quinta-feira, 22 de setembro de 2016

O amor de Camões




                 Foi preciso ouvir da boca de meu irmão uma frase que é minha e que não me canso de repetir – a escrita é terapêutica – para criar coragem e escrever sobre a morte de nosso cãozinho Camões. Ele foi nosso companheiro durante 17 anos e sua morte ocorrida há 5 dias deixou-nos inconsoláveis.
            Camões, um Yorkshire terrier, chegou aqui em casa tão pequenino que um vento forte poderia arrastá-lo. Quando a criadora da raça soltou os filhotes no pátio cimentado, Camões era o segundo da fila, e logo que o vimos, ele foi o escolhido.
Recebeu esse nome ilustre – e passei 17 anos repetindo esta história para quem se espantasse quando eu o chamava – não pelo Camões original, o fidalgo Luís Vaz, mas por causa de José Saramago, também português, autor de minha preferência, que tinha um cão de nome Camões. Todos esses personagens já se foram: Luís Vaz, Saramago, o Camões de Saramago e agora o nosso Camões. Escrevo antes que eu mesmo me vá.
            Digo que foi companheiro porque bastava que entrasse em casa para que ele se postasse a meu lado, em todas as horas do dia. Era canhoto; apoiava o pezinho esquerdo em minha perna e não sossegava até que eu o pegasse no colo. “O cão que pede colo”, certa feita ouvi de um amigo observador. Aceitava apenas permanecer em meu braço esquerdo, cabeça erguida, sempre atento ao movimento em redor.
            Logo aprendeu a andar comigo, sem coleira, na quadra onde morávamos; Pára Camões, e ele parava antes de atravessar a rua; Vamos, e ele atravessava faceiro, abanando o cotoco de rabo.
            Quando nos mudamos para uma casa, Camões fugiu 3 vezes. Na primeira vez, o vizinho encontrou-o num bueiro e veio devolvê-lo; agradeci muitíssimo, peguei o bichinho no colo, e ao me despedir, o vizinho tocou-me no braço, gesto de amizade; Camões avançou nele, latindo e mordendo, tremendo susto para o homem, vergonha para mim.
            Na segunda fuga quase morreu; entrou numa casa próxima onde havia um cachorro enorme; a vizinha veio devolvê-lo todo molhado (baba do colega?), estropiado, machucado; sobreviveu.
            A terceira fuga foi dramática; a moça da banca de jornais próxima, uma rua além da nossa, tocou a campainha e perguntou, Aí tem um York pequenino?, Tem sim, Pois ele está lá na banca comigo, Já vou pegá-lo; a dona da banca explicou-me que vira um homem de bicicleta apanhá-lo, tomando-o por cão perdido, e já o levava na cesta da bicicleta quando foi interpelado por ela, Esse cachorro tem dono, Mas agora é meu, eu encontrei ele na rua, Mas conheço o dono e faça o favor de devolver, e arrancou Camões das mãos do homem. Quando Lola deu cria, a primeira ninhada de 4 filhotes de Camões, a moça da banca recebeu um deles de presente.
            Escapou de morte certa quando o levamos à roça, em Coromandel, mais precisamente em Santo Inácio; distraímos, Cadê o Camões? Fomos encontrá-lo no estábulo, andando no meio das vacas e bezerros, pisando na bosta, catando restos de comida, mastigando ossos de galinha, sentindo-se no paraíso. Em Coró, hospedou-se em hotel, comeu presunto no café da manhã, esbaldou-se!
            Camões nunca viu o mar; gostaríamos muito de tê-lo levado à praia. Haveria de gostar espojar-se na areia.
            Nunca foi atacado, sequer ameaçado, por qualquer outro cão aqui de casa, mesmo pelos grandes. Era respeitado como o Capitão, um de seus inúmeros apelidos. Atendia também pela alcunha de Benito de Paula: usava longa cabeleira durante seus primeiros anos. Conquistador, não saía de cima de uma cadela no cio, mesmo uma mastim (Dora), uma rottweiler (Berta e Juliette), uma enorme labradora (Lenda) ou uma cane-corso (Falena) de 60 quilos – ele que nunca passou dos 3 quilos de peso –, e por isso também era conhecido por Don Juan de Marco, ou apenas Don Marco. Onofre, antigo jardineiro, tratava-o por Carmoneda. Belarmina deu-lhe o cognome de Hominho, que lhe caiu muito bem! Juntamente com Lola e Nina Simone, sua filha, compunha o trio Batutas do Sertão.
            Não gostava de banho. Quando o lava-cães chegava, Camões corria para o quintal, escondia-se debaixo do abacateiro, pensando-se invisível.
            Desde que chegou, dormia em nosso quarto, entre o criado-mudo e nossa cama. Na velhice, começou a acordar em plena madrugada; passou a dormir na cozinha.
            Lola, adquirida para ser a companheira de Camões, deu cria duas vezes, 5 cachorrinhos na primeira e 4 na segunda. Nina Simone ficou conosco, os demais foram oferecidos a amigos, que os receberam com muito carinho. Às vezes tenho notícias de alguns deles; Miúdo já é avô, e portanto, Camões foi bisavô.
            Estamos de luto, morreu o nosso Camões. Aos que têm dificuldade para suportar a dor de uma perda como esta, e por isso não desejam mais a convivência com um cão, afirmamos que foram anos de muita alegria e amor recíproco, e somos gratos pela rica experiência que com ele compartilhamos. Valeu a pena.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Luto

              “Então, em que consiste o trabalho realizado pelo luto? Creio que não é forçado descrevê-lo da seguinte maneira: a prova de realidade mostrou que o objeto amado já não existe mais e agora exige que toda a libido seja retirada de suas ligações com esse objeto. Contra isso se levanta uma compreensível oposição; em geral se observa que o homem não abandona de bom grado uma posição da libido, nem mesmo quando um substituo já se lhe acena. Esta oposição pode ser tão intensa que ocorre um afastamento da realidade e uma adesão ao objeto por meio de uma psicose alucinatória de desejo. O normal é que vença o respeito à realidade. Mas sua incumbência não pode ser imediatamente atendida. Ela será cumprida pouco a pouco com grande dispêndio de tempo e de energia de investimento, e enquanto isso a existência do objeto de investimento é psiquicamente prolongada. Uma a uma, as lembranças e expectativas pelas quais a libido se ligava ao objeto são focalizadas e superinvestidas e nelas se realiza o desligamento da libido. Por que essa operação de compromisso, que consiste em executar uma por uma a ordem da realidade, é tão extraordinariamente dolorosa, é algo que não fica facilmente indicado em uma fundamentação econômica. E o notável é que esse doloroso desprazer nos parece natural. Mas de fato, uma vez concluído o trabalho do luto, o ego fica novamente livre e desinibido.”

Sigmund Freud
Luto e melancolia
Tradução de Marilene Carone

Cosacnaify, 2011

Relógio do tempo


Ao completar 70 anos, quebrou a ampulheta de estimação e jogou a areia ao mar. Mas o tempo não parou.

Bonnard, fachada

Meus quadros favoritos.


Pierre Bonnard

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Mais um...

– Doutor, ando muito irritado!
– Toma algum remédio?
– Ih! dr, 17 todos os dias; acho que é isso.
– Então vou lhe prescrever um tranquilizante.

Em parceria com meu amigo
Sergio Pripas.


(Com precisos 140 toques!)


terça-feira, 13 de setembro de 2016

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

A hora de Marieke Vervoort



Marieke Vervoort, atleta belga de 37 anos, ganhou neste fim de semana a medalha de prata na prova de 400 metros de ciclismo de pista em cadeira de rodas, nos Jogos Paraolímpicos do Rio 2016. Ela já ganhou outras duas medalhas olímpicas.
Até aí nada demais, não fosse o fato de que Vervoort tem a metade inferior do corpo paralisada, a visão limitada a 20%, sente dores que a impedem de dormir noites a fio, além de ataques epiléticos. É portadora de doença degenerativa incurável e progressiva, sofrimento que se iniciou aos 14 anos de idade.
Vervoort informou que esta será a sua última participação nos Jogos Paraolímpicos. “Depois desta edição, quando eu sair daqui, irei desfrutar cada pequeno instante. Vou me voltar mais para a minha família e amigos, a quem não pude dedicar muito tempo, pois, sendo um esporte de competição, eu tinha de treinar todos os dias”.
Afirma Vervoort: “Já assinei a documentação [da eutanásia], mas ainda desfruto cada momento. Quando chegar a hora, quando os dias ruins foram em maior número do que os bons, para esse dia, já tenho a documentação para a eutanásia. Mas a hora ainda não chegou”.
Ela acrescenta: “Se eu não tivesse a documentação da eutanásia, creio que já teria me suicidado, porque é muito difícil viver com tanta dor e tanto sofrimento e sob essa incerteza”.
A eutanásia é reconhecida legalmente na Bélgica e a atleta tem a autorização para este ato desde 2008.
            Em meu ponto de vista, não se trata de algo que devamos considerar certo ou errado, pois o terrível sofrimento, é Marieke que o conhece e experimenta a cada dia, por longos anos. Em tais circunstâncias, é um direito da pessoa dispor sobre a própria vida.
            Também não se trata de mera opinião pessoal, o que é irrelevante diante da tragédia vivida por milhares de seres humanos mundo afora. A Bélgica, bem como outros tantos países, reconhecem este direito.


Foto: Mauro Pimentel /AP

Lautrec

Meus quadros favoritos.



Toulouse-Lautrec (1864-1901)

Vocação terrorista



Disse à mãe que ia para a Síria, como jihadista. Ela tentou impedi-lo. Então ele a estrangulou com uma corda.