terça-feira, 4 de outubro de 2016

Transformações da Crônica ou Quem é o melhor cronista?

A língua brasileira está mais viva do que nunca, e na condição de todo e qualquer vivente, encontra-se em franca transformação. Quem puder acompanhá-la...
A análise meticulosa de determinadas palavras e expressões realizada por Sérgio Rodrigues em seu belo livro Viva a língua brasileira! demonstra-o de forma cabal. No entanto, ocorre-me (em conversa com meu irmão) que a comparação de um gênero literário específico, ao longo do tempo, poderia nos fornecer bom exemplo de como e em que intensidade se processa tal transformação. Penso que a crônica se presta bem a este propósito, pela sua acessibilidade, delimitação temática, limitação de espaço, entre outras características mais controversas. Além da paixão deste blogueiro pelo gênero, considerado por alguns como menor.
Observe o leitor que não falo em evolução da crônica, palavra que poderia trazer a ideia de aprimoramento da linguagem, de um período em detrimento de outro. Nada disso. Tudo em seu tempo.
De início, tomemos trechos da crônica de Machado de Assis, publicada originalmente no Correio Mercantil, Rio de Janeiro, em janeiro de 1859, intitulada O jornal e o livro. A excelência de Machado também como cronista é inquestionável, daí tomá-lo como ponto de partida. 

“O espírito humano, como o heliotrópio, olha sempre de face um sol que o atrai, e para o qual ele caminha sem cessar: – é a perfectibilidade. A evidência deste princípio, ou antes deste fato, foi claramente demonstrada num livro de ouro, que tornou-se o Evangelho de uma religião. Serei eu, derradeiro dos levitas da nova arca, que me abalance a falar sobre tão debatido e profundo assunto?
[...] Sou dos menos inteligentes adeptos da nova crença, mas tenho consciência que dos de mais profunda convicção. Sou filho deste século, em cujas veias ferve o licor da esperança. Minhas tendências, minhas aspirações, são as aspirações e as tendências da mocidade; e a mocidade é o fogo, a confiança, o futuro, o progresso. A nós, guebros modernos do fogo intelectual, na expressão de Lamartine, não importa este ou aquele brado de descrença e desânimo: as sedições só se realizam contra os princípios, nunca contra as variedades.
Não há contradizê-lo. Por qualquer face que se olhe o espírito humano descobre-se a reflexão viva de um sol ignoto. Tem-se reconhecido que há homens para quem a evidência das teorias é uma quimera; felizmente temos a evidência dos fatos, diante da qual os São Tomés do século têm de curvar a cabeça.
[...] Tudo se regenera: tudo toma uma nova face. O jornal é um sintoma, um exemplo desta regeneração. A humanidade, como o vulcão, rebenta uma nova cratera quando mais fogo lhe ferve no centro. A literatura tinha acaso nos moldes conhecidos em que preenchesse o fim do pensamento humano? Não; nenhum era vasto como o jornal, nenhum liberal, nenhum democrático, como ele. Foi a nova cratera do vulcão.”

            Não há como deixar de admirar a forma machadiana, pela elegância, precisão, originalidade, escolha do vocabulário, para dizer o mínimo. Mas, e se ela fosse publicada hoje, num jornal de domingo, sem a chancela do mago do Cosme Velho? Talvez nem chegasse a ser publicada.
            O segundo exemplo de cronista, tomo-o também de autor consagrado, considerado por muitos o maior cronista brasileiro de todos os tempos, Rubem Braga. Bilhete a um candidato foi escrita em dezembro de 1960, publicada na Manchete.

“Olhe aqui, Rubem. Para ser eleito vereador, eu preciso de três mil votos. Só lá no Jockey, entre tratadores, jóqueis, empregados e sócios eu tenho, no mínimo mesmo, trezentos votos certos; vamos botar mais cem na Hípica; bem, quatrocentos. Pessoal de meu clube, o Botafogo, calculando com o máximo de pessimismo, seiscentos. Aí já estão mil.
Entre colegas de turma e de repartição contei, seguros, duzentos; vamos dizer, cem. Naquela fábrica da Gávea, você sabe, eu estou com tudo na mão, porque tenho apoio por baixo e por cima, inclusive dos comunas; pelo menos oitocentos votos certos, mas vamos dizer, quatrocentos. Já são mil e quinhentos.
Em Vila Isabel minha sogra é uma potência, porque essas coisas de igreja e caridade tudo lá é com ela. Quer saber de uma coisa? Só na Vila eu já tenho a eleição garantida, mas vamos botar: quinhentos. Aí já estão, contando miseravelmente, mas mi-se-ra-vel-men-te, dois mil.”
[...] Passei uma semana sem ver meu amigo candidato; no dia 30 de setembro, três dias antes das eleições, esbarrei com ele na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, todo vibrante, cercado de amigos; deu-me um abraço formidável e me apresentou ao pessoal: “este aqui é meu, de cabresto!”
Atulhou-me de cédulas.

Meu caro candidato:
Você deve ter notado que na 122ª seção da quinta zona, onde votei, você não teve nenhum voto. Palavra de honra que eu ia votar em você; levei uma cédula no bolso. Mas você estava tão garantido que preferi ajudar outro amigo com meu votinho. Foi o diabo. Tenho a impressão de que os outros eleitores pensaram a mesma coisa, e nessa marcha da apuração, se você chegar a trezentos votos ainda pode se consolar, que muitos outros terão muito menos do que isso. Aliás, quem também estava lá e votou logo depois de mim foi o Gonçalves dos selos.
[...] Vou lhe dizer uma coisa com toda franqueza: foi melhor assim. Melhor para você. Essa nossa Câmara Municipal não era mesmo lugar para um sujeito decente como você. É superdesmoralizada! Pense um pouco e me dará razão. Seu, de cabresto, o Rubem.”

            Não é mesmo espetacular?! Um século separa os dois textos, ambos escritos no mesmo idioma, mas quanta diferença! Em Braga, a linguagem não poderia ser mais coloquial. Quem empregaria a palavra “superdesmoralizada” tão à vontade?
            Vamos ao terceiro exemplo, daquele que considero o melhor cronista da atualidade (trata-se de gosto pessoal, é verdade), Luís Fernando Veríssimo. O título é Usurpação, publicada em O Globo em outubro de 2016.

Cervantes levou quase dez anos para escrever a segunda parte de “Dom Quixote”, e escreveu porque uma versão apócrifa da continuação da história, feita por alguém que nunca se soube quem era, foi um sucesso popular. Cervantes se viu forçado a, por assim dizer, resgatar seu personagem do usurpador. Na falsa continuação, Quixote trai a sua amada Dulcineia e acabava seus dias num asilo de loucos. Charles Dickens viu seu personagem Pickwick transformado por um usurpador no seu oposto. O Pickwick apócrifo visita a França, renuncia à bebida e se casa, coisas que o Pickwick do Dickens jamais faria.
Estes dois exemplos sugerem uma especulação: até que ponto personagens criados por um autor pertencem ao autor ou, postos no mundo, caem em domínio público e pertencem a todo o mundo? Uma criação literária traz implícita a condição de exclusividade dos seus personagens ou, uma vez criados, os personagens passam a ter vida própria, muitas vezes diferente da vida imaginada pelo autor? Quixote e Pickwick podem ter outra vida fora da que foram condenados na página impressa?
Outra especulação é sobre a relação variável do livro com o leitor. Como um texto é compreendido, ou incompreendido, dependendo da época e de quem lê.
[...] Com a internet, surgiu um novo tipo de relação entre texto e leitor, e um novo tipo de usurpação. Textos apócrifos tornaram-se comuns, com assinaturas que, na maior parte das vezes, são inconfiáveis. E não há o que fazer, a não ser relaxar e se resignar. Sempre conto que fui abordado por uma senhora que declarou não gostar muito do que eu escrevo, mas que tinha adorado um texto meu recente, que lera na internet. O texto não era meu, mas agradeci com um sorriso. Elogio a gente não dispensa.”

Grande Veríssimo, dono de um toque de humor incomparável! Pouco mais de meio século separa Braga de Veríssimo. E já se pode notar a transformação do texto, sua modernidade, um certo despojamento, na falta de adjetivo melhor, no último autor. O arremate da crônica (“Elogio a gente não dispensa”) traz a marca registrada do gaúcho.
A provocação que o título do presente texto oferece – qual o melhor cronista? – só pode ser respondida mesmo levando em consideração um determinado período de tempo, analisadas as constantes transformações por que passa a nossa língua brasileira.
O fato é que temos grandes cronistas! Se puder despertar no leitor o gosto pelo gênero, o Louco sente-se satisfeito.
           



segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Dostoievki para analfabetos funcionais?



A crônica de Leandro Karnal (a quem admiro) de ontem no Estadão, com o sugestivo título de Pães e livros, não esconde o nobre e elevado intuito de incentivar a leitura.
Ele começa por Dostoievski, em Os Irmãos Karamazov, relatando uma (ficcional) segunda vinda de Jesus, ocorrida no sul da Espanha, em plena Inquisição. O diabo entra em cena e com ele a tentação, que Cristo recusa. Karnal complica ainda mais a situação:
“Ao dizer o transcendente “não só de pão vive o homem”, Jesus dá uma dimensão superior para a vida. Segundo o cardeal, o Messias formou uma religião para poucos. Ao criar pecados, recompensas, tribunais e privilégios, a Igreja Católica teria elaborado um projeto viável para milhões. O povo quer pão e não elevação mística. Jesus teria apostado alto demais na espécie humana. Os homens são materiais, egoístas, centrados no aqui e agora e pouco inclinados à compaixão ou à metafísica. Jesus seria um idealista. A Igreja real, com sua hierarquia e poder, seria o mundo possível. O Filho ofereceu a liberdade aos homens, mas somos apegados aos nossos grilhões.”

E o autor dá seu recado de forma enfática: “As obras Crime e Castigo e Os Irmãos Karamazov mudaram minha vida.” “Foi uma epifania, uma revelação, uma luz que se acendeu e mudou minha maneira de estar no mundo.”
Cita outros autores e textos “transformadores”, como , na Bíblia, A Paixão Segundo G.H., de Clarice Lispector, Dante, Cervantes, Machado de Assis, além de Hamlet, de Shakespeare. Karnal não para por aí:
“Li muitos livros. Porém, apenas duas dúzias deles trouxeram uma luz ao final que, aportando o barco da consciência à página derradeira, percebia-me atônito, feliz, impactado e, algumas vezes, mudo entre lágrimas. As ideias haviam mudado de lugar. Fechado o livro, eu era outro. Tinha sentimentos variados como raiva, amor, emoção. Uma parte minha se rebelava porque o escritor genial me arrancara de um nicho e me jogara ao vazio, ironizando minha percepção rasa da existência. Outra parte pensava que a vida valia a pena por ter chegado consciente ao momento daquele livro nas minhas mãos.”

            É verdade que um grande livro é capaz de provocar fortes sentimentos. É verdade que um grande livro pode mudar nossa maneira de ver o mundo. É verdade que a boa leitura faz parte de nossa educação, na mais ampla acepção do termo. Mas isso pode ser dito sem esses derramamentos sentimentaloides utilizados pelo nobre colunista, que escreve para jornal, aos domingos.
            Ou ele não sabe (claro que sabe) que metade da população brasileira é composta por analfabetos funcionais? Prescrever Dostoievski para uma dessas pessoas é distanciá-las ainda mais da literatura. Louvo (e até invejo) o nível intelectual de Karnal e reconheço que só a ele, ao seu contínuo e permanente esforço, é que se deve tal façanha. Porém, sejamos realistas.
            Melhor bater na mesma tecla de sempre: educação, educação, educação... Melhor explicar como se pode chegar a Dostoiévski, a partir da velha e boa cartilha do bê a bá. Claro que os autores e livros citados são todos fundamentais, mas não são para todos, infelizmente. E não digam que este blogueiro está sendo elitista; ao contrário, ele torce par que todos cheguem lá! Porém, há um método para isso. (Até na loucura há um método, afirma Shakespeare.)
            Ao final de sua crônica, Karnal exagera no mau gosto:
“Faça um selfie da sua alma: leia um clássico.”
O Louco recomenda: se puder, leia um clássico; se não, leia quem lhe agrade. Mas leia.




Chagall

Meus quadros favoritos


Marc Chagall

Nobel de Medicina




O Prêmio Nobel de Medicina de 2016 foi concedido ao japonês Yoshinori Ohsumi por suas descobertas sobre os mecanismos de autofagia, ou seja, o processo de degradação e reciclagem dos componentes danificados das células. Nascido em 1945 em Fukuoka, no Japão, Ohsumi é pesquisador do Instituto de Tecnologia de Toquio. 
A reportagem de Fábio de Castro, para o Estadão, acrescenta:
"As descobertas de Ohsumi levaram a um novo paradigma no nosso conhecimento sobre como as células reciclam seu conteúdo. Suas descobertas abriram o caminho para a compreensão da importância fundamental da autofagia em diversos processos fisiológicos, como a adaptação ao jejum ou a resposta a infecções", declarou o comitê do Nobel, em um comunicado. 
Segundo o comitê, "mutações nos genes ligados à autofagia podem causar doenças e o processo autofágico envolvido em várias doenças, incluindo o câncer e doenças neurológicas."


Foto: Universidade de Toquio


jangadas



descansam em paz
as rústicas jangadas
à espera do mar




Com a maestria de sempre, Paulo brilha com a quadrinha:


Sobre a areia, deitada,
diante das ondas do mar,
cisma, quieta a jangada,
cansada de navegar...




Foto: A.Vianna, set 2016, Prainha, em Aquiraz, Ceará.