quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Metáfora tomada ao pé-da-letra



A notícia é engraçada, mas dá o que pensar.
O museu italiano Museion Bozen-Bolzano (Museu de Arte Contemporânea) exibia a instalação "Dove andiamo a ballare questa sera?" [Onde iremos bailar esta noite?], das artistas Goldschmied & Chiari.
A obra, mostrada na fotografia acima, era constituída por pontas de cigarro, garrafas de champanhe vazias, confete, serpentinas e outros artigos de festa.
Descrevendo melhor, o aspecto era de fim de festa!
            Segundo informações da diretora do museu, Letizia Ragaglia, a obra representa a "era da abundância" da Itália dos anos 1980, “período de consumismo, especulação financeira, o advento da TV comercial e muitas festas”.
            Nas palavras das próprias artistas: "Nós éramos crianças durante a década de 1980, um período de consumismo, hedonismo, especulação financeira, mídia de massa, políticas socialistas e festas".
            Bem, mas vamos ao que parece ser uma piada. No último sábado (24/10), ao chegar para o trabalho noturno habitual, um faxineiro do museu pensou que se tratava de restos de uma comemoração da noite anterior, limpou tudo muito bem limpo (até separou os componentes por material), e jogou tudo no lixo!.
            A segunda parte da “piada”: os responsáveis pelas obras de arte do museu foram ao lixo, cataram todo o material, e restauraram a obra de arte!
Ou seja, a metáfora do fim de festa foi levada ao pé-da-letra pelos funcionários de limpeza. E o significado de uma obra de arte nunca pode ser tomado ao pé-da-letra, dirão os “entendidos” em arte.
Provavelmente a instalação ganhará fama internacional a partir de agora, passando a constar até mesmo em livros de arte.




terça-feira, 27 de outubro de 2015

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

íris azuis



manhã de surpresas
abrem-se as flores azuis
com a noite de chuva


Foto: A.Vianna, out 2015, jardim.

alegria no céu



– cientistas encontram álcool e açúcar em cometa.

– se a gente leva o limão, está pronta a caipirinha...

sábado, 24 de outubro de 2015

Outros haicais de Alice Ruiz


Em seu novo livro, Outro silêncio: haikais (Boa Companhia, 2015), Alice Ruiz S prossegue na exitosa divulgação deste tipo de poesia, que segundo a própria autora, tem aceitação cada vez maior em nosso país.
            Na apresentação do livro, ao referir-se à filosofia do haicai (prefiro esta grafia à da autora), Alice afirma:

“Basicamente se descreve uma cena observada na natureza. Essa cena é tão rica de significados que, em alguns casos, ela pode nos oferecer um bom haikai mesmo que o espírito não tenha se depurado para recebê-lo. Mas, nesse caso, podemos deixá-lo escapar, e é por isso que precisamos nos aprimorar para virar bons instrumentos de fazer haikai.”

            A ideia da autora é interessante e bastante original se aplicada à poesia. W. R. Bion (1897 – 1979) afirmou que os pensamentos existem previamente, e permanecem à espera de alguém que os pense. Em outras palavras, podemos supor que os haicais estão prontos na natureza. Se nosso aparelho de pensar – que ela chama de “instrumento de fazer haicai” – está habilitado para captá-los, então eles podem ser registrados no papel. É mais uma questão de educar o espírito.
            Prossegue Alice:

“É assim que se sentem aqueles que veem o haikai como uma das várias práticas zen. Não o zen que virou moda. Ouve-se falar aleatoriamente de estilo zen, penteado zen, decoração zen e uma série de outras “banalidades” zen. Esse é apenas um truque do sistema para neutralizá-lo, pois percebeu o quanto ele pode ser subversivo, na medida em que nos torna livres do “eu” – ou “ego”, se preferirem – e de seus desejos.”

            A grande maioria das composições do livro não obedece à métrica tradicional do haicai observada no Brasil, com 5 – 7 – 5 sílabas em cada um dos três versos. O que é indispensável para a autora, além dos três únicos versos, é que o haicai tenha haimi, “palavra de difícil tradução mas que se convencionou verter para “sabor de haikai”. Para percebê-lo, é preciso que o haijin e o leitor estejam em perfeito silêncio interior.”

            E conclui Alice Ruiz S, de forma poética:

“Talvez a poesia de qualquer parte do mundo seja, apenas, outro silêncio.”

            Eis alguns haicais do livro, todos sem título, como manda a tradição japonesa.

silêncio na mata
a mariposa pousa na flor
outro silêncio



coquinho maduro
volta a ser verde
cacho de maritacas



pé da serra
na barra da calça
respingos de barro



folha seca
voa de volta ao galho
pé de vento


Em suma, Alice recomenda a todos nos a prática do haicai. Em silêncio!

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

A fuga diária

A foto do dia



Refugiados, escoltados pela polícia, passam pela Eslovênia.

Foto: Darko Bandic, AP (O Estado de S. Paulo)

arquitetura

da série
anavilhanas




no chão arenoso
cresce a árvore gigante
outra arquitetura



Foto: A.Vianna, out 2015.