terça-feira, 26 de julho de 2016

Sócrates e a capacidade de pensar


Extraído de “Trópicos utópicos”, de Eduardo Giannetti (1):

“A expressão de alívio de Sócrates – “Quantas coisas no mundo das quais não preciso!” – ao retornar de um passeio pelo mercado de Atenas.”

            Alívio mesmo sentiria Sócrates ao sair de uma visita a um de nossos shoppings modernos, sempre abarrotados de bugigangas, com suas vitrines reluzentes, liquidações irresistíveis, a virar a cabeça dos consumidores, tornando-os compradores compulsivos que abandonam a própria capacidade de pensar.
            Talvez seja esta a diferença fundamental entre Sócrates e o consumidor compulsivo: a capacidade de pensar.





segunda-feira, 25 de julho de 2016

Parabéns a Leandro Karnal ou A vida de cronista


           
             O homem, que se apresenta como historiador, é convidado a escrever crônica domingueira em O Estado de S. Paulo. Ele já é figura bem conhecida de um certo público que assiste suas conferências pela televisão e Internet, esteve no Roda Viva, porém escrever semanalmente no Estadão é outra coisa!
            Pois não é que Leandro Karnal, ao escolher o tema para sua primeira crônica, publicada ontem (24/7/2016), teve a coragem de confessar sua vaidade e seu medo diante de tremendo desafio. Assim inicia a crônica, cujo título é “Sobre a vaidade”:

“A vaidade é conselheira astuta. Seduz. Instiga. Ser colunista de um dos maiores jornais do país? Estar toda semana nas páginas do Estadão? Fazer parte de uma instituição que remonta a 1875? Claro! Você merece, Leandro. You’re the guy! O orgulho não precisa de esforço imenso: ele prega sobre o valor das bananas para macacos famintos. O sim interno foi imediato. Enfim, meu narciso se entregava, tépido, ao deleite das palavras: Colunista do Estadão.”

            E Karnal conclui de maneira magistral, diante do grande desafio, sabedor de suas responsabilidades:

“Minha felicidade nunca esteve nas ondas rasas. Sempre aceitei o jogo ambíguo do risco e do desafio. Um bom domingo a todos vocês!”

            Pois não é esta a essência mesma da crônica, tratar de algo bem atual? Mais atual do que vai pela alma do escritor em dado momento, impossível! Os sentimentos e emoções à flor da pele daquele que escreve: vaidade, medo, orgulho, o peso da responsabilidade, a opinião alheia, angústia, pavor.
            Às tantas o agora cronista faz referência à obrigação semanal. Penso que este seja o maior obstáculo para quem escreve: a obrigação de escrever. Porque de vez em quando o escritor não sente vontade de escrever. Ele não tem controle sobre isso, sobre o desejo de escrever, sobre o quê escrever ou não escrever, sobre um certo vazio que vez por outra lhe assalta o espírito, a ausência absoluta de ideias. Então, como escrever?
Karnal sabe disso e confessa: “Lembra-te de que és apenas um homem”. Que bom ter a consciência desta humana falibilidade! Fica mais fácil controlar o Narciso que reside em todos nós. Então o cronista pode escrever para o leitor e não apenas para si próprio.
            Porém, Karnal é obrigado a fazê-lo, semanalmente, reza o contrato, o que está bem próximo da tortura mental. Isso explica o fato de que até o grande Veríssimo, o maior cronista do país, vez em quando erra na mão, enche o texto de abobrinhas e borrachas, humano que é.
            Nesta primeira crônica Karnal escreve com esmero de conteúdo e forma; a continuar assim, haverá de acrescentar um prazer a mais às nossas manhãs de domingo, ao lado de Veríssimo e Hélio Schwartsman (na Folha de S. Paulo).
            Porém, convenhamos, vida de cronista não é fácil: a obrigação de escrever é quase desumana.

sábado, 23 de julho de 2016

Amarga vingança

O patrão recusou o aumento. Como vingança, ela deixou de tomar o vinho servido no almoço.

natureza amoral



poda radical
a natureza amoral
flor como resposta



Responde Paulo Sergio, com sua quadra de sempre:

Quanto mais se poda a planta,
mais a planta refloresce;
sofrimento que decanta
é vida nova que cresce.



Foto: A.Vianna, jul 2016, jardim.


sexta-feira, 22 de julho de 2016

Giannetti fundamental



            Eduardo Giannetti acaba de publicar “Trópicos utópicos – uma perspectiva brasileira da crise civilizatória”, livro que podemos chamar de fundamental. Sei que o ano ainda não acabou, mas provavelmente será o livro mais importante do ano!
            A edição da Companhia das Letras (2016) é bem cuidada, capa dura de muito bom gosto, cabeceado, etc.
            Segundo o autor, o objetivo da obra é “analisar os elos que nos ligam ao mundo e distinguir os traços que nos definem como nação, mas a partir de um olhar utópico e prospectivo.”
Logo na primeira seção do livro Giannetti delineia o plano da obra:

A tríplice ilusão. – O tempo decanta o passado. O que hoje está presente, ontem mal se antevia. O mundo moderno nasceu e evoluiu embalado por três ilusões poderosas: a de que o pensamento científico permitiria gradualmente banir o mistério do mundo e assim elucidar a condição humana e o sentido da vida; a de que o projeto de explorar e submeter a natureza ao controle da tecnologia poderia prosseguir indefinidamente sem atiçar o seu contrário – a ameaça de um terrível descontrole das bases naturais da vida; e a de que o avanço do processo civilizatório promoveria o aprimoramento ético e intelectual da humanidade, tornando nossas vidas mais felizes, plenas e dignas de serem vividas.”

            O que o autor chamou de microensaios, às vezes resumem-se a três ou quatro linhas:

Perante o leitor. – A palavra incita: decodifique-me; a frase pleiteia: creia-me; o parágrafo cobra: interprete-me; o livro roga: leia-me. O autor semeia, a leitura insemina.”

            Outro exemplo, tema insistentemente tratado neste blog:

Anatomia do impasse. – A impossibilidade intelectual de crer não suprime a necessidade emotivo-existencial da crença.”

            Este último aforismo dá o que pensar: ensina que a tolerância pode começar a partir de nós mesmos, no que se refere às nossas próprias convicções. Não nos peçam coerência o tempo todo.
            Outras vezes o ensaio chega na forma de uma parábola:

Falácia da indução. – O granjeiro por meses a fio veio pontualmente dar de comer à galinha, um belo dia torceu-lhe o pescoço.”

            Ou se apresenta como se fosse uma piada:

Pingue-pongue. – Quando Mahatma Gandhi desembarcou no porto de Southampton, no sul da Inglaterra, em 1931, a fim de participar de uma conferência sobre o futuro da Índia, um jornalista teria perguntado a ele: “O que o senhor acha da civilização ocidental?” E o líder indiano respondeu: “Acho que seria uma boa ideia.”


A par do brilhante conteúdo histórico, político, filosófico do livro, sua forma é impecável, literatura da melhor qualidade – ou não seria um livro fundamental.
Indispensável a leitura de Trópicos Utópicos nesse nosso mundo conturbado de hoje.

Praia em Paris

A foto do dia


Paris inaugura praia artificial às margens do Sena


quinta-feira, 21 de julho de 2016

Os Visitantes de Kucinski



O leitor pode viver uma experiência interessante quando, contemporâneo de um certo autor, é capaz de acompanhar desde o surgimento do seu primeiro livro até a publicação de obras subsequentes. Torna-se, o leitor, quase que um cumplice do escritor.
            Esta é a minha relação com Bernardo Kucinski. Em 2011 Kucinski lança seu primeiro romance com o intrigante e sugestivo título K., assim mesmo, a letra maiúscula seguida de um ponto. A segunda edição sai no ano seguinte pela Expressão Popular, e em seguida é reeditado pela Cosac Naify. O tema, os meandros da ditadura militar por volta de 1974, é desenvolvido de forma magistral, em particular pelo clima de angustiante terror criado pelo autor. Então, surge a dúvida no leitor, se K. origina-se de Kucinski ou de Kafka. (Há quem diga que depois de Kafka tudo vem de Kafka...) Grande sucesso de crítica e público.
            Em 2014, novamente pela Cosac Naify, Kucinski lança Você vai voltar para mim e outros contos, sobre o mesmo tema. As histórias curtas, com linguagem clara e simples, devem ser lidas aos poucos, para que não intoxiquem o leitor, tamanho o realismo com que são contadas. Mais uma vez, ficção e realidade se confundem, nessa tentativa de revisão histórica dos 50 anos do golpe de 64.
           No mesmo ano surge Alice, não mais que de repente (Rocco, 2014), um romance policial! Há quem torça o nariz para o gênero; não é o meu caso. Não que me considere um especialista nesse tipo de literatura; minhas leituras resumem-se a Edgar Alan Poe e Luiz Alfredo Garcia-Roza. Tomei gosto pelo gênero por causa deste último, um intelectual respeitadíssimo, autor de obras importantes em Psicologia, Filosofia e Psicanálise, e que depois de maduro publica pelo menos dez títulos tendo como protagonista o já célebre detetive Espinosa. Trata-se de literatura da melhor qualidade, e as histórias se passam no bairro do Peixoto, lugar pequeno, tradicional, encravado em Copacabana.
          Agora o autor, já conhecido e premiado, lança a interessantíssima novela Os visitantes (Companhia das Letras, 2016). O leitor fica com a impressão de que Kucinski ainda não se livrou de seu primeiro livro, K., de fato um relato muito forte dos anos de ditadura militar. Os personagens o assombram através de visitas que recebe em casa e o censuram, agressivas, cobrando uma posição do autor, que tem dificuldade para explicar que se trata de um livro de ficção.
Mas é mesmo difícil distinguir realidade de ficção. É disso que trata o autor neste último livro.
Espero continuar acompanhando sua brilhante trajetória literária ainda por algum tempo.