terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Miniconto surrealista

“O corpo de Cristo está em falta na Venezuela. Às vezes, o sangue também. Com a escassez de alimentos, padres têm tido cada vez mais dificuldade de dispor de hóstias e vinho para a Eucaristia nas missas do país, onde 96% da população é católica.” 

A notícia saiu no Estadão de hoje (27 Fev 2018), em reportagem de Luiz Raatz, e mais parece um miniconto surrealista. Ou um duplomicroconto, com menos de 280 toques.







Recomeça mal o JB



“É estranho a imprensa chegar antes da PF”, diz Jaques Wagner.”
Esta foi a manchete exibida pelo Jornal do Brasil de hoje (27 fev 2018), diante do mandado de busca e apreensão da Operação Cartão Vermelho.
Continua o jornal: “o ex-governador da Bahia e ex-ministro dos governos Lula e Dilma, Jaques Wagner, criticou a ação da Polícia Federal”.
“Em tese a ação preparada pela PF deveria ser sigilosa, mas como tem acontecido há vazamentos e a polícia chega depois do próprio órgão de imprensa”, criticou, acrescentando que o inquérito existe desde 2013 e que ele já havia sido chamado para prestar testemunho.”
"A própria delegada afirma que eu fui e colaborei e de repente vem uma ação de busca e apreensão totalmente desnecessária. Infelizmente, estão desvirtuando e politizando essas ações numa tentativa clara de criminalizar e destruir as lideranças do PT”, lamentou o ex-governador.”

Bem, a reportagem nada fala sobre o mérito do mandado de busca e apreensão. Apenas transmite a queixa do senhor Jaques Wagner, dando a entender que se está cometendo uma injustiça. O viés político-partidário é escandaloso.
Recomeça mal o JB.



pedaço de céu




minha casa
meu jardim
pedaço de céu


Foto: AVianna, fev 2018

flor da pitaia

Ao amigo Sergio Pripas




a flor da pitaia
exótica e inesperada
olha para o céu


Foto: AVianna, fev 2018, jardim

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

A volta do JB



O Jornal do Brasil, ou simplesmente JB, leitura obrigatória nos meus tempos de Rio de Janeiro, voltou ontem, despertando recônditas lembranças. Registro-as aqui, para que minhas filhas e neta inteirem-se do que costumo chamar de Romance Familiar.
A família mudou-se para o Rio ao final de 1963, o pai, a mãe e três filhos caipiras, vindos de Guaratinguetá, interior de São Paulo. (Em Guará vivi ótima infância e adolescência, que teria sido perfeita não fosse o carregado ambiente familiar a gerar tensões permanentes e, por fim, graves consequências. O pai lia o JB, a mãe preferia O Globo: até nisso discordavam.)
Eu e meu irmão mais novo desejávamos fazer Medicina, e este foi o pretexto arrolado pela mãe para a mudança de toda a família, já que seria muito dispendioso manter dois filhos morando na cidade grande. A filha caçula ainda não apitava, pois ainda faria o curso secundário. Na verdade, a mãe desejava fortemente mudar-se para a capital, deixando para trás aquilo que para ela significava o medíocre ramerrão interiorano.
Nossa primeira parada foi na Tijuca, à Rua Antônio Basílio, próximo à Praça Saens Peña, num sobradinho apertado onde mal cabiam os móveis trazidos do interior. Lembro-me bem do minúsculo quartinho dos fundos, onde estudei por um ano para prestar o vestibular, melhor dizendo, os vestibulares, pois cada faculdade aplicava suas próprias provas, verdadeira maratona. Além do terceiro ano científico em escola pública, à noite, a uma caminhada de quase uma hora de nossa casa à escola próxima do Maracanã, acompanhado de meu irmão, frequentava também do cursinho São Salvador, no centro da cidade, na famosa Rua México. Por tantas razões, ano difícil o de 1964!
A segunda parada foi no charmoso bairro de Laranjeiras, à igualmente charmosa Rua General Glicério. As janelas do apartamento abriam-se para os fundos da Igreja de Santa Cecília, junto a um morro coberto de exuberante vegetação. Foi um avanço social considerável, empreendido por nossa mãe, sempre inquieta e desejando melhorar de vida, embora o provedor fosse o esforçado funcionário do Banco do Brasil.
Já na Faculdade de Medicina, fiz o primeiro ano aguardando a chegada do irmão, que veio em seguida. Bem mais inteligente do que eu, passou no vestibular sem dificuldade. (Engraçado, à época, nossa convivência não era tão intensa como hoje. Aliás, nossa convivência nunca foi tão intensa como hoje!) Continuaram difíceis os anos seguintes, especialmente pela falta absoluta de dinheiro. Eu e o irmão raramente dispúnhamos de 1 Cruzeiro para comprar uma caneca de arroz doce no meio da manhã, na lanchonete do hospital (Pedro Ernesto, de saudosa memória).
No entanto, a mãe continuou a saga pela ascensão social, e a terceira parada foi nada mais nada menos na glamorosa Ipanema, à Rua Montenegro, hoje Vinícius de Moraes. (Eu estava lá no dia da troca das placas e presenciei a briga entre duas viúvas de Vinícius!)
No início de 1971, já formado, aos 24 anos, casei e deixei a casa de meus pais. O hábito da leitura dominical do JB permaneceu. O Suplemento Literário era o ponto alto do jornal, que semanalmente publicava crônica ou poema de Carlos Drummond de Andrade. A vida estava apenas começando.
De qualquer modo, saúdo a volta do JB!

O JB voltou!

A foto do dia


Primeira Página da edição de ontem