sábado, 1 de julho de 2017

O último quarteto: dois microcontos

K. já não era bom da cabeça. Depois de ouvir o último quarteto de Beethoven 132 vezes, suicidou-se.



L., depois de ouvir o último quarteto de Beethoven 132 vezes, achou que havia descoberto o sentido da vida.

Maconha em farmácias

A foto do dia



Tem início neste sábado a venda de maconha em farmácias no Uruguai. Sessenta por cento da população estão contra.

Foto: Matilde Campodonico / AP


ipê-rosa



desponta o ipê-rosa
sufocado pela mata
em busca de luz




Fotos: AVianna, jul 2017, matinha.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Aldravia n.61



ásperas
podas
a
coluna
que
dói


Foto: A.Vianna, jun 2017, jardim.

Logoteca


Interessantíssima a crônica de Sérgio Rodrigues, autor festejado de "Viva a língua brasileira!" (Cia. das Letras), com o título Uma coleção de gulodices para quem tem fome de palavras, para a Folha de S.Paulo (29/06/2017).
Afirma Rodrigues: “A palavra "logoteca" não está nos dicionários. É um neologismo que significa coleção de palavras e que proponho aqui como tradução do inglês "philavery", também um vocábulo inventado. Acredito que "logoteca" seja uma daquelas traduções que melhoram o original. "Philavery", definido como "coleção idiossincrática de palavras raras e divertidas", foi um termo cunhado sem rigor etimológico pela sogra do inglês Christopher Foyle.”
            Rodrigues fala em “cultivar palavras raras como plantas de estufa”. E enumera algumas delas, com a respectiva “tradução” (sinônimos), que omito aqui, para instigar o leitor a aumentar sua própria logoteca: prolegômeno, coruscante, conspícuo, aura hierática, lábil, funâmbulo, pulcritude, logodedália,  campanudo, inconsútil, abispado, atrabiliário, prosápia, morigeração.
            Rodrigues, ao falar de palavras raras, bem que podia ter citado Evandro Affonso Ferreira, autor de “araã!”, “Os piores dias de minha vida foram todos”, “O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Rotterdam”, dentre outros, escritor premiadíssimo, dono de uma logoteca imensa. Vai aqui minha dica para quem está interessado no assunto. (Além de mim e meu irmão, haverá mais alguém?)
            Confesso que sinto inveja de quem é capaz de criar uma palavra. Em seu ostentoso De amor e trevas, Amós Oz faz referência a um certo Tio Yossef, homem de grande saber linguístico, que inventou palavras para representar coisas simples de uso cotidiano como revista, lápis, geleira, camisa, estufa, rosquinhas, carga, monótono, rinoceronte etc, com o intuito de ampliar o vocabulário da língua hebraica.
            Sobre isso, Oz escreve (com emoção) texto que aqui reproduzo:

“Quem consegue criar uma nova palavra e injetá-la na corrente sanguínea de uma língua me parece que por muito pouco não conseguiria criar as trevas e a luz: se você escrever um livro, talvez com alguma sorte, as pessoas o lerão e apreciarão por um tempo, até livros novos e melhores aparecerem e tomarem o lugar do seu nas prateleiras. Mas aquele que criar uma nova palavra, este tocará a própria eternidade.”

            Amós Oz também tem fome de palavras! Talvez tenha o desejo de imortalidade, manifesto através da criação de palavras. 
           





segunda-feira, 26 de junho de 2017

Amós Oz em S. Paulo

A foto do dia



Amós Oz está em S. Paulo para lançamento do livro Mais de uma luz (Companhia das Letras) e participar de Fronteiras do Pensamento nesta segunda-feira.

Foto: George Etheredge / The New York Times


Pensar e Fazer


“Se houver um único paciente para o qual a droga possa trazer benefícios, já é moralmente errado proibi-la.”
A frase é de Hélio Schwartsman, na crônica Cada macaco no seu galho, para a Folha de S.Paulo (24 jun 2017). O tema central era a controvérsia sobre a liberação de medicamentos emagrecedores, anteriormente banidos pela ANVISA.
Schwrtsman admite que os resultados do uso de tais drogas não são animadores, que há “elevado risco de efeitos adversos”, e que “é sempre perigoso utilizá-los”. Mesmo assim, afirma que “Se houver um único paciente para o qual a droga possa trazer benefícios, já é moralmente errado proibi-la”, repito.
Aqui, não estou interessado nos tais medicamentos, em sua proibição ou liberação. O que me interessa é como o grande pensador Hélio Schwartsman formula suas ideias, em que bases ele as erige, filósofo que é, apoiado no bom funcionamento de seu aparelho de pensar, a ponto de afirmar, categórico, que é moralmente errado proibir se houver um único paciente para o qual a droga possa trazer benefícios.
Como médico que fui, no exercício da Medicina, teria dificuldade em prescrever uma droga amparado no fato de que, moralmente, se beneficiasse um único paciente, e prejudicasse centenas ou milhares deles, esta droga deveria ser utilizada. Há casos de morte registrados com o uso de tais drogas. Seria então lícito dizer, segundo a lógica de Schwartsman, que bastasse a morte de uma pessoa para que tais medicamentos fossem proscritos?
Tenho profunda admiração por Hélio Schwartsman, sou leitor assíduo das crônicas dele, reconheço nele uma capacidade de pensar extraordinária, quase sempre de modo consequencialista. Será então que, em certas situações, surge uma dicotomia entre a filosofia e a prática, entre o modo de pensar e o modo de fazer? Gostaria muito de saber o Schwartsman acha disso.
            Por ora, vamos pensar sobre isso.