terça-feira, 6 de março de 2018
segunda-feira, 5 de março de 2018
Primeira frase
Aqueles que escrevem, mesmo
que não se considerem escritores, embora o sejam, sabem do problema da primeira
frase. O tiro de partida, o princípio de uma história, se começa mal há de
terminar pior, teme aquele que escreve, e se tive bom começo há de se
desenvolver bem e terminar ainda melhor.
Há que se concentrar na primeira frase, uma espécie de
tudo-ou-nada para o início de um texto. Tanto que, para alguns, e não são poucos,
a história nem começa, travada empacada obstruída por algum enrosco na cabeça
do escritor, que impede a partida e não se desenvolve nunca. Perde-se no tempo
uma história. A frustração daquele que escreve então é monstruosa devastadora
deprimente.
Resolvi colecionar algumas primeiras frases, talvez como
estímulo aos que escrevem. Começo com
Luiz Ruffato, com o conto O dia em
que encontrei meu pai (página 45), do
livro A cidade dorme (Companhia das
Letras, 2018). http://loucoporcachorros.blogspot.com.br/2018/03/a-cidade-dorme.html
Eis a frase:
“Minha mãe não acreditou quando eu disse que
havia encontrado com meu pai.”
Sua simplicidade é notável, o narrador fala na
primeira pessoa. A história tem início com duas palavras-chave: “minha mãe”. Em
seguida, uma negativa forte: [ela] “não acreditou”.
Tem início a
descrição da relação entre filho e sua mãe, pois o filho conta alguma coisa – “quando
eu disse” – e a mão ouve, dá valor, leva em consideração; pode-se supor a
partir daí uma boa relação entre ambos, pois eles conversam.
O narrador, talvez um menino ainda, ou adolescente,
informa à mãe que “havia encontrado”, sugerindo tratar-se de um fato
extraordinário, improvável e imprevisto, o que leva às alturas a emoção contida
até então na frase, antes mesmo de seu término.
E esta introdução ao conto – a primeira frase – termina “com
meu pai”, o que completa o sentido de toda uma ideia. O narrador não disse que
encontrou o pai, mas sim “com” o pai. Houve um encontro de fato.
E por que a mãe
não teria acreditado? Que pai é esse? Onde esteve durante todo esse tempo a
ponto de tornar o encontro com o filho algo inacreditável? O que conversaram
durante tal encontro, se é que conversaram? Que suspense criado por uma única
frase!
Não desejo e nem é conveniente antecipar aqui o
desenrolar da história, mas posso afirmar que toda ela está contida nesta
primeira frase. A partir daí Ruffato desenvolve sua história magistralmente,
digna de figurar nas melhores antologias.
Resta uma questão a ser respondida, pelo menos na curiosa
mente deste blogueiro. Teria o autor de fato utilizado esta frase como ponto de
partida para o conto, ou ela surgiu ao final, a história já composta, durante a
edição tão necessária para o aprimoramento do texto? A menos que perguntemos para
o autor, nunca saberemos. De qualquer modo, a frase é ótima!
sábado, 3 de março de 2018
quinta-feira, 1 de março de 2018
A cidade dorme
Luiz Ruffato, autor do
monumental Inferno Provisório – “a
pentalogia dos anos 2000, um panorama literário sem igual da classe
trabalhadora brasileira”, (reeditado pela Companhia das Letras, 2016), lança agora
A
Cidade Dorme, seu primeiro livro de contos (também pela Companhia das
Letras).
São
vinte textos escritos ao longo dos últimos 15 anos, publicados em revistas,
sites diversos, contendo os temas preferidos do mineiro de Cataguases, as
relações familiares e sociais do brasileiro pobre ou remediado.
O
estilo de Ruffato vai da escrita comportada de 15 anos atrás, ligada à infância
interiorana, até escrita inventiva, originalíssima, ousada, presente, por
exemplo, no conto que dá nome ao livro, A
cidade dorme. Reproduzo aqui o primeiro parágrafo do conto:
“Xuxa
despertou, golpes de cassetete na cabeça no tronco nos membros, assustado o
grupo espalhou-se sacos de aniagem pendurados nos ombros Ai ai caralho! Que
isso porra?! O Zé imaginou interpor-se ao peeme, latiu preventivo, um coturno
arremessou-o contra as grades do parque “
Bem diferente do primeiro parágrafo
do conto que abre o livro, Minha vida:
“Agora
tem um ano que mudamos para a nossa casa no Paraíso. Ela não está pronta ainda.
Falta emboçar as paredes de fora e pintar as de dentro, mas, orgulhoso, meu pai
fala que pelo menos não precisamos mais ter medo de ficar sem dinheiro no fim
do mês para pagar o aluguel.”
Interessante observar tais mudanças
de estilo; mais interessante ainda é constatar a progressiva liberdade do autor
para infringir “regras” de escrita. (Algum crítico pedante haverá de dizer que o livro é irregular...)
Não posso deixar de dar destaque à
capa do livro, belíssima espetacular sensacional, de autoria de Kiko Farcas e
Felipe Sabatini, inspirada em foto de Cristiano Mascaro.
O livro é bom, mas deve ser difícil
escrever algo muito bom! depois do Inferno provisório.
quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018
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