terça-feira, 28 de agosto de 2018

Canivetes de estimação

fotominimalismo





Foto: AVianna, ago 2019.

pencas de orquídeas




mais belas que em vasos
florescem pencas de orquídeas
livres no quintal


Foto: Mercêdes Fabiana, jun 2018, jardim.

Nú de Egon Schiele

Meus quadros favoritos



Egon Schiele

(Schiele é um dos pintores favoritos deste blogueiro. O quadro acima atesta mais uma vez o distanciamento entre a Arte e o Belo...)

Vermelho e amarelo sobre azul

fotominimalismo




Foto: AVianna, ago 2018.

Por que proteger os padres pedófilos?


Pela quarta vez este blog volta ao tema dos abusos sexuais cometidos por padres, desde o escândalo da Pensilvânia, nos Estados Unidos. Agora, trago a opinião de peso de umHélio Schwartsman, na crônica de hoje (28.ago.2018) para a Folha: Pedofilia assombra o Vaticano – Igreja protege padres mesmo quando eles agem em desacordo com os valores apregoados.
Schwartsman, como bom filósofo, faz logo duas boas perguntas: “por que parece haver tantos casos de pedofilia envolvendo clérigos católicos e por que a igreja os protegeu em vez de denunciá-los?” 
Ele mesmo responde: “A rigor, não sabemos se padres cometem mesmo mais abusos sexuais do que a população masculina em geral. Parece razoável, porém, afirmar que o celibato exigido dos sacerdotes é uma idiossincrasia católica que merece exame. O veto ao casamento constitui uma espécie de fachada perfeita para pedófilos, já que legitima e confere elevado status social à vida de solteiro e ainda proporciona a oportunidade de interagir com jovens numa posição de poder. Não por acaso, outras atividades que atraem pedófilos incluem as de professor, pediatra, técnico esportivo, chefe de escoteiros.”
 Pedofilia é doença, e a Igreja pouco pode fazer sobre isso. Porém, os repetidos esforços para acobertar os abusos, isso é inadmissível e é a razão da indignação deste blogueiro. Pedofilia também é crime, o que exige algum tipo de punição.
A conclusão de Schwartsman é clara e ao mesmo tempo preocupante. “O problema aqui é que a igreja, a exemplo de outras organizações complexas voltadas a propagar uma ideologia, investe tanto na formação dos padres, os vetores encarregados de transmitir os memes religiosos e zelar por sua pureza, que eles se tornam mais valiosos que os fiéis. [O grifo é meu.] Mesmo quando estão agindo em desacordo com os valores apregoados, a instituição os protege.”
Não seria este o momento adequado para que toda a sociedade, independentemente da religião, discutisse abertamente o problema dos abusos sexuais, na tentativa de, se não aboli-los, ao menos reduzir sua incidência, protegendo nossas crianças?




segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Histórias Afro-Atlânticas no MASP



O Instituto Tomie Ohtake e o MASP, duas importantes instituições culturais de São Paulo, juntam-se para criar a belíssima exposição “Histórias Afro-Atlânticas”. São curadores da mostra Adriano Pedrosa, Lilia Schwarcz, Ayrson Heráclito, Hélio Menezes e Tomás Toledo, gente da mais alta qualificação cultural.
            Estão expostas cerca de 400 obras de mais de 200 artistas, tanto do acervo do MASP, quanto de coleções brasileiras e internacionais, incluindo desenhos, pinturas, esculturas, filmes, vídeos, instalações e fotografias, além de documentos e publicações, de arte africana, europeia, latino e norte-americana, caribenha, entre outras. 
“Os empréstimos foram cedidos por algumas das principais coleções particulares, museus e instituições culturais do mundo. Entre elas, destacam-se: Metropolitan Museum, Nova York, J. Paul Getty Museum, Los Angeles, National Gallery of Art, Washington, Menil Collection, Houston, Galleria degli Uffizi, Florença, Musée du quai Branly, Paris, National Portrait Gallery, Londres, Victoria and Albert Museum, Londres, National Gallery of Denmark (SMK), Copenhague, Museo Nacional de Bellas Artes de La Habana e National Gallery of Jamaica.” (O que nos dá a dimensão artística da exposição!)
            A exposição é composta de núcleos temáticos: no Instituto Tomie Ohtake estão Emancipações; Ativismos e resistências; e no MASP, Mapas e margens; Cotidiana; Ritos e Ritmos; Retratos; Modernismos afro-atlânticos; Rotas e transes: Áfricas, Jamaica, Bahia. 
“Histórias afro-atlânticas busca, assim, oferecer um panorama das múltiplas histórias possíveis acerca das trocas bilaterais – culturais, simbólicas, artísticas, etc. – representadas em imagens vindas da África, da Europa, das Américas e do Caribe.” 
O Brasil é um território chave nessas histórias, pois recebeu cerca de 40% dos africanos que, “ao longo de mais de 300 anos, foram tirados de seus países para serem escravizados desse lado do Atlântico (número correspondente ao dobro dos portugueses que se estabeleceram no país para colonizá-lo).”  
Vale lembrar que o Brasil foi o último país a abolir a escravidão, em 1888, por meio da Lei Áurea, que completa 130 anos em maio deste ano.
Exposição belíssima (até 21 de outubro), imperdível mesmo! 




Amnésia

Flávio Cerqueira

(tinta látex sobre bronze, 2015)

Foto: AVianna, ago 2018, S.Paulo





Bólido lusitano




O fotógrafo conseguiu capturar, uma façanha, a passagem de um bólido lusitano pelas ruas de Lisboa!

Foto: Paulo Sergio Viana, ago 2018.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Homenagem a Otavio Frias Filho



Em 31 de dezembro de 2017, Otavio Frias Filho publicou interessante artigo na Folha, sob o título Mártires do estilo. Este blog volta ao assunto, também como homenagem ao grande jornalista e intelectual. 
Diz Otavio: “Vivemos numa época em que se escreve mais do que nunca. Quem, incluindo o autor destas linhas, não gostaria de melhorar sua capacidade de expressão escrita? No entanto, se as regras gramaticais estabelecem de modo inequívoco como escrever direito, não existem regras que assegurem como escrever bem.”  
            Em seguida ele cita três manuais para bem escrever: Tirando de Letra: Orientações Simples e Práticas Para Escrever Bem (Companhia das Letras), do casal Chico e Wilma Moura;  Como Escrever Bem - o Clássico Manual Americano da Escrita Jornalística e de Não Ficção (Três Estrelas), de William Zinsser; e o terceiro livro é Guia de Escrita - Como Conceber um Texto com Clareza, Precisão e Elegância (Contexto), de Steven Pinker.
Enfatiza Otavio: “Todos os esforços em favor da simplicidade despojada são bem-vindos num país como o nosso, onde ainda se cultiva uma escrita ornamental, feita mais para iludir do que expor e esclarecer. Não se trata apenas da prolixidade afetada própria do Judiciário ou da verborragia evasiva no ambiente parlamentar. 
Bulas, manuais de uso, documentos oficiais, instruções ao consumidor etc. são redigidos de maneira nebulosa, eufemística, quando não abstrusa, no hábito deliberado de evitar compromissos e eludir responsabilidades. Comunidades inteiras (urbanistas, pedagogos e psicólogos, por exemplo) tendem a escrever num dialeto infestado de ideias vagas e substantivos abstratos que traduzem pouco sentido objetivo.”  
Simplicidade despojada, eis o que recomenda o grande jornalista, falecido recentemente. (Frias Filho esqueceu-se de acrescentar os psicanalistas, em particular os chamados lacanianos, no rol dos prolixos.)
A partir deste conselho, o da simplicidade, digo que qualquer pessoa medianamente educada pode escrever; isso, no entanto, não acontece. Escrever tornou-se um tabu, as pessoas têm pavor de escrever, uma carta que seja. Dizem, Não sei escrever. Perdem a oportunidade de praticar algo muito simples, que chamo de terapêutico. 
Aqui vai minha dica para os que não têm o hábito de escrever constantemente: escreva hoje uma carta a um amigo, parente, pessoa a quem você estima. Vamos torcer para que ele responda...
                        



A menina Denny



Richard Roberts, Vladimir Ulianov e Maxim Kozlikin na gruta de Denisova,
onde foram achados os restos da jovem híbrida
Foto: IAET SB RAS, SERGEI ZELENSKY



A manchete do artigo de Daniel Mediavilla para El País de ontem 
(22 ago 2018)é espetacular:Achada a primeira filha fruto do sexo entre duas espécies humanas diferentes.
            Diz a reportagem: “Há mais de 50.000 anos, uma mulher neandertal e um homem denisovano fizeram sexo e alguns meses depois ela deu à luz uma menina. Muitos séculos mais tarde, numa gruta siberiana junto à cordilheira de Altai, foram encontrados os ossos que deixou aquela menina híbrida, que teria 13 anos ao morrer. Há quase uma década se sabe que os neandertais, denisovanos e humanos modernos tiveram descendência em algumas circunstâncias, mas nunca havia sido encontrado um filho de um casal misto.” 
Os genomas das duas espécies indicam que elas se separaram há mais de 390.000 anos. Entretanto, continuaram procriando em territórios de fronteiras comuns. Ocorreram relações ocasionais entre as espécies do gênero humano que compartilhavam o mundo há dezenas de milhares de anos. “O genoma de Denisova 11, ou Denny, como foi chamada a garota, mostra que a relação de seus progenitores não era o primeiro cruzamento entre espécies da sua família. O pai também tinha neandertais entre seus antepassados.” 
Sabe-se que os humanos modernos fizeram sexo com neandertais há pelo menos 100.000 anos, e hoje todos os habitantes do planeta, salvo os subsaarianos, têm em seu genoma DNA daquela espécie extinta. 
Afirma Mediavilla: “As incógnitas em torno daquela etapa da humanidade, quando os humanos ainda não tinham imposto sua lei e pelo menos três espécies tremendamente inteligentes compartilhavam planeta e fluxos, são abundantes.” 
“No entanto, trabalhos como o publicado nesta quarta são uma amostra de que a ciência pode abrir janelas inesperadas para o passado. Em 2006, o pesquisador Bruce Lahn, da Universidade de Chicago, propôs que neandertais e humanos tinham intercambiado genes há 40.000 anos.” 
Conforme contou então ao El País, as revistas Science Nature recusaram-se a publicar o trabalho porque consideravam que esse cruzamento era impossível. Em apenas uma década, aquela visão sobre o sexo no Pleistoceno e suas consequências ficou de pernas para o ar.”

Reside aí a beleza do chamado Pensamento Científico: a partir de fatos novos, a compreensão da vida se renova, às vezes muda completamente, dá uma cambalhota, para se renovar mais adiante. Embora necessária, é difícil tolerar a incerteza. Daí o aparecimento do Pensamento Religioso (nada contra a Religião), bem mais primitivo, onde as verdades são dogmáticas, imutáveis, baseadas exclusivamente em crenças, sem o amparo dos fatos.