quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Ainda sobre o hífen



REFORMA ORTOGRÁFICA: Hífen - prefixação
O caso dos prefixos e falsos prefixos
Márcia Lígia Guidin*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
COM PREFIXOS OU FALSOS PREFIXOS
PREFIXOS
OU FALSOS
PREFIXOS
REGRAS
EXEMPLOS
OBSERVAÇÕES;
SAIBA MAIS 
Vogais iguais
1. Usa-se o hífen quando o prefixo e o segundo elemento juntam-se com amesma vogal.
anti-ibérico,
auto-organização,
contra-almirante,
infra-axilar,
micro-ondas,
neo-ortodoxo,
sobre-elevação,
anti-inflamatório.
Mas os prefixos coproprere se juntam ao segundo elemento, ainda que este inicie pelas vogais o ou ecoocupar, coorganizar, coautor, coirmão, cooperar, preenchimento, preexistir, preestabelecer, proeminente, propor reeducação, reeleição, reescrita
Vogais diferentes
2. Não se usa o hífen quando os elementos se unem com vogais diferentes.
autoescola, autoajuda, autoafirmação, semiaberto, semiárido, semiobscuridade, contraordem, contraindicação, extraoficial, neoexpressionista, intraocular, semiaberto, semiárido.
Consoantes iguais
3. Usa-se o hífen se a consoante do final do prefixo for igual à do início do segundo elemento. 
inter-racial,
super-revista,
hiper-raquítico,
sub-brigadeiro.
Se o segundo elemento começa com sr
4. Não há hífen quando o segundo elemento começa com s ou r; nesse caso, duplicam-se as consoantes. 
antirreligioso, minissaia, ultrassecreto, ultrassom. 
Porém, coforme a regra anterior, com prefixos hiper, inter, super, deve-se manter o hífen:
hiper-realista,
inter-racial,
super-racional,
super-resistente
Se o segundo elemento começa com hmn, ou com vogais
5. Usa-se o hífen: se o primeiro elemento, terminado em m ou n, unir-se com as vogais ou consoantes hm ou n.
circum-murado,
circum-navegação,
pan-hispânico,
pan-africano,
pan-americano.
Ex, sota, soto, vice
6. Usa-se hífen com os prefixos: exsotasotovice
ex-almirante,
ex-presidente,
sota-piloto,
soto-pôr,
vice-almirante,
vice-rei.
Escreva, porém, sobrepor
Pré, pós, pró 
7. Usa-se hífen com os prefixos pré, pós, pró (tônicos e acentuados com autonomia). 
pré-escolar,
pré-nupcial,
pós-graduação,
pós-tônico,
pós-cirúrgico,
pró-reitor,
pró-ativo,
pós-auricular.
Se os prefixos não forem autônomos, não haverá hífen: predeterminado, pressupor, pospor, propor.
O prefixo termina em vogalou r e b e o segundo elemento se inicia com h
8. Usa-se o hífen quando o prefixo termina em rb ou vogais e o segundo elemento começa com h.
anti-herói,
inter-hemisférico,
sub-humano,
anti-hemorrágico,
bio-histórico,
super-homem,
giga-hertz,
poli-hidratação,
geo-história.
A) Mas as grafias consagradas serão mantidas: reidratar, desumano, inábil, reabituar, reabilitar, reaver.
B) Se houver perda do som da vogal final, prefere-se não usar hífen e eliminar o hcloridrato (cloro+hidrato), clorídrico (cloro+hídrico). 
Sufixos de origem tupi
9. Usa-se o hífen com sufixo de origem tupi, quando a pronúncia exige distinção dos elementos.
Anajá-mirim,
Ceará-mirim,
capim-açu,
andá-açu,
amoré-guaçu.
Este quadro está apoiado nas obras:
BECHARA, Evanildo. O que muda com o Novo Acordo Ortográfico. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2008.
INSTITUTO ANTÔNIO HOUAISS. Escrevendo pela Nova Ortografia. Rio de Janeiro/São Paulo, Houaiss/Publifolha, 2008.
GOMES, Francisco Álvaro. O acordo ortográfico. Porto, Porto Editora, 2008.



Peixe-pedra

fotominimalismo




Foto: Paula Vianna, Austrália, 2017

Suzete e o hífen

Querida Suzete,

respondo suas cartinhas com grande prazer, mas dessa vez vou ser bastante específico. (Talvez só você leia esse texto, ninguém mais, tão árido e desinteressante. Talvez nem você...)
Você perguntou e respondo: por que mal-encarado tem hífen e malvestido não tem? 
Pedi socorro a Paula Perin dos Santos, que pretende descomplicar o uso do hífen. Achei interessante e reproduzo aqui. 

Regra Geral

A letra “H” é uma letra sem personalidade, sem som e, portanto, não deve aparecer encostado em prefixos:

pré-história   anti-higiênico   sub-hepático   super-homem

Letras IGUAIS, SEPARA. Letras DIFERENTES, JUNTA.

anti-inflamatório                             neoliberalismo
supra-auricular                               extraoficial
arqui-inimigo                                  semicírculo
sub-bibliotecário                             superintendente

Quanto ao "R" e o "S", se o prefixo terminar em vogal, a consoante deverá ser dobrada:

suprarrenal (supra+renal)   ultrassonografia (ultra+sonografia)
minissaia   antisséptico   contrarregra  megassaia

Entretanto, se o prefixo terminar em consoante, não se unem de jeito nenhum. 

sub-reino   ab-rogar  sob-roda

ATENÇÃO! Quando dois “R” ou “S” se encontrarem, permanece a regra geral: letras iguais, SEPARA. 

super-requintado   super-realista   inter-resistente

CONTINUAMOS A USAR O HÍFEN:

Depois dos prefixos “ex-, sota-, soto-, vice- e vizo-“:

ex-diretor   ex-hospedeira   sota-piloto soto-mestre   vice-presidente vizo-rei

Depois de “pós-, pré- e pró-“, quando TEM SOM FORTE E ACENTO:

pós-tônico, pré-escolar, pré-natal, pró-labore, pró-africano, pró-europeu, pós-graduação

Depois de "pan-", "circum-", quando juntos de vogais:

Pan-americano, circum-escola

OBS. “Circunferência” – é junto, pois está diante da consoante “F”.
NOTA: Veja como fica estranha a pronúncia se não usarmos o hífen:
Exesposa, sotapiloto, panamericano, vicesuplente, circumescola.

ATENÇÃO! Não se usa o hífen após os prefixos “CO-, RE-, PRE” (SEM ACENTO)

coordenar   reedição  preestabelecer   coordenação refazer   preexistir
coordenador   reescrever  prever   coobrigar    relembrar   cooperação  reutilização   cooperativa   reelaborar

O ideal para memorizar essas regras, lembre-se, é conhecer e usar pelo menos uma palavra de cada prefixo. Quando bater a dúvida numa palavra, compare-a à palavra que você já sabe e escreva-a duas vezes: numa você usa o hífen, na outra não. Qual a certa? Confie na sua memória! Uma delas vai te parecer mais familiar. 


RESUMO DA REGRA GERAL 

Letras iguais, separa com hífen(-).
Letras diferentes, junta.
O “H” não tem personalidade. Separa (-).
O “R” e o “S”, quando estão perto das vogais, são dobrados. Mas não se juntam com consoantes.

            Suzete, fui buscar em outra fonte a explicação do porque mal-entendido tem hífen:

Mal-entendido é uma palavra formada através de composição por justaposição, ou seja, ocorre a formação de uma nova palavra a partir da junção de duas ou mais palavras: mal + entendido. 
Assim, mal-entendido é palavra composta, mas as palavras mal e entendido mantêm sua autonomia, estando apenas justapostas. 
Segundo o Novo Acordo Ortográfico, o hífen é utilizado em palavras compostas com o advérbio mal quando a segunda palavra começa por vogal ou h: 

mal-entendido;
mal-educado;
mal-humorado;
mal-estar;

            Tudo entendido?
            Grande abraço,

                                   Andre.

            

Quem-dá e quem-come


A crônica de hoje de Luis Fernando Verissimo para O Estado de S.Paulo (6 Set 2018) intituladaAtivos e passivoscomeça de um jeito provocativo, para tratar de assunto sério e que ninguém quer ver.
Assinala Verissimo: “Para o homem latino tradicional, só existe homossexual passivo, o ativo é apenas um heterossexual que prefere homem. Essa mentalidade talvez explique a curiosa existência no Brasil, até pouco tempo, de corruptos sem corruptores.” 
Continua o grande cronista, agora botando o dedo na ferida: “Outra manifestação da doutrina homossexual-é-só-quem-dá é a guerra ao narcotráfico, que ainda não chegou ao grande mistério, ou o grande paradoxo brasileiro: um mercado de tóxicos que só tem fornecedor. Um mercado que só dá.”
Com palavras minhas: só há fornecedores – que se destacam cada vez mais, especialmente quando as forças armadas sobem o morro; os consumidores são todos fantasmas, que nunca aparecem na mídia. 
Alguns negros e pobres são colocados atrás das precárias grades; os brancos e ricos, os verdadeiros consumidores, ninguém sabe quem são. 
Conclui Verissimo: “Ninguém consome tóxicos no Brasil, e nem por isso o mercado deixa de crescer. ... Seria interessante ter, de vez em quando, uma visão do mercado consumidor brasileiro, do lado comprador, dos ricos. Não dos que estão nos morros, mas dos que mandam baixar. Só por curiosidade.”
 Seria interessante conhecer quem-come, e não apenas só-quem-dá...



terça-feira, 4 de setembro de 2018

Navegante

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Foto: AVianna, 2015.

Valor de um museu


Desde o Incêndio não consigo escrever uma linha sequer sobre a tragédia.
            Utilizo-me então de um artifício, eficiente mecanismo de defesa, volto no tempo, procuro na memória a emocionante experiência que vivi ao entrar em um museu, e que guardo comigo como relíquia – peça de museu.
            Aos 12 ou 13 anos, no ginásio, tomei conhecimento da existência da misteriosa Pedra da Roseta, aquela que permitiu o deciframento dos hieróglifos, a maravilhosa escrita dos egípcios. 
A pedra registra um decreto promulgado em nome do rei Ptolomeu V, inscrito em três parágrafos com o mesmo significado: o superior está na forma hieroglífica do egípcio antigo, o trecho do meio em demótico (variante do egípcio tardio), e o inferior em grego antigo. A comparação entre eles permitiu a compreensão dos hieróglifos por Jean-François Champollion em 1822.
Não é preciso dizer que o menino ficou fascinado pela pedra. Muitos anos depois, já adulto, entrei pela primeira vez no Museu Britânico, em Londres. De repente, olha a pedra alí, bem ao meu lado, ao alcance de minha mão. Disfarcei, dei-lhe um leve toque, sem que qualquer fiscal percebesse. (Hoje ela se encontra envolta numa redoma de acrílico, protegida de ingênuos e loucos.)


A emoção daquele momento é a relíquia que guardo comigo, e não há fogo que possa destruí-la. Haverá de perecer com minha morte, mas fica aqui registrada.

Fotoabstração N. 50







Foto: AVianna, jun 2018

Ruço em Petrópolis

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Foto: Regina, petropolitana, set 2018.

Clique para ampliar e ver os detalhes da foto.

Mulher com cerejas no chapéu

Meus quadros favoritos


Kees van Dongen (1905)

Festa de arromba!


Meu querido André,


escrevo novamente, antes mesmo que você me responda, e escrevo porque gosto, puro prazer, me acalma, me ajuda a organizar os pensamentos, e assim vou aprendendo a escrever, espero. (Na escola, o professor de português dizia que a gente não deve repetir palavras; bobagem, fica bonito, às vezes.)
            Desejo lhe contar história verídica que ouvi no salão, muito engraçada, que se bem contada você vai gostar. Ouço muita história no salão, você pode imaginar. Cidade pequena, os moradores adoram fazer fofoca em salões de beleza e barbearias, além do que minhas colegas de trabalho não fazem por menos, atiçam as freguesas, provocam, pedem detalhes, esticam o assunto quanto podem.
            Algumas são picantes demais, não tenho coragem de lhe contar, com medo que bote no blog. Outras são ingênuas, daí sua graça. A que vou lhe contar pertence a este último gênero.
            Naquela noite haveria uma grande festa de aniversário na cidade, em comemoração aos 70 anos de senhora de família tradicional, respeitadíssima, boníssima, lindíssima (três superlativos juntos também é demais!), trabalhadora, mãe de família exemplar, querida por todos. Unanimidade nacional, como Zeca Pagodinho. 
Desde a manhã o salão andava movimentado, todas querendo fazer o cabelo, maquiagem, unhas e o que mais houvesse para ser feito. Pois não é que também apareceram três homens, para cabelo, barba e bigode, que agora todos usam barba e bigode, até mesmo os que já não têm mais cabelo.  
            Ao final da tarde entra no salão o tipo de madame que chamo de empombada, metida a besta, se você me entende. Arrogante até a tampa. Foi logo alardeando que era parente próxima da aniversariante, praticamente uma irmã, e que vinha da Capital por especial convite. Sentou-se, a colega começou seu trabalho, e a senhora de quem não guardei o nome disparou um falatório raivoso, indignada com o tratamento que havia recebido no hotel onde se hospedara.
            – Merda de hotel! Há dois anos me hospedei lá e era bonzinho, simples mas limpinho. Agora, uma porcaria. Cheirando a mofo, quando abri o guarda-roupa quase caí de costas, o cobertor fedorento, o banheiro sujo, a tampa do vaso sanitário de plástico barato, papel higiênico transparente de tão fino, sabonete e xampu da pior qualidade, chuveiro com um pingo aqui e outro em Belo Horizonte, toalha de banho menor que a toalha de rosto lá de casa, uma porcaria. Chamei meu marido e disse, Amor, vamos embora desse pardieiro. Mas não havia outro hotel na cidade e o remédio foi ficar por lá. O que não tem remédio, remediado está, dizia minha avó.
            Como falasse alto, clientes e cabeleireiras, em silêncio, prestavam cuidadosa atenção àquela detalhada descrição do hotel, tido como bastante razoável pela população local, motivo até de orgulho para alguns. E a madame não parava de falar.
            – E tem mais! Quando chegamos à portaria, eu e meu marido fomos recebidos por sujeito mal-encarado, malvestido, que mal sabia falar, e que se identificou como Arcides, às suas ordens. Arcides! Vejam vocês, alguém que se apresenta como Arcides, que não sabe falar o próprio nome. Pode?
            (André, você que sabe das coisas, pode me explicar por que mal-encarado tem hífen e malvestido não tem?)
            E madame concluiu seus disparetes:
            – Para um hotelzinho de merda, um Arcides de porteiro!
            E madame riu, gostou de ouvir o chiste por ela fabricado, porém ninguém mais achou graça.
            O silêncio havia aumentado, agora podia-se ouvir uma mosca voando no salão. Minhas colegas estavam transparentes de tão brancas, lívidas, diria um escritor profissional, nenhuma delas tinha a coragem de balbuciar um a, e já explico o porque. 
            Foi então que a mulher da cadeira ao lado da madame arrancou o avental que lhe protegia a roupa, levantou-se desgrenhada num salto de pantera e bradou:
            – Pois fique a madama sabendo que Alllcides – esticando bem o ele – é meu marido, e é o dono do nosso hotel. E estou indo pra lá agorinha mesmo, vou pegar suas tralhas e rumar bem no meio da rua, lá a madama não fica nem mais um minuto, sua lambisgoia metida a besta, lambisgoia de merda. 
            E desembestou portafora como louca em direção ao hotel.
            Madame saiu bufando desnorteada, sem saber que rumo tomar, o penteado ainda por fazer. (Quis pedir um Uber, mas não havia Uber na cidade.)
            Fiquei sabendo no dia seguinte que madame e seu marido jogaram as roupas no porta-malas da Mercedes e escafederam-se. Perderam uma grande festa, regada a champanhe. Eu estava lá!
            Essa a historinha que desejava lhe contar, André, motivo de muito riso no salão, porque verdadeira, acredite ou não.
            Me escreva, querido.

Da sempre sua, 
                                   Suzete.