segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Cícero Dias em Brasília

Cícero Dias nasceu em Escada, Pernambuco, em 1907, e passou a infância num engenho, na Zona da Mata pernambucana. Em 1920 foi para o Rio de Janeiro, estudou pintura e conheceu os modernistas.
Em 1927, realizou sua primeira exposição individual, no Rio de Janeiro, com grande sucesso de crítica.
Em 1937, expôs em Nova Iorque; em seguida viajou a Paris, onde se fixou definitivamente, tornando-se amigo de Picasso, Paul Éluard e outros artistas. Durante a ocupação da França foi feito prisioneiro dos alemães.
Em 1943, participou do Salão de Arte Moderna de Lisboa, onde obteve premiação e, em 1945, voltou a Paris e ligou-se aos abstratos.
Em 1965, a Bienal de Veneza realizou uma exposição retrospectiva de quarenta anos de pintura de Cícero Dias. Em 1970, realizou individuais no Recife, Rio de Janeiro e em São Paulo. Em 1981, o MAM realizou retrospectiva de sua obra.
Na década de 1960, Cícero volta à pintura figurativa. Permanecem em seus quadros o clima de sonho e os elementos recorrentes: mulheres, casarios, folhagens, o mar.
Morreu em 28 de janeiro de 2003, em Paris.
Eis algumas aquarelas da fase inicial do pintor, expostas em Brasília (CCBB) atualmente:




Os sobrinhos do Prof. Piccard (década de 1920)



Freiras e meninas (idem)



Noivos (idem)



Banho de rio (1931)



O sonho (1931)


Amizade (1929)



Jogos (1928)


sábado, 25 de fevereiro de 2017

Moonlight



            Moonlight, o filme dirigido por Barry Jenkins, que também assina o roteiro, é autobiográfico, segundo o próprio diretor.
            Chiron, chamado pelos colegas de Litlle (Pequeno), é vítima de abandono afetivo durante toda a infância. Ele tem uma “mãe morta”, na concepção de André Green, psicanalista francês nascido no Cairo (1927-1912). A mãe, prostituta e viciada em crack (Naomie Harris, com ótima atuação), oferece a Chiron o que há de pior para uma criança: a falta de afeto. (Se esta mãe viesse a morrer, provavelmente o menino teria um destino melhor, seria adotado por Teresa, que às vezes faz o papel de mãe. Isso pode ocorrer na vida real.)
            Pai, Chiron nunca teve. Até que surge John (o excelente ator Mahershala Ali), um traficante de crack que se impressiona (chega a se emocionar em certo momento) com a apatia e mutismo do garoto, e faz as vezes de pai.
            Esta é apenas a introdução para o que virá depois!
            Chiron adolescente e adulto revela as consequências daquela infância traumática, pobre em afeto: um homem triste perdido no mundo.
            No entanto, o filme que parece igualmente pobre pela descrição que apresento até aqui, torna-se extremamente rico, pleno de sensibilidade, originalíssimo, com a introdução da sexualidade como elemento fundamental na vida de Chiron. O tema não tem sido tratado no cinema entre os negros.
            Um grande filme, para ser visto, revisto, e discutido com que gosta de cinema. (Recebeu 8 indicações para o Oscar, o que não tem a menor importância.)


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

O silêncio de Endo


Termino a leitura de O silêncio, de Shusaku Endo (Ed. Planeta do Brasil, 2011), agradavelmente surpreso. (Tenho lido poucas traduções, pois gosto mesmo é da nossa língua mãe expressa no original, em clássicos e contemporâneos. O livro de Endo apresenta uma agravante para nós, brasileiros: foi traduzido do japonês para o inglês, e deste para o português. Com certeza já não é o mesmo livro original que temos nas mãos. Por que o ler, então?)
            Esperava por amigos numa livraria, fazendo hora para o almoço, e ao pegar um volume qualquer, iniciei a leitura de O silêncio. Não pude interrompê-la, até o término da história. Uma história magnífica!
            (Vivi experiência semelhante há muitos anos, com O perfume, de Patrick Süsskind, literatura pobre, porém com enredo capaz de prender o leitor. O filme com o mesmo nome revelou-se abaixo da crítica.)
            O romance de Endo narra a saga de missionários católicos no Japão do século XVII. Parece que há alguns fatos históricos, mesclados com muita ficção. Porém os temas tratados interessam a qualquer ser humano minimamente curioso: fé, traição, missão, tortura, apostasia, tudo em nome de Deus, de Jesus e de Judas, nas visões do Ocidente e do Oriente. Para os que creem, fica a pergunta fundamental: qual o significado da verdadeira fé?
            A analogia de um certo personagem com o evangelista Judas é fantástica, digna de um José Saramago.
            Se o leitor vence alguns trechos mais monótonos, (não espere literatura de alta qualidade), ele chega ao surpreendente final do romance, fecha o livro, e pode pensar por um bom tempo. Não é esta mesma uma das finalidades da leitura?
            O prefácio é de Martin Scorsese, que mais recentemente resolveu fazer um filme sobre o livro.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Arquimedes vai à festa

           Arquimedes recebeu importante prêmio literário pelo último romance – Um vento ao cair da noite – e pelo conjunto da obra, acompanhado de significante quantia em dinheiro, o que lhe interessou sobremaneira, tendo em vista a pindaíba em que se encontrava. Um obstáculo apenas: haveria uma recepção de gala, com direito a champanhe e muitos convidados, discursos e tapinhas nas costas, coisas que Arquimedes não tolerava. Para falar a verdade, ele odiava tais rapapés e salamaleques. Mas pelo dinheiro...
            Iria ao encontro, porém deixaria sua marca, pensou. No dia e hora marcados, impecavelmente vestido de garçom, terninho preto de tecido ralo, camisa branca mal passada, gravata borboleta, um lencinho igualmente preto em forma de triângulo amarrado na cabeça, sapato social, Arquimedes era o garçom perfeito. Deixou seu carro a um quarteirão de distância, cruzou o extenso e exuberante jardim do casarão, entrou pela cozinha, foi logo pegando um guardanapo branco que dependurou no antebraço direito, tomou de uma bandeja de salgadinhos e passeou pelo salão como quem dança num baile de gala.
            A primeira reação de Arquimedes foi de espanto, ao ver que passava incólume pelo mar de convidados e ninguém olhava no seu rosto; poderia passear pelo salão durante horas e jamais seria reconhecido, pois os olhares eram dirigidos exclusivamente para a bandeja que segurava. Mesmo aqueles que agradeciam pelo salgado não olhavam para sua cara. Devo ser invisível, pensou.
            Mas esta ideia foi prontamente desfeita, da maneira mais violenta possível, quando um dos convidados, antigo conhecido de Arquimedes, sabidamente grosseirão e já tocado pelo uísque, jogou-lhe na cara – paradoxalmente, pois nem o olhou na cara:
            – Vê se traz um salgado que preste, porra!
            Agora não foi espanto, foi um baita susto! Arquimedes quase derrubou a bandeja de rissoles, balbuciou algo ininteligível, escafedeu-se para o interior da enorme cozinha. Melhor parar por aqui, acho que está de bom tamanho, pensou.
            Minutos depois, feliz coincidência, o dono da casa e patrocinador do evento, Dr. Júlio de Freitas, incomodado com a demora de Arquimedes – sujeito esquisito e dado a faltar aos compromissos –, nervoso, pois empanturrava-se de rissoles servidos por um certo garçom ao qual não olhava nos olhos, apenas servia-se, bebericando sua champanhe, Dr. Júlio resolveu fazer o brinde da noite ao ilustre convidado.
            O anfitrião reuniu os convidados e anunciou oficialmente que Arquimedes tivera um contratempo e que não poderia comparecer à recepção. A consternação foi geral, porém aqueles que conheciam melhor o homenageado não se surpreenderam com o fato, apenas lamentaram. Terminada a lamúria, Dr. Júlio informou que a festa teria prosseguimento, mesmo na ausência de Arquimedes, que os convidados se divertissem, era o que lhes restava fazer.
            Ouviu-se então o tilintar de uma taça de cristal, alguém batia-lhe com uma faca à guisa de campainha, chamando a atenção de todos no centro do salão. Era Arquimedes, para estupefação geral! Como havia retirado o lenço preto da cabeça, foi logo reconhecido. Depois dos óóóhs! e aaahs, pediu silêncio; demorou a ser atendido, muitos queriam abraçá-lo, ele esquivava-se, tornava a pedir silêncio, e quando o silêncio se fez, Arquimedes anunciou que faria um discurso, ao que foi aplaudidíssimo. Os convidados não imaginavam o que lhes esperava.
             Arquimedes falou durante duas horas e quarenta minutos sobre a invisibilidade dos garçons e anunciou que este seria o tema de seu próximo livro. Impacientes e constrangidos, todos ouviram em silêncio. Fim de festa.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Amanhecer


Amanhecer

Desperta antes do amanhecer.
Vai ver o primeiro raio de sol.
Deixa dilatar-se a tua pupila,
surpresa  com a luz primordial.
O brilho.
Luzem trêmulas as folhas dos arbustos,
as pétalas,
o orvalho.
Os pássaros lançam setas,
o ar palpita.
Estás a ver o nascer do mundo.
Estás imerso no nascer do mundo.
Como um feto,
a primeira chuva da estação,
a pupa,
o girino,
um primeiro grito.
Mas não grites.
Silencia, solene,
diante da cena
que tens o privilégio de presenciar.
Nunca mais verás um amanhecer assim.
Será único.
Fica atento.
Respira profundamente.

Paulo Sergio Viana           


Foto: Paulo Sergio, Inhotin, 2016

O poema acima pode ser lido no blog do autor: