terça-feira, 21 de junho de 2016

Sangue e lágrimas

A foto do dia




descobriu o lençol
um buraco na cabeça
o corpo do filho


Minha homenagem a Sheila Cristina Nogueira da Silva, que chora a morte do filho Carlos Eduardo, 20 anos, com seu sangue no rosto, no dia 10 de junho, no Rio de Janeiro.

Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo



sábado, 18 de junho de 2016

Lagoa da Pampulha

A foto do dia



Foto: Paulo Sergio Viana, jun 2016, Belo Horizonte

Lições de vida


            Lançado pela Objetiva em 2015, só agora me cai nas mãos, presente do amigo Leopoldo, uma pequena joia, o livrinho (oitenta e poucas páginas) intitulado Sete breves lições de física, de Carlo Roveli, tradução de Joana Angélica d`Ávila Melo.
            Escrito em linguagem deliciosa, o autor escreve para leigos em física, e torna (quase) compreensíveis os conceitos fundamentais desta disciplina, estabelecidos a partir do início do século XX.
Os títulos das sete lições falam por si mesmos: A mais bela das teorias, Os quanta, A arquitetura do cosmo, Partículas, Grãos de espaço, A probabilidade, o tempo e o calor dos buracos negros, e por último, Nós.
A conclusão apresentada por Roveli relaciona Ciência e Filosofia de modo brilhante:

“À medida que nosso conhecimento cresceu, fomos aprendendo cada vez mais esta noção de sermos parte, e pequena parte, do universo. Isso aconteceu já nos séculos passados, mas cada vez mais no último século. Pensávamos estar sobre o planeta no centro do cosmo, e não estamos. Pensávamos ser uma raça à parte, na família dos animais e das plantas, e descobrimos que somos descendentes dos mesmos genitores de que descende qualquer outro ser vivo ao nosso redor. Temos tataravós em comum com as borboletas e com os pinheiros. Somos como um filho único que cresce e aprende que o mundo não gira somente ao seu redor, como ele pensava quando era pequeno. Ele deve aceitar ser um entre os outros. Ao nos espelharmos nos outros e nas outras coisas, aprendemos quem somos.”

            Leitura imprescindível nesse começo de século XXI.

A força do desejo

Os responsáveis de Orlando é o título da crônica de Contardo Calligaris na Folha de S. Paulo (16/06/2016), sobre o ocorrido numa boate da Flórida na madrugada de domingo passado. Um homem armado de fuzil semiautomático matou 49 pessoas e feriu 53.  
            Primeiro surgiu a história de que se tratava de um homofóbico furioso. Depois, soube-se que o assassino era frequentador assíduo da boate Pulse e que era usuário de aplicativo para encontros da comunidade gay.
            A explicação básica para o fenômeno psicológico, quem nos dá com clareza e simplicidade é Calligaris:

“Há uma regra básica para a qual nunca encontrei exceções, em mais de 30 anos de clínica. Claro, qualquer um pode discordar do desejo e da conduta sexual de outros; mas quando alguém se sente compelido a agir para impedir ou punir uma conduta sexual diferente da sua é que, de fato, ele está tentando reprimir seu próprio desejo de se engajar nessa conduta diferente. Quem agride, abusa ou tenta inibir os membros de uma minoria sexual está tentando reprimir nele mesmo um desejo que, às vezes, ele nem sequer consegue reconhecer.
É sempre assim: só odiamos a diversidade que detestamos ou receamos em nós mesmos. Um indivíduo sai atirando para matar algo que está dentro dele e que ele não sabe mais como silenciar.”

            Há um outro detalhe interessante nessa trama. É a declaração do pai do assassino: afirmou que o filho não precisava matar os homossexuais porque ao final eles seriam punidos, ganhando o inferno. Que efeito uma ideia como esta teria na mente do filho, um homossexual enrustido? O que ele poderia fazer com o desejo tão forte dentro de si? Matar-se?
Optou por matar inocentes e morrer com eles.
A Psicanálise introduziu um novo conceito a respeito do comportamento psicótico; penso que se aplica bem aos “terroristas” de modo geral. Daí nossa dificuldade para compreender as atitudes deles, preferindo rotulá-los como terroristas.





quarta-feira, 15 de junho de 2016

Mais um inédito de Pessoa

Poema inédito de Fernando Pessoa, escrito em 1918, foi descoberto na última página de um diário. José Paulo Cavalcanti, maior colecionador de textos de Pessoa, recebeu de um antiquário a oferta do diário de viagens.
            O poema:

Cada palavra dita é a voz de um morto.
Aniquilou-se quem se não velou
Quem na voz, não em si, viveu absorto.
Se ser Homem é pouco, e grande só
Em dar voz ao valor das nossas penas
E ao que de sonho e nosso fica em nós
Do universo que por nós roçou
Se é maior ser um Deus, que diz apenas
Com a vida o que o Homem com a voz:
Maior ainda é ser como o Destino
Que tem o silêncio por seu hino
E cuja face nunca se mostrou.

            Para regalo dos amantes da poesia, outros inéditos de pessoa estão por vir.




terça-feira, 14 de junho de 2016

Auvers-sur-Oise

Da série
Primavera em Paris


Charmes de Cordeville
à Auvers-sur-Oise

van Gogh

Foto: A.Vianna, mai 2016.


Noite estrelada

Da série 
Primavera em Paris


A noite estrelada
van Gogh

Foto: A.Vianna, mai 2016.

Oikopleura dióica


Uma fêmea de Oikopleura dioica cheia de ovos


A reportagem de Manuel Ansede no El País de ontem (13/6/2016) traz o péssimo título O bichinho que desafia Deus, mas é interessantíssima. O trabalho foi publicado na revista Nature Reviews Genetics e começa com uma frase do imperador romano Marco Aurelio: “A perda nada mais é do que mudança, e a mudança é um prazer da natureza”.
Os biólogos Ricard Albalat e Cristian Cañestro afirmam: “Temos sido mal influenciados pela religião, pensando que estávamos no topo da evolução. Na verdade, estamos no mesmo nível que o dos outros animais.” Ambos dirigem um dos únicos três centros científicos do mundo dedicados ao estudo do Oikopleura dioica, (os outros dois estão na Noruega e no Japão), na Faculdade de Biologia da Universidade de Barcelona.
Eis o grande destaque da reportagem: “O organismo marinho Oikopleura dioica indica que a perda de genes ancestrais, compartilhados com os humanos, seria o motor da evolução.”
Até agora pensava-se que evoluir implicava em ganhar complexidade, adquirindo genes. “A maioria de nossos genes está também nas medusas. Nosso ancestral comum os possuía. Não que tenhamos ganhado genes; eles é que perderam. A complexidade genética é ancestral”, diz Cañestro.
O Oikopleura, vivendo nos oceanos desde 500 milhões de anos, perdeu 30% dos genes. E fez isso com sucesso.
Albalat e Cañestro afirmam que “a perda de genes pode inclusive ter sido essencial para a origem da espécie humana. O chimpanzé e o ser humano compartilham mais de 98% do seu genoma. Talvez tenhamos que procurar as diferenças nos genes que foram perdidos de maneira diferente durante a evolução dos humanos e dos demais primatas. Alguns estudos sugerem que a perda de um gene fez com que a musculatura de nossa mandíbula ficasse menor, o que permitiu aumentar o volume do nosso crânio. Talvez, perder genes nos tornou mais inteligentes que o resto dos mortais.”
            O Louco confessa mais uma vez sua paixão pela Evolução das Espécies (antigamente conhecida por Teoria da Evolução das Espécies).


Foto: Cañestro & Albalat Lab