terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Recomeça mal o JB



“É estranho a imprensa chegar antes da PF”, diz Jaques Wagner.”
Esta foi a manchete exibida pelo Jornal do Brasil de hoje (27 fev 2018), diante do mandado de busca e apreensão da Operação Cartão Vermelho.
Continua o jornal: “o ex-governador da Bahia e ex-ministro dos governos Lula e Dilma, Jaques Wagner, criticou a ação da Polícia Federal”.
“Em tese a ação preparada pela PF deveria ser sigilosa, mas como tem acontecido há vazamentos e a polícia chega depois do próprio órgão de imprensa”, criticou, acrescentando que o inquérito existe desde 2013 e que ele já havia sido chamado para prestar testemunho.”
"A própria delegada afirma que eu fui e colaborei e de repente vem uma ação de busca e apreensão totalmente desnecessária. Infelizmente, estão desvirtuando e politizando essas ações numa tentativa clara de criminalizar e destruir as lideranças do PT”, lamentou o ex-governador.”

Bem, a reportagem nada fala sobre o mérito do mandado de busca e apreensão. Apenas transmite a queixa do senhor Jaques Wagner, dando a entender que se está cometendo uma injustiça. O viés político-partidário é escandaloso.
Recomeça mal o JB.



pedaço de céu




minha casa
meu jardim
pedaço de céu


Foto: AVianna, fev 2018

flor da pitaia

Ao amigo Sergio Pripas




a flor da pitaia
exótica e inesperada
olha para o céu


Foto: AVianna, fev 2018, jardim

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

A volta do JB



O Jornal do Brasil, ou simplesmente JB, leitura obrigatória nos meus tempos de Rio de Janeiro, voltou ontem, despertando recônditas lembranças. Registro-as aqui, para que minhas filhas e neta inteirem-se do que costumo chamar de Romance Familiar.
A família mudou-se para o Rio ao final de 1963, o pai, a mãe e três filhos caipiras, vindos de Guaratinguetá, interior de São Paulo. (Em Guará vivi ótima infância e adolescência, que teria sido perfeita não fosse o carregado ambiente familiar a gerar tensões permanentes e, por fim, graves consequências. O pai lia o JB, a mãe preferia O Globo: até nisso discordavam.)
Eu e meu irmão mais novo desejávamos fazer Medicina, e este foi o pretexto arrolado pela mãe para a mudança de toda a família, já que seria muito dispendioso manter dois filhos morando na cidade grande. A filha caçula ainda não apitava, pois ainda faria o curso secundário. Na verdade, a mãe desejava fortemente mudar-se para a capital, deixando para trás aquilo que para ela significava o medíocre ramerrão interiorano.
Nossa primeira parada foi na Tijuca, à Rua Antônio Basílio, próximo à Praça Saens Peña, num sobradinho apertado onde mal cabiam os móveis trazidos do interior. Lembro-me bem do minúsculo quartinho dos fundos, onde estudei por um ano para prestar o vestibular, melhor dizendo, os vestibulares, pois cada faculdade aplicava suas próprias provas, verdadeira maratona. Além do terceiro ano científico em escola pública, à noite, a uma caminhada de quase uma hora de nossa casa à escola próxima do Maracanã, acompanhado de meu irmão, frequentava também do cursinho São Salvador, no centro da cidade, na famosa Rua México. Por tantas razões, ano difícil o de 1964!
A segunda parada foi no charmoso bairro de Laranjeiras, à igualmente charmosa Rua General Glicério. As janelas do apartamento abriam-se para os fundos da Igreja de Santa Cecília, junto a um morro coberto de exuberante vegetação. Foi um avanço social considerável, empreendido por nossa mãe, sempre inquieta e desejando melhorar de vida, embora o provedor fosse o esforçado funcionário do Banco do Brasil.
Já na Faculdade de Medicina, fiz o primeiro ano aguardando a chegada do irmão, que veio em seguida. Bem mais inteligente do que eu, passou no vestibular sem dificuldade. (Engraçado, à época, nossa convivência não era tão intensa como hoje. Aliás, nossa convivência nunca foi tão intensa como hoje!) Continuaram difíceis os anos seguintes, especialmente pela falta absoluta de dinheiro. Eu e o irmão raramente dispúnhamos de 1 Cruzeiro para comprar uma caneca de arroz doce no meio da manhã, na lanchonete do hospital (Pedro Ernesto, de saudosa memória).
No entanto, a mãe continuou a saga pela ascensão social, e a terceira parada foi nada mais nada menos na glamorosa Ipanema, à Rua Montenegro, hoje Vinícius de Moraes. (Eu estava lá no dia da troca das placas e presenciei a briga entre duas viúvas de Vinícius!)
No início de 1971, já formado, aos 24 anos, casei e deixei a casa de meus pais. O hábito da leitura dominical do JB permaneceu. O Suplemento Literário era o ponto alto do jornal, que semanalmente publicava crônica ou poema de Carlos Drummond de Andrade. A vida estava apenas começando.
De qualquer modo, saúdo a volta do JB!

O JB voltou!

A foto do dia


Primeira Página da edição de ontem

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Mania de livro




Gosto do jeito de escrever da Ruth Manus, cronista aos domingos em O Estado de S.Paulo. Ela fala da vida cotidiana, de coisas simples, até com certa intimidade – seus familiares frequentemente visitam a crônica – e sempre de bom humor.
O texto de hoje intitula-se As pessoas e seus livros (25 Fev 2018), e trata de assunto que este blogueiro venera, o livro.
Ruth relata episódio vivido com o próprio pai, provavelmente um austero professor:
“Ele se aproximou lentamente, como quem estica o pescoço assustado para observar uma vítima de acidente ou um animal selvagem, e me perguntou o que eu estava fazendo. “Estudando”, eu respondi, um pouco desconcertada com a existência de dúvida perante uma cena tão autoexplicativa. Então ele disse aos solavancos com os olhos arregalados “VO. CÊ. ES. TÁ. GRI. FAN. DO. O. LI. VRO. COM. CA. NE. TA?”. Eu, cada vez mais desnorteada, respondi que sim, estava grifando com marca texto laranja e fazendo anotações com a caneta azul, afinal, o livro era meu, não era da biblioteca. Certo?”

            Esta era a deixa que eu precisava para falar de minhas idiossincrasias livrescas, a começar por esta de marcar frases com caneta. QUE HORROR! Isso não se faz, Ruth! Para isso existem os lápis – um dois três seis nove é sempre lápis. Eu grifo a linha, se é todo um parágrafo faço uma “chave” para destacá-lo, vou à primeira página do volume (que geralmente traz apenas o nome do livro) e assinalo o início do texto e a respectiva página; assim, torna-se fácil re-encontrá-lo.
            Tive um amigo (é sempre triste para mim escrever estas três palavrinhas) que, prevendo anotações abundantes, como as que fazemos num livro sobre Filosofia, comprava logo dois volumes da mesma obra; a um deles, o que receberia anotações, dava o nome de Volume de Trabalho. Eu achava aquilo muito bonito...
            Com este mesmo amigo aprendi que, quando alguém me pede um livro emprestado, vou logo dizendo Pode ficar com ele, O livro é seu, É um presente meu, para poucos dias depois ir à livraria e comprar um volume novinho em folha (bem apropriada esta expressão!) só para mim.
            A tia da Ruth compra o livro, lê e doa, e ela acha aquilo a coisa mais linda do mundo, mas não é capaz de fazê-lo. NEM EU. Ao contrário, tenho o hábito de comprar determinado livro, levá-lo para casa com carinho, colocá-lo na estante, até que surja o dia em que me lembro dele pela mais variada razão, às vezes uma citação em um livro qualquer; então vou à estante com prazer indizível – EU TENHO ESTE LIVRO – e inicio sua leitura.
            Durante muitos anos namorei os Sermões do padre António Vieira, em 5 volumes de capa dura azul escuro, letras douradas na lombada, da Lello & Irmãos Editores, Porto, Portugal, sem que pudesse adquiri-los por serem caríssimos. Mas o dia da extravagância chegou! (Acontece que eu já possuía uma boa edição dos Sermões, brochura comentada por gente competente, mas aquela coleção da Lello... Há quem chame isso de neurose. Eu chamo de neurose boa.)
            Como Ruth, também tenho horror do péssimo hábito de dobrar a pontinha da página para marcar a interrupção da leitura. Aquela marca torna-se indelével, verdadeira cicatriz (dolorida) no papel. Do mesmo modo, não tolero marcar esta interrupção com a orelha do livro, que passa a deformar-se, perdendo o vinco ou dobradura natural.
            Pior mesmo, verdadeiro CRIME, o mais grave de todos, é dobrar o livro, para segurá-lo com uma das mãos. Trata-se de grosseria imperdoável, coisa de quem não merece o nome de leitor. (Se o volume não é costurado, ele vai se desmanchar com a primeira dobrada.)
            Ah!, falta dizer que adoro apreciar as capas! Há as belíssimas e as horrorosas. Como já produzi 4 delas, publicadas, considero-me imodestamente um capista! Trata-se de uma arte. Nos primórdios, as capas não traziam figuras, desenhos, imagens; apresentavam-se lisas, brancas ou amareladas, contendo apenas o título do livro, o autor e a editora. No máximo, uma vinheta. Então surgiram as capas ilustradas, coloridas, chamariz para futuros leitores.
            Eu podia passar o domingo falando de livros, mas há um belo sol lá fora: vou levar comigo um livrinho...