quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Antevisão 2



          Ao perceber a premonição da fisioterapeuta, ele consultou uma cartomante. Esta previu sua morte.




Para ler Antevisão:



Mais intolerância


Fernando Baril



O prefeito do Rio Marcelo Crivella prometeu que não permitiria o Queermuseu na cidade. E cumpriu.    

Mantiqueira, Kant e o Carrossel Holandês



A ótima reportagem é de Breiller Pires, para El País (30 Set 2017): A ascensão do Manthiqueira, o time que se inspira em Kant e no Carrossel Holandês.
            O clube de Guaratinguetá quase fechou as portas no ano passado, com dívidas de mais de 1 milhão de reais. Recuperou-se, ao deixar a última divisão do campeonato paulista, com a vitória sobre o União Mogi nas semifinais. Na final da quarta divisão o Manthiqueira derrotou o São Bernardo por 2 a 1, e subiu para a terceirona.
O troféu, para Dado – Geraldo Márgelo de Oliveira, 56 –,  é algo secundário. Ele quer que seu clube seja visto como um exemplo. “Nossa missão é levar uma mensagem de otimismo e igualdade ao mundo”, afirma o presidente. “Não quero que façam com os outros o que não gostaria que fizessem comigo. Meu maior orgulho é ter alcançado a vitória sem nunca precisar de um gol de mão ou jogada irregular. Assim como na vida, é possível vencer com ética no futebol.”
Relata Breiller Pires: “O clube se inspira na lendária Laranja Mecânica, a seleção da Holanda que encantou o mundo na Copa de 1974. O escudo do time homenageia Rinus Michels, o revolucionário treinador do Carrossel Holandês, e o uniforme laranja não é por acaso.
Outra inspiração de Dado são os princípios éticos pregados pelo filósofo Immanuel Kant. No clube, uma enorme cartilha lista a primeira regra: Malandragem proibida. O Manthiqueira preza o jogo limpo. Não admite simulação de faltas para enganar o juiz. Prega mudança de postura, a começar no campo de futebol, na luta contra a corrupção. Os jogadores meditam em silêncio durante dois minutos antes de entrar em campo, e respeitam todas as religiões.
Ao longo de cinco anos o Manthiqueira foi treinado por uma mulher, Nilmara Alves, que só deixou o cargo porque foi aprovada em um concurso público em outra cidade. Afirma Dado: “Ela deixou um grande legado no Manthiqueira e segue nos ajudando como consultora. Nossa boa campanha este ano tem o dedo dela.”
            Proclama Dado, fundador e presidente do clube: “O Manthiqueira é mais que um time de futebol. É uma filosofia de vida”.
            Enfim, um belo exemplo para todos nós, especialmente para nossos políticos.

Foto: Leandro Oliveira / Divulgação



terça-feira, 3 de outubro de 2017

Litogravura e vitrais de Chagall em Jerusalém


           Este blogueiro foi presenteado com esta belíssima litogravura de autoria de Marc Chagall. O tema foi utilizado para compor os vitrais da sinagoga do Hadassah Medical Center, em Jerusalém.




Marc Chagall, em 1959, recebe encomenda especial, a de desenhar os vitrais da sinagoga do Hadassah Medical Center, em Jerusalém, cada um deles representando uma das doze tribos de Israel. A antiga tradição judaica proíbe o uso de imagens humanas; assim Chagall precisou utilizar-se de símbolos para retratar o caráter de cada tribo. A luz que passa pelos vitrais provoca uma explosão de cores, o que inevitavelmente emociona o expectador.
O próprio site do Hadassah Medical Center assim descreve esta incrível obra de arte:



 "Os pisos de pedra e as paredes da Sinagoga de Jerusalém absorvem essa beleza e a refletem. Simplesmente por estar  dentro do quadrado simples que forma o pedestal para as janelas, olhando para a imagens vívidas, os símbolos  judaicos, os números flutuantes de animais, peixes e flores, até mesmo o espectador mais casual é oprimido por seu  poder e presença.
  Cada painel é um microcosmo do mundo de Chagall, real e imaginário; de seu amor por seu povo, o seu profundo  sentimento de identificação com a história judaica, a sua vida no início do Shtetl russo.
 "Todo o tempo em que eu estava trabalhando, eu senti a minha mãe e meu pai olhando por cima do meu ombro, e  atrás deles haviam judeus, milhões de outros judeus desaparecidos - de ontem e de mil anos atrás", disse Chagall.
  A Bíblia era a sua principal fonte de inspiração, em particular as bênçãos de Jacó sobre seus doze filhos e bênçãos de  Moisés sobre as doze tribos. Cada janela é dominado por uma cor específica e contém uma citação das bênçãos  individuais.
  Chagall e seu assistente, Charles Marq, trabalharam no projeto por dois anos, durante os quais Marq desenvolveu um  processo especial para aplicar a cor ao vidro. Isto permitiu Chagall usar até três cores em um único painel, em vez de  ser confinado à técnica tradicional de separar cada painel pintado por uma tira de chumbo.
 A sinagoga foi dedicada na presença do artista em 06 de fevereiro de 1962, como parte da Celebração do Aniversário  de Ouro do Hadassah."

            Marc Chagall (1887-1985) nasceu em Vitebsk, Rússia, estudou em São Petersburgo e depois em Paris, tendo a França como sua pátria adotiva.

O leitor pode ver as imagens dos 12 vitrais que representam as 12 tribos de Israel no site abaixo:




segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Suzete precisa desabafar


Meu querido André,

antes que você responda a minha cartinha, apresso-me em comunicar que Doutor T. já era. O verbo no passado não significa que o sujeito morreu; morreu para mim.
            Resumo: um chato.
            Não havia informado a você, André, o doutor é dermatologista, o tempo todo falando de doenças e doentes, me mostrando fotografias, que tira no celular, de feridas, tumores, úlceras, pus, larvas, tudo quanto é pereba que você possa imaginar, cada coisa mais feia que a outra e ele dizendo que é lindo, eu com vontade de vomitar. Acaba o jantar e lá vem ele com sua coleção de aberrações, eu me esforçando para ser educada. Até que um dia ele chegou em casa com umas casquinhas de ferida debaixo da unha do indicador direito! Aí vomitei mesmo. E nunca mais peguei na mão dele do mesmo jeito.
            Tudo piorou com o sonho que eu tive. Sonhei que crescia um tumor horrível dentro do meu olho direito, cheio de larvas, que doía muito e sangrava e o sangue escorria pelo canto do olho trazendo larvinhas azuis e brilhantes como a luz do césio, e que penetravam por pequeno orifício no meu travesseiro, que já estava repleto de larvinhas azuis, eu com a cabeça pousada naquele saco de larvas e sentia que elas se mexiam dentro do travesseiro, até que acordei com meu próprio grito, suando frio, horrorizada. Percebi então que tinha estado, durante o sonho, com o olho direito afundado no travesseiro, comprimido e doendo. Será esta a origem do sonho, André? Li sobre isso em A interpretação dos sonhos, de Freud, que você me indicou como um dos melhores livros de todos os tempos (e é mesmo!). Mas as histórias de T. sobre feridas e tumores também têm culpa no cartório, ah isso têm.
            Tinha outra coisa, ele gosta do Paulo Coelho. Pode? De repente, lá vinha ele com uma citação do carinha, cheia de moralismos, magias, superstições, crendices, asneiras e mais asneiras, tudo com a respectiva referência bibliográfica. Pode? Aí eu também tinha vontade de vomitar.
            Fui aguentando, André, fui aguentando, até que ele começou a se implicar com meu gosto por cortar cabelo de homem. No começo eram insinuações veladas, um trelelê de quem comia e não gostava, meias palavras, Coisa mais estranha, dizia ele, você gostar de cortar cabelo de marmanjo.
Não sei se era ciúme, nunca fiquei sabendo, mas as lembranças do Afonso me tiravam o sono. Lembra-se do Afonso? (É mesmo!, o Folhetim está no blog, contando a história toda!) Depois T. começou a ficar agressivo, me diminuía por qualquer motivo, Coisa mais desprezível, jogava na minha cara, Pára com isso porque assim você me envergonha!
            Aí foi demais, mandei ele para a puta que o pariu.
            Será que tenho dedo-podre para escolher homem, André? Você acredita nisso de dedo-podre? Eu acredito. Qualquer dia escrevo uma cartinha sobre esta minha teoria.
            Era isso que eu queria lhe dizer, antes que você me perguntasse pelo Doutor T.. Pois morreu.
            Grande abraço, e agora me responda logo, pois não tenho mais desgraças para lhe adiantar.

            Da sempre sua,
                                                                        Suzete.