustivamente nas emoções e sentimentos neles provocados pelas obras. Pensei, Ah! então é possível escrever sobre determinada música – a música da sua vida! – sem a necessidade de grande conhecimento de teoria musical?! 
         Sem qualquer pretensão ensaística, modestissimamente, com minha formação musical nula, tendo apenas a meu favor o hábito de ouvir música erudita desde os 18 anos (por influência de minha mãe), e algum atrevimento, sinto o forte desejo de registrar aqui minha escolha. Com o único objetivo: que o possível leitor que nunca a ouviu vá correndo atrás dela, em busca do mesmo espanto que em mim provoca. Se ele já a conhece, torne a ouvi-la, sempre.
         Falo da Sonata para Piano n032 em dó menor op. 111 de Ludwig van Beethoven, composta entre 1820 e 1822.


         A música tem início de forma majestática, com certa melancolia, e somos logo surpreendidos por acordes dissonantes, prenunciando tragédia e drama, como se o compositor avisasse, Preparem-se, vocês vão ouvir algo que nunca foi tocado em piano algum! Este primeiro movimento tem a notaçãoMaestoso – Alegro con brio e appassionato.
         Ouço-o, a despeito de sua construção complexa e belíssima, como uma preparação para o segundo movimento, a Arietta – Adagio molto simplice e cantabile.
Agora sim, chegamos ao transcendental!
         Este segundo movimento, antítese do primeiro, despojado em vez de majestoso, tem início com a Arieta, em andamento bem lento, em dó maior (adágio muito simples e cantável, na orientação do próprio compositor). O tema é de fácil identificação e a sensação que me provoca é de tranquilidade, paz e felicidade.  
         Até que surgem as variações! A primeira, com a indicação dolce, é dançante e alegre. A segunda, ainda dolce, apresenta intrigante variação de ritmo, prenunciando o andamento jazzístico.
Na terceira variação Beethoven tem um surto! Esta é a única explicação que encontro para que um homem completamente surdo fosse capaz de criar um ritmo que seria “descoberto” muitos anos depois.  
         Da quarta variação em diante a mudança de ritmo é completa, o tema volta sempre e dissimuladamente, escondido num emaranhado de arabescos, semelhantes às improvisações do jazz, ou mesmo do boogie-woogie. Daí em diante é fechar os olhos e sentir os trinados agudos, acompanhados pelos sons graves da mão esquerda; só resta sonhar.
Há um sutil tom de ironia nos três últimos compassos da peça, mínima alteração no ritmo, como se o compositor afirmasse, Eu não disse que vocês ouviriam algo muito diferente? 
         (Há quem peça um terceiro movimento, a fim de estabelecer a forma clássica da sonata. Penso que este ouvinte não prestou atenção no final do segundo movimento. Ele encerra a própria composição e a sonata, como concebida até então. Agora inventem outra coisa, diria Beethoven...)
         Não sinto necessidade de associá-la à existência de um ser superior, mas é com respeito e humildade que ouço a música da minha vida, pois cada vez que a ouço surgem inesgotáveis descobertas, acompanhadas de novas emoções. 




sábado, 22 de setembro de 2018

Corra Lola corra




Primeiro veio Camões, logo em seguida chegou Lola, mesma raça, Yorkshire terrier, de bom pedigree, marrom e preta, cores bem marcadas. Cresceu saudável, forte como uma leoa.
         Pouco maior que o macho, boa parideira, nos deu duas ninhadas, cinco filhotes na primeira, quatro na segunda, Camões o pai de todos eles – isto é certo. Os filhos que sobreviveram, hoje adultos e já com certa idade, estão espalhados por Brasília, um deles no interior de São Paulo. Nina Simone permanece conosco.
         Foram dezesseis anos de alegre companhia, esta a melhor característica de Lola, a alegria. Já bem mais velha, ao chegarmos em casa, ainda vinha Lola com uma bolinha de tênis na boca, pedindo para brincar. (Camões não brincava, era um filósofo.)
         Lola não gostava de crianças. Chegou mesmo a bater o dente – não era bem uma mordida – na bochecha de Gabriela, nossa netinha com três anos de idade, puro ciúme. Mas quando o rapaz entrou na sala para fazer uma entrega, ela pregou-lhe uma mordida na batata da perna que tirou sangue! (Eu não sabia onde me esconder de vergonha; preocupado com Dora lá fora, uma enorme e feroz mastim, descuidei-me de Lola, fiel guarda de nossa casa.)
         Amorosa ao extremo, Lola não gostava de colo, e com isso, nos ensinava a respeitar o jeito-de-ser do outro. Ela amava a seu modo.
         Lola é a perda de hoje. Já perdemos Dora, Berta, Lenda, Camões, e agora Lola. Quanto sofrimento, meu deus, mas não desistimos, cientes de que a vida é mesmo feita de perdas, desde que nascemos. Até na morte essas criaturas tão especiais, os cães,  nos ajudam, nos oferecem a dolorosa experiência de perder alguém muito querido, nos ensinam a aceitar o inevitável, e aprendemos, a duras penas, a suportar o sofrimento. (Esta singela crônica é um bom exemplo de escrita terapêutica. Ao escrever, penso: tristeza mais tristeza não gera necessariamente depressão, e sim uma enorme tristeza. É preciso vivê-la, para superá-la.)
         Há os que preferem não ter cães, para evitar esse sofrimento. Eles não sabem o que estão perdendo. Gosto de repetir que a presença do cão humaniza a família. Aprendemos muito com eles.
         Para nos consolar nesse dia de luto, temos Nina, Blimunda, Falena e Juliete, todas conscientes e igualmente tristes – não há dúvida quanto a isso –, com a morte de nossa querida Lola.
         Obrigado Lola, por sua alegre companhia. 
Corra Lola, corra! 

         

Sabiá

fotominimalismo




Foto: AVianna, 2015.

Saquê

fotominimalismo




Foto: AVianna, Brasília 2014.

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Dez chamamentos ao amigo 4


IV

Minha medida? Amor.
E tua boca na minha
Imerecida.

Minha vergonha? O verso
Ardente. E o meu rosto
Reverso de quem sonha.

Meu chamamento? Sagitário
Ao meu lado
Enlaçado ao Touro.

Minha riqueza? Procura
Obstinada, tua presença
Em tudo: julho, agosto
Zodíaco antevisto, página

Ilustrada de r4vista
Editorial, jornal
Teia cindida.

Em cada canto da Casa
Evidência veemente
Do teu rosto.


Hilda Hilst
Júbilo, memória, noviciado da paixão
In Da poesia, Hilda Hilst, Comp. das Letras, 2017

Massacre contra Rohingyas


Rohingyas fogem de perseguição, em Whaikyang, 
na fronteira com Bangladesh - Fred Dufour / AFP


Reportagem da agência Reuters revela escala 'horrenda' de crimes cometidos pelo Exército em Mianmar (18.set.2018). 
            O relatório de equipe de investigadores da ONU revelou nesta terça-feira (18 set 2018) uma escala "horrenda" de assassinatos, estupros e tortura cometidos pelo Exército de Mianmar contra a minoria étnica muçulmana rohingya. O Exército de Mianmar, conhecido como Tatmadaw, cometeu "os mais graves crimes sob a lei internacional". 
Afirma a reportagem: “O texto de 440 páginas, cujo sumário foi apresentado em agosto, inclui relatos de mulheres amarradas pelos cabelos ou pelas mãos para serem estupradas; crianças que tentavam fugir de casas incendiadas mas foram forçadas a voltar para dentro; o uso difundido de tortura com varas de bambu, cigarros e cera quente; e minas terrestres colocadas nas rotas de fuga dos vilarejos atacados.” 
É necessário que as altas lideranças militares, entre elas o comandante-em-chefe Min Aung Hlaing, sejam processados por genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra.
O governo de Mianmar refutou o sumário na ocasião e disse que a comunidade internacional está fazendo "alegações falsas". O embaixador de Mianmar, Kyaw Moe Tun, rejeitou as conclusões da comissão por serem "unilaterais" e disse que o governo não reconhece sua autoridade.


Arthur Bispo do Rosário sempre



Manto da Apresentação


O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) tombou nesta quarta-feira o acervo de Arthur Bispo do Rosário. São 805 peças, estandartes, indumentárias, vitrines, fichários, móveis, objetos  elaborados em diversos materiais, como vidro, madeira, plástico, tecidos, linhas, botões, gesso, muitos recolhidos do lixo e da sucata.
A reportagem é de Paula Autran, Gilberto Porcidonio e Nelson Gobbi (19/09/2018) para O Globo. 
O tombamento inclui a cela em que Bispo do Rosário viveu e que mantém as suas intervenções. 
“O sergipano Arthur Bispo do Rosário Paes era natural de Japaratuba, no interior do estado, onde nasceu em 1909. Foi marinheiro e boxeador de 1926 a 1932, e empregado doméstico no bairro de Botafogo no fim da década de 30. De acordo com os registros, ele teve seu primeiro surto de esquizofrenia em 1938, quando peregrinou por igrejas do Centro se dizendo um messias. Foi fichado e preso pela polícia, tendo sido conduzido, primeiramente, ao antigo Hospício Pedro II, na Praia Vermelha. Após um mês, foi conduzido à Colônia Juliano Moreira, lugar que se confunde com a sua arte, onde permaneceu por mais de 50 anos como o "paciente 01662", até sua morte, em 1989.”
Foi neste período que ele começou a produzir suas peças, como mantos, bordados e tiras de tecidos pasteis em que escrevia frases, poemas e manifestos, tudo feito com o que encontrava no lixo e na sucata do complexo manicomial.
"Qual a cor da minha aura?" era a pergunta que dirigia aos visitantes das celas de que tomava conta e onde guardava suas obras. Um dos destaques é o Manto da Apresentação, peça bordada que ele dizia ser a sua vestimenta para o Juízo Final. 
Hoje, Bispo do Rosário é considerado um dos maiores expoentes da arte contemporânea brasileira e mundial. Após sua morte, teve sua primeira exposição individual, no Parque Lage, e peças expostas em São Paulo, Veneza, Lyon e no Victoria and Albert Museum, em Londres, entre outras cidades. 


quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Boa intenção


Morreu. Ao chegar às portas do céu com a capa do Batman, confundiram-no com o Capeta. Foi direto para o inferno.

Imprevidência


Ao sair de casa K. olhou para o céu, viu que iria chover, pegou guarda-chuva, que foi confundido com fuzil. Morreu com 3 tiros da polícia.