quinta-feira, 23 de março de 2017

José e Maria: roteiro para curta-metragem


Cena 1:

José e Maria, gêmeos, 3 anos de idade, brincam debaixo do chuveiro; é uma verdadeira festa, jogam água para fora da banheira, enchem a boca de água e espirram um no outro, há muitos brinquedos de plástico boiando na banheira, patinhos, cachorrinhos, vaquinhas, até livros à prova d’água; José joga o cachorrinho em Maria, Maria atira a vaquinha em José. A cena traduz a completa felicidade infantil.

        (Surgem respingos na lente da câmera.)

De repente, João, o pai, médico, homem sério, honestíssimo, severo, amoroso contudo, entra no banheiro e anuncia com voz solene:

– De agora em diante os banhos deverão ser mais curtos porque está faltando água no Planeta Terra!

José e Maria entreolham-se com espanto.

Cena 2:

Sônia, a mãe, igualmente médica, séria, honestíssima, também severa, amorosa contudo para com os filhos, prepara o jantar.
José e Maria entram na cozinha e o menino pergunta, timidamente:

– Mamãe, posso beber água, mas só um pouquinho, porque está faltando água no Planeta Terra?

Agora é a mãe quem se espanta.


CORTA.

Aldravia n. 50



desponta
o
botão
abelha
no
mel


Foto: A.Vianna, mar 2017, jardim.

Arte da Paula

A foto do dia


Na Grande Barreira de Corais da Austrália

Foto: Paula Vianna, Austrália, mar 2017.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Aldravia n. 49



outono
prenúncio
de
seca
cerrado
alerta


Foto: A.Vianna, mar 2017, jardim.

Nossa fraqueza, nossa força

    Em sua crônica Força e fragilidade psíquicas (Estado da Arte, 20 Março 2017), o psicanalista e historiador Felipe Pimentel destaca o difícil debate na área da psiquiatria, psicologia e psicanálise sobre a definição do que é normal e do que é patológico.
            Quanto ao diagnóstico de uma situação supostamente anormal, afirma Pimentel: “somos nós mesmos que percebemos nosso mal-estar, e não alguém externo que aponta sintomas que apresentamos.”
            Então ele formula duas questões interessantes: “E quando nossas ferramentas não funcionam? E mais: o que significa dizer que elas não funcionam – que estamos doentes?”
            As conclusões a que Pimentel chega a partir deste raciocínio me parecem brilhantes:

“Primeiro, as nossas ferramentas não deixam de funcionar quando estamos frágeis ou mesmo diante de situações traumáticas e difíceis. Pelo contrário, nossa mente possui uma força descomunal e é capaz de suportar traumas mastodônticos sem colapsar. Diante de traumas, ela utiliza os mais diversos expedientes que temos disponíveis para lidar com ele, fugas, racionalizações, atuações e uma centena de soluções particulares. Se nossa mente enfrentasse os traumas (reais ou internos) diretamente seria insuportável para ela, e isso já nos aponta a resposta: assim como ela se protege do horror, nossa mente também só se permite colapsar muitas vezes quando estamos fortes – e não frágeis. Quer dizer, quando ela se sente mais fortalecida para vivenciar nossas angústias, é possível que ela nos mande um alerta, que também é um convite: agora que estamos com mais recursos, quem sabe sofrer um pouco para reorganizar o que nos causa mal-estar? Isso explica porque muitas pessoas ultrapassam traumas incríveis incolumemente para depois caírem em crises psicológicas em momentos distantes e aparentemente tranquilos ou até mesmo diante de situações superficialmente muito mais simples e singelas que traumas passados. Desse modo, para um psicanalista, uma crise psicológica é, muitas vezes, o avesso de uma fragilidade psíquica, mas o indício de que naquele momento a mente está fortalecida para baixar suas defesas e encarar suas angústias. E é nesse momento que surge a mais bela oportunidade para nos transformarmos e escaparmos das amarras e imbróglios que nosso próprio modo de funcionamento montou.”

            O grifo acima é meu, para destacar a ideia de que nossa mente às vezes se permite colapsar. E isso pode ocorrer exatamente quando nos sentimos mais fortes.
            Durante o processo analítico, são os difíceis entraves entre analista e analisando, gerando “crises” que muitas vezes levam este último ao desespero (chegando a abandonar a análise), que permitem a expansão psíquica quando vencidos.
Nas palavras de Pimentel, “uma crise psicológica é, muitas vezes, o avesso de uma fragilidade psíquica”. O real entendimento desta situação ajuda o sujeito a vencer os traumas que a vida se nos apresenta. Em palavras mais simples, nossa fraqueza pode constituir-se em nossa força. Aprender a admitir e respeitar esta fragilidade, como condição intrínseca do ser humano, nos parece o primeiro passo para tal entendimento.




terça-feira, 21 de março de 2017

Outono chegando

A foto do dia


Início do outono em Brasília

Foto: Mercêdes Fabiana, mar 2017, Lago Sul

Suzete conta a verdade

Querido André,

eles não sabem, ninguém sabe, só nós dois sabemos, você soube contar essa história tão bem, e até publicá-la em livro e no Louco – o belíssimo Folhetim –, de tal modo que agora posso contar a verdade e acho que isso não vai fazer a menor diferença porque ninguém vai entender nada, tão complicada tornou-se a trama, tantos personagens, parecida com esses filmes sobre espionagem que quando acabam a gente diz que não entendeu nada. Há!
            André – e por isso esta intimidade –, você era o homem triste, o homem mais triste que já conheci, quando cortei seu cabelo pela primeira vez. Então decidi escrever diretamente a você, sem intermediários, sem subterfúgios (aprendi esta palavra com o Evandro Affonso Ferreira, indicação sua), sem meias-palavras, e esta era a verdade que precisava contar, na esperança que a torne pública em seu já famoso blog.
            Mas aquela história ficou para trás. Os tempos agora são outros, você já não está triste, vamos rompendo.
            Escrevo para contar que estive em Portugal! Você acredita?! Verdade, conheci Lisboa, para mim a cidade mais linda da Europa, justamente porque foi a única que conheci na Europa até agora. (Escrevo isso pensando que assim o diriam os portugueses, no seu modo enviesado de dizer as coisas, enviesado para nós, que para eles é o modo mais direto e óbvio de dizer as coisas.) Fui ao primeiro Congresso Ibero-Americano de Cabeleireiros, Manicures, Pedicures e Afins. Dá para acreditar?! Veja você, verdade verdadeira! (Ups!, li no seu livro 47 cenas de um romance familiar que seu pai brigava com sua mãe porque ela usa esta expressão e ele dizia que isso não existia, que verdade só podia ser verdadeira...)
            Explico. Cabeleireiros, manicures, pedicures e afins, segundo os próprios portugueses, mudaram a cara de Portugal. Como? Conversando. Você sabe que esta raça de cabeleireiros, manicures, pedicures e afins gosta de conversar, e foi conversando que passou a influir até no modo de falar dos gajos. Eles estão abrindo as vogais, pá!
            E sabe sobre o que tanto conversam brasileiras e portuguesas? Sobre novelas, ao famosas novelas brasileiras. O astro, Escrava Isaura, Mulher sem destino, A sombra de Rebeca, O tronco do ipê, Casa de pensão, Insensato coração, Estrada do pecado, Meu pedacinho de chão, Ilusões perdidas, a lista não tem fim, você que gosta de listas, e parece que, atualmente, a que faz o maior sucesso chama-se Vale a pena ver de novo, no horário da tarde. Confesso que não entendo nada de novelas, não troco um livro por qualquer uma delas, as colegas portuguesas queriam saber o final desta ou daquela história e eu não sabia o que dizer, mas não posso menosprezar as novelas brasileiras: pagaram-me passagem e estada em Lisboa durante uma semana! Um luxo só!
Usos e costumes estão mudando, e tem até gente escrevendo tese de mestrado sobre o fenômeno. (Aliás, esse pessoal da Academia, lá como aqui, basta um peido atravessado e já estão escrevendo uma tese.) (Desculpe-me, voltei a ler Marcelo Mirisola...)
            Os organizadores do Congresso souberam que gosto de ler e escrever pelo Louco por cachorros! Você acredita? O Louco chegou a Portugal! Então me convidaram para que eu contasse minha experiência de cabeleireira e leitora, dos preconceitos que tenho sofrido, da inveja das colegas de trabalho, tudo isso, coisas boas e coisas não tão boas, como na vida. Contei tudinho, de como comprava meus livros em sebos, de como lia entre um corte e outro, minha preferência por cabelo de homem, dos clientes que estranhavam e ainda estranham esse meu hábito – puro preconceito –, até de você eu falei, sei lá se isso interessava a eles, mas fui falando falando falando (aprendi isso com você e gosto muito, repetir três vezes a mesma palavra sem usar vírgulas, acho que se chama linguagem oral, sei lá) falei durante quase duas horas, acredita?, e fui aplaudidíssima ao final! Não é muito chique isso tudo, André?
            Já estou de volta ao Brasil, de modo que não tive a oportunidade de procurar o Manoel, que anda pelas ruas de Lisboa por onde caminhava Pessoa! Morri de inveja.
            Bem, vou terminando minha cartinha, era só um alô, cheio de saudade. Depois escrevo mais.
Um grande beijo de quem o ama,
                                                                         

                                                                                    Suzete.


quinta-feira, 16 de março de 2017

Risco de vida

Em minha Resposta ao Sr. Manoel, postada no dia 13 passado, no post scriptum, assinalei:

PS: Detesto o politicamente correto, Manoel. Portanto, fico com a forma antiga, “risco de vida”, e não aquela que se usa agora, “risco de morte”. Que bobagem!

Hoje, em sua coluna para a Folha, Sergio Rodrigues não deixa por menos e coloca no título: Por que devemos comemorar a decadência da expressão 'risco de morte'. Afirma Rodrigues:

“Boa notícia no mundo da língua brasileira: a expressão biônica "risco de morte", que há cerca de 20 anos começou a se impor às cotoveladas no discurso dos meios de comunicação, sofreu um violento revés. Talvez não corra risco de vida, mas está no hospital.
Na última quinta-feira (9), depois que publiquei aqui um texto sobre os "podólatras da letra", a direção de jornalismo da TV Globo soltou uma circular vetando em toda a rede o uso da locução, que chamou acertadamente de "modismo".

            E conclui Rodrigues:

“Não que a locução mereça o anátema que seus defensores tentaram impor a "risco de vida". As duas são gramaticais e fazem sentido. Uma, preferida por gerações de brasileiros, refere-se ao perigo que corre a vida; a outra fala do perigo de que a morte vença. Dizem basicamente a mesma coisa.
Por que, então, comemorar o declínio da expressão "risco de morte"? Porque ela não soube brincar. A língua que as pessoas falam na vida real merece respeito.”

            Hoje vou dormir tranquilo e em boa companhia!