quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Tubarão leopardo






Foto: Paula Vianna, Grande barreira de corais, Austrália, ago 2017.




Retrocesso ambiental

A foto do dia



Foto: El Confidencial



Tua Cantiga



Tua Cantiga é o novo single com letra de Chico Buarque e melodia do pianista Cristóvão Bastos, canção que integra o álbum Caravanas, que será lançado brevemente.
Vale a pena ouvi-la:


Também vale a pena prestar atenção no belíssimo verso, que por si só justifica a postagem neste blogue. Na voz do Chico ele ganha sonoridade especial (esta a diferença entre letra e poesia).

Deixa cair um lenço
Que eu te alcanço
Em qualquer lugar

Eis toda a letra de Tua Cantiga. Fique sabendo o leitor que a patrulha ideológica já se manifestou...


Quando te der saudade de mim
Quando tua garganta apertar
Basta dar um suspiro
Que eu vou ligeiro
Te consolar

Se o teu vigia se alvoroçar
E estrada afora te conduzir
Basta soprar meu nome
Com teu perfume
Pra me atrair

Se as tuas noites não têm mais fim
Se um desalmado te faz chorar
Deixa cair um lenço
Que eu te alcanço
Em qualquer lugar

Quando teu coração suplicar
Ou quando teu capricho exigir
Largo mulher e filhos
E de joelhos
Vou te seguir

Na nossa casa
Serás rainha
Serás cruel, talvez
Vais fazer manha
Me aperrear
E eu, sempre mais feliz

Silentemente
Vou te deitar
Na cama que arrumei
Pisando em plumas
Toda manhã
Eu te despertarei

Quando te der saudade de mim
Quando tua garganta apertar
Basta dar um suspiro
Que eu vou ligeiro
Te consolar

Se o teu vigia se alvoroçar
E estrada afora te conduzir
Basta soprar meu nome
Com teu perfume
Pra me atrair

Entre suspiros
Pode outro nome
Dos lábios te escapar
Terei ciúme
Até de mim
No espelho a te abraçar

Mas teu amante
Sempre serei
Mais do que hoje sou
Ou estas rimas
Não escrevi
Nem ninguém nunca amou

Se as tuas noites não têm mais fim
Se um desalmado te faz chorar
Deixa cair um lenço
Que eu te alcanço
Em qualquer lugar

E quando o nosso tempo passar
Quando eu não estiver mais aqui
Lembra-te, minha nega
Desta cantiga
Que fiz pra ti



segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Além das palavras



O cinema ocupa cada vez mais lugar de destaque em nossa cultura, tanto pelos temas que aborda como pelo desenvolvimento de novas técnicas de filmagem, merecendo definitivamente ocupar o panteão das artes.
Tenho visto filmes ruins, alguns regulares, bons filmes em menor número, e poucos filmes que não nos deixam em paz, martelam em nossa cabeça como que a exigir interpretações variadas, a exigir crítica aprofundada, incluindo a observação de aspectos novos de técnica cinematográfica, um inferno! Talvez o que esses filmes peçam é que continuemos a pensar sobre eles, que conversemos sobre eles, e quando possível, escrevamos sobre eles.
Reluto, pois estou longe de ser um crítico de cinema. Porém, diante da martelação, melhor registrar a ocorrência mesmo que com singeleza: escrevo sobre Além das Palavras, do diretor Terence Davies, lançado em abril de 2017, com o título original de A quiet passion. (Ambos os títulos me parecem bem apropriados, com pequeno ganho para a construção em língua portuguesa.)
O filme conta a trajetória de Emily Dickinson (estrelada de forma magistral por Cynthia Nixon), a grande poeta americana, desde sua juventude até a morte. Ela nasceu em Amherst, Massachusetts, em 1830, saindo poucas vezes de sua cidade natal, onde faleceu em 1886, com 55 anos. Vivendo enclausurada em sua casa e presa ao conservadorismo religioso dos Estados Unidos do século XIX, Dickinson produziu uma poesia moderna, com liberdade sintática próxima do uso oral da língua, desprezando fórmulas convencionais.
O filme expressa essa vida reclusa da poeta por três características marcantes. A primeira delas é o ritmo das cenas, lentíssimas; a câmera movendo-se no teatro, do palco para o camarote e de volta ao palco, é antológica; até as carruagens quando partem, o fazem vagarosamente, como se os cavalos vivessem mesmo naquela velocidade; os passeios pelo jardim encantador, a propósito de íntimas conversas, são a passos vagarosos; as cenas  de contemplação, nem é preciso dizer, muito lentas. O recitar pausado de seus poemas completa e enfatiza esse aspecto.
A segunda característica é a repetição de certas atitudes dos atores, sempre as mesmas; Emily, depois de pedir permissão ao pai, acordava sempre de madrugada, lápis e papel na mão, sentava-se na sala e compunha seus poemas, na “melhor hora do dia”, segundo ela; e gostava de explicar, a quem quer que fosse, que aquela era a melhor hora do dia.


A terceira e mais impressionante característica é de ordem técnica: desde as primeiras cenas o diretor coloca o ator na contraluz; há sempre uma porta ou janela por trás do ator, a irradiar claríssima e intensa luz, a exigir iluminação complementar frontal, ou veríamos apenas silhuetas; a combinação desses dois tipos de iluminação oferece ao expectador visão estética única, em meu ponto de vista.
A lentidão, a repetição das ações, a luz (vida) presente lá fora, oferecem a visão perfeita do que foi a vida de Emily Dickinson. Um grande filme, portanto. Quanto a poesia de Dickinson, para mim este é um outro problema que fica para uma próxima crônica.

O convite

A foto do dia



Foto: Sarah Pripas, jul 2017, São Carlos.

Aldravia n. 64

Ao meu irmão Paulo



na
luz
fria
da
manhã
bem-te-vi



Foto: A.Vianna, ago 2017, jardim

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

tartaruga




navega em silêncio
em contraste o fundo azul
na calma do mar


Foto: Paula Vianna, Austrália, jul 2017.

Não-sonhos


                O tema é momentoso, tanto que foi motivo da crônica de Hélio Schwartsman na Folha de hoje (11/08/2017), com o espalhafatoso título Epidemia mortal.
            Trata-se da gravíssima epidemia de abuso de opioides nos Estados Unidos. Em 2015 o país registrou 52,4 mil óbitos por overdose, dos quais 33.090 tiveram como agente causador opioides legais ou ilegais.
    Os números assustam quando é feita a comparação com mortes no trânsito (35 mil) e por armas de fogo (13,2 mil). A estimativa para 2016 é de um aumento de 19%.
A atual epidemia tem início nos anos 90, quando os médicos americanos começaram a prescrever opioides (drogas inteiramente sintéticas, o que as diferencia dos opiáceos) para reduzir todo tipo de dor, o que foi um sucesso. Porém, a oxicodona e a hidrocodona não eram seguras e geraram grande número de dependentes.
            Interrompo aqui a linha de pensamentos expressos na crônica de Schwartsman e passo a relatar experiência pessoal que acabo de vivenciar, com reflexões que condizem com o tema tratado pelo jornal. Diante de quadro de dor intensa, contínua, incapacitante, causada por doença articular de quadril, foi-me prescrita a oxicodona.
     Santo remédio!
            Além de quase que abolir a dor, a ingestão da droga à noite propiciou-me sono reparador; mais que reparador, acordei com sensação de felicidade indescritível, e relatei a experiência a familiares como tendo “acordado sorrindo”! Os sonhos que tive durante esta primeira noite foram algo inédito para mim, sensações de puro prazer, paz indizível, alegria inaudita, que perduraram até o despertar, sorrindo.
            Na segunda noite de uso da oxicodona, repetiram-se estas sensações, a dor quase que desapareceu, para minha mais completa perplexidade. Não sou usuário de drogas ilícitas e portanto não posso comparar esta minha sensação com o uso de heroína, cocaína ou qualquer outra droga, pois nunca as experimentei. Porém, a comparação pareceu-me inevitável, e pode ser resumida com uma palavra informal: um barato!
            Para minha surpresa, na terceira noite não tive sonhos, tive pesadelos, que se repetiram até o dia do procedimento cirúrgico, quando interrompi o uso da droga. Não estou certo quanto a chamá-los de sonhos: mais pareciam alucinações ou delírios. Melhor classificá-los como não-sonhos, de efeito desagradável e perturbador ainda ao despertar.
            Durante a operação, foi utilizada a morfina; no pós-operatório imediato, acidentalmente, fui acometido de intoxicação pelo uso excessivo de oxiconona  (embora não tão excessivo assim, talvez potencializado pela morfina), diante de dor intratável no membro operado.
            A experiência que procuro relatar aqui, embora fragmentada, foi por mim confrontada – com espanto! – com a crônica de hoje de Schwartsman, a Epidemia mortal. Coincidência?
            Coincidência ou não, é preciso cuidado com o uso da oxicodona, alerta que deve servir aos médicos e usuários. De minha parte, estou feliz por recuperar minha lucidez, a ponto de poder voltar a escrever neste blogue, embora com certa dificuldade, confesso.



Quem paga a conta

Charge do dia