quarta-feira, 15 de junho de 2016

Mais um inédito de Pessoa

Poema inédito de Fernando Pessoa, escrito em 1918, foi descoberto na última página de um diário. José Paulo Cavalcanti, maior colecionador de textos de Pessoa, recebeu de um antiquário a oferta do diário de viagens.
            O poema:

Cada palavra dita é a voz de um morto.
Aniquilou-se quem se não velou
Quem na voz, não em si, viveu absorto.
Se ser Homem é pouco, e grande só
Em dar voz ao valor das nossas penas
E ao que de sonho e nosso fica em nós
Do universo que por nós roçou
Se é maior ser um Deus, que diz apenas
Com a vida o que o Homem com a voz:
Maior ainda é ser como o Destino
Que tem o silêncio por seu hino
E cuja face nunca se mostrou.

            Para regalo dos amantes da poesia, outros inéditos de pessoa estão por vir.




terça-feira, 14 de junho de 2016

Auvers-sur-Oise

Da série
Primavera em Paris


Charmes de Cordeville
à Auvers-sur-Oise

van Gogh

Foto: A.Vianna, mai 2016.


Noite estrelada

Da série 
Primavera em Paris


A noite estrelada
van Gogh

Foto: A.Vianna, mai 2016.

Oikopleura dióica


Uma fêmea de Oikopleura dioica cheia de ovos


A reportagem de Manuel Ansede no El País de ontem (13/6/2016) traz o péssimo título O bichinho que desafia Deus, mas é interessantíssima. O trabalho foi publicado na revista Nature Reviews Genetics e começa com uma frase do imperador romano Marco Aurelio: “A perda nada mais é do que mudança, e a mudança é um prazer da natureza”.
Os biólogos Ricard Albalat e Cristian Cañestro afirmam: “Temos sido mal influenciados pela religião, pensando que estávamos no topo da evolução. Na verdade, estamos no mesmo nível que o dos outros animais.” Ambos dirigem um dos únicos três centros científicos do mundo dedicados ao estudo do Oikopleura dioica, (os outros dois estão na Noruega e no Japão), na Faculdade de Biologia da Universidade de Barcelona.
Eis o grande destaque da reportagem: “O organismo marinho Oikopleura dioica indica que a perda de genes ancestrais, compartilhados com os humanos, seria o motor da evolução.”
Até agora pensava-se que evoluir implicava em ganhar complexidade, adquirindo genes. “A maioria de nossos genes está também nas medusas. Nosso ancestral comum os possuía. Não que tenhamos ganhado genes; eles é que perderam. A complexidade genética é ancestral”, diz Cañestro.
O Oikopleura, vivendo nos oceanos desde 500 milhões de anos, perdeu 30% dos genes. E fez isso com sucesso.
Albalat e Cañestro afirmam que “a perda de genes pode inclusive ter sido essencial para a origem da espécie humana. O chimpanzé e o ser humano compartilham mais de 98% do seu genoma. Talvez tenhamos que procurar as diferenças nos genes que foram perdidos de maneira diferente durante a evolução dos humanos e dos demais primatas. Alguns estudos sugerem que a perda de um gene fez com que a musculatura de nossa mandíbula ficasse menor, o que permitiu aumentar o volume do nosso crânio. Talvez, perder genes nos tornou mais inteligentes que o resto dos mortais.”
            O Louco confessa mais uma vez sua paixão pela Evolução das Espécies (antigamente conhecida por Teoria da Evolução das Espécies).


Foto: Cañestro & Albalat Lab


segunda-feira, 13 de junho de 2016

Lain Steward

Meus quadros favoritos


Belíssima aquarela!

Rua dos Bacalhoeiros

Perguntaram a Ruy Castro de que mais gostava em Portugal, e como sua resposta coincide com a minha, veio-me à lembrança antiga experiência vivida em Lisboa, em companhia de meu pai.
            Ruy responde:
"A delicadeza da língua. É algo que um brasileiro percebe aqui a todo momento. Um jeito poético de nomear as coisas — uma delicadeza que veio do passado. Está nos nomes dos objetos, dos materiais, dos alimentos, das cidades e, principalmente, das ruas.
Como as ruas em homenagem aos titulares de tantas profissões: rua dos Arameiros, dos Sapadores, dos Fanqueiros, dos Douradores, dos Correeiros, dos Ladares, dos Sapateiros, dos Actores, dos Bacalhoeiros. Ou as ruas da Esperança, das Farinhas, do Terreirinho e, mais famosas, a das Flores, a do Ouro e a da Prata. E a do Sol ao Rato? E a do Poço dos Negros? E a das Janelas Verdes?”
             Fomos a Lisboa com meu pai. Ele já conhecia Portugal e adorava o país, principalmente pela “facilidade da língua”, dizia ele, sempre bem humorado. Observava tudo com entusiasmo, contando e recontando os mesmos acontecimentos, como aquele em que perguntou a um gajo como chegar ao Mosteiro dos Jerônimos, e ouviu a exata resposta, Tomas este bonde e ao chegar ao ponto final, é lá, o Mosteiro dos Jerônimos.
Meu pai, nada exigente, ao longo de toda a viagem fazia apenas um pedido, que fôssemos comer um bacalhau na Rua dos Bacalhoeiros! Lá fomos nós, e não foi difícil encontrar o “famoso” logradouro, rua estreita, singela, ladeada por casas comerciais decadentes, pouca freguesia. Enfim, chegamos ao pobre restaurante.
O aspecto não era de muito asseio, as pequenas mesas recobertas por toalhas de plástico desgastadas pelo uso, pratos e talheres rústicos, copos de água para servir o vinho. Sentamos, pedimos uma garrafa de vinho verde, que ao ser aberto, revelou-se completamente estragado. O dono da casa que nos servia trouxe outra garrafa, agora em perfeito estado.
Pedimos o bacalhau – só havia uma escolha, assado, com batatas.
Enquanto esperávamos a comida, de repente um estrondo! Aguaceiro escorrendo, a impressão de que uma barragem havia se rompido e que o restaurante seria inundado, melhor dizendo, submerso, em poucos minutos. Era o barulho da descarga do pequeno banheiro, bem próximo de nossa mesa. Assustamos, mas o proprietário logo nos acalmou:
– Não é nada, apenas o autoclismo.
Respiramos aliviados, até que chegou o bacalhau. No céu não haverá melhor!


O sonho de Horowitz

   Vladimir Samoylovych Horowitz nunca tocou Beethoven.
            Em sua juventude, sonhou que o Mestre aparecia-lhe carrancudo, vociferante, brandindo nas mãos a partitura de uma de suas sonatas para piano, e dizia:
            – Você jamais será um virtuose!
            Horowitz tornou-se um virtuose, um dos maiores do século XX.

Especialista nos românticos, ele jamais tocou Beethoven.

Aldravia n. 30



atrasada
bela
a
flor-de-maio
está
perdoada


Foto: A.Vianna, junho 2016

Massacre em Orlando

A foto do dia


Homenagem aos mortos no massacre em Orlando.

Foto: AP

Silêncio

Se a velhice não puder ensinar o cultivo do silêncio, é porque o velho tornou-se um tolo.