segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Palpite infeliz!


“Quem é você
que não sabe o que diz?
Meu Deus do Céu,
que palpite infeliz!”

            Aproprio-me do famoso samba de Noel para comentar a crônica de Adriana Carranca na Folha do último sábado (22/8).
            Devo confessar que a articulista me fisgou pelo título “O Islã precisa de um papa”! Ela enumera com minúcia os atos terroristas praticados em nome do Islã, desde o 11 de setembro até os ataques mais recentes do Estado Islâmico – EI, incluindo o massacre ao Charlie Hebdo, a decapitação do arqueólogo de 82 anos Khaled Asaad, a destruição sistemática do patrimônio histórico no Oriente Médio.
            No penúltimo parágrafo da crônica, Adriana faz curtíssima menção à barbáries cometidas em nome do cristianismo, incluindo a corrupção no Vaticano e os padres pedófilos. Admite que “muitos papas no passado acobertaram os crimes da Igreja Católica”. Ela acredita que tudo será redimido pelas ações do papa Francisco, “que parece trilhar outro caminho”. (O que até parece ser verdade!)
            Ao concluir seu texto ela acrescenta:

“É nesse sentido que os muçulmanos talvez precisem de um papa. Não se trata de desculpar-se pelo EI, mas de contradizer sua falsa narrativa do Islã. Falta-lhes uma voz com poder de influenciar tanto as massas quanto os dignatários do poder, que represente a pluralidade dos muçulmanos e seja capaz de defender a fé que a maioria considera pacífica. E que seja um moderado. Inshallah.”

            A isso chamei de palpite infeliz!
            O que Adriana parece sugerir é que o Islã adote, a partir de agora, a organização e a estrutura política da Igreja Católica, que, convenhamos, foi mesmo um “sucesso”, pois sobrevive há 2.000 anos. Mas, e os desmandos de 2.000 anos? E as guerras em nome da fé? E as Cruzadas contra os infiéis? E a Inquisição, particularmente a espanhola? E o conluio com os nazistas? E, de fato, os padres pedófilos, acobertados por seus superiores, incluindo papas?
            O que Adriana recomenda é a infantilização dos muçulmanos, que deveriam seguir à risca as determinações de um infalível Pai-Todo-Poderoso, representante de um certo deus aqui na Terra. Mesmo que esteja mais que comprovado – e é ela quem o afirma – que tal representante seja tão falível quanto qualquer ser humano, humano que ele é!
            O que qualquer um de nós precisa, independentemente de nossa crença ou não-crença, é aprender a pensar, cada um com seu próprio aparelho de pensar, sem cartilhas ou bíblias, logo que nos vemos livres do jugo paterno. A partir daí, cada um de nós torna-se responsável pela própria educação, indispensável para a vida em sociedade.

Em pleno séc. XXI, esperamos que cada indivíduo possa adotar o pensamento científico – mesmo que imperfeito, incompleto, sempre inacabado, em permanente evolução, em busca de uma verdade que jamais será encontrada, e por isso mesmo sujeito a tantas críticas – em vez do pensamento religioso, mágico, infantil, característico dos primórdios da humanidade.

domingo, 23 de agosto de 2015

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Aniversário de Cora Coralina


Em 20 de agosto de 1889 nasceu Cora Coralina, recebendo o nome de Ana Lins de Guimarães Peixoto Bretas, na Cidade de Goiás.
Penso que não poucos intelectuais desaprovam sua poesia, talvez classificando-a como ingênua demais, pobrinha mesmo, afeita apenas às coisas pequenas do cotidiano. É possível que seja esta a razão pela qual o Estadão publica, no aniversário da poeta, alguns depoimentos de contemporâneos de reconhecida estirpe, sobre ela.
Eis um resumo desses comentários:

Flávio Carneiro: “...a visitei quando tinha uns 20 e poucos anos, já morava no Rio e estava para publicar meu primeiro livro. Ela me perguntou o que era mais importante pra um escritor e respondi, apressado: publicar. Ela então me disse: não, o mais importante pra um escritor é escrever.”

André de Leones: “...eu me lembro da sensação agridoce causada por versos como: "Faz da tua vida mesquinha / um poema". ...os versos de Cora Coralina falam baixo, remetendo a paisagens familiares, mas de maneiras que nos fazem observá-las de novo e de novo, como se fôssemos forasteiros.”

Ignácio de Loyola Brandão: “O chamado fenômeno Cora Coralina é simples. Os talentos são naturais, acontecem, estejam onde estiverem. São vulcões que entram em erupção de um momento para o outro. Às vezes são descobertos. Outras vezes, não. Cora Coralina, Manoel de Barros. Fenômenos da natureza da literatura. Não são fabricados, são pedra bruta, são pureza.”

Armando Freitas Filho: “O fenômeno de Cora Coralina só pode ser bem entendido, a meu ver, quando se sente no que ela escreveu, o sentimento popular do seu lugar e do seu modo de expressar, o que sua vida ali, em ligação direta, soube captar e transcender.”

Mariana Ianelli: “Foi poeticamente tão madura e consciente da sua autenticidade que chegava a ser marota quando se auto-definia “cultivadamente rude”. Rude porque seu léxico exuberante, sua poesia ritmada, sua atmosfera de estórias de antigamente, de uma gente e uma Goiás “de dantes”, têm fonte fora dos livros, no barro das coisas, na experiência de ter posto a mão na vida ao longo do tempo, como, doceira que era, também punha a mão na massa.”

Fabrício Carpinejar: “Ela conseguiu trazer um público novo para a poesia. Aliás, ela tem dois públicos fiéis: o que gosta de poesia, porque ela é uma poeta que fala de poesia, e o que gosta da simplicidade – e que cultua o interior, a casa, o beco, o imperfeito, a vida devagar. Ela conseguiu algo muito difícil na poesia, que é a comunicabilidade e a expressividade. Uma poeta que mistura vida e obra, perfeitamente.”

Henrique Rodrigues: “A existência de Cora Coralina é uma vitória da poesia sobre o tempo. Se ela tivesse participado da Semana de 22 – o marido a proibiu –, creio que teria entrado para a história da literatura brasileira bem antes.”

Marina Colasanti: “O sucesso da sua poesia se deve menos à forma do que à fonte de que emanava, mais ao testemunho do que às palavras, mais à mulher forte e admirável que ela foi do que à poeta.”

Wesley Peres: “O grande elogio de Drummond foi sobre Cora, e não sobre sua hora. Esperto que era, ele disse que Cora é a pessoa mais importante de Goiás, mais importante do que o governador.”

Raimundo Carrero: “Tudo isso emerge de sua solidão e da convivência com o silêncio cheio de encanto e de doçura. A sua linguagem vem da inquietação desses ambientes que parece envolver os seus leitores .”

Antonio Carlos Secchin: “Cora Coralina é exemplo do que a “poesia espontânea”, sem o lastro de outras leituras, consegue produzir. Talentosa, escreveu bons poemas, mas circunscritos, conforme nota de um seu editor, aos “objetos imediatos e caseiros”.

Ramon Nunes Mello: “O que me encanta em Cora Coralina é a simplicidade. A cada dia compreendo que a sabedoria (o verdadeiro saber) está intimamente ligado à humildade. Cora preservou a virtude da humildade, caracterizada pela consciência das próprias limitações. E assim, alcançou o estado de graça com sua poesia, para retratar o sentimento do seu povo.”

Dirce Waltrick do Amarante: “A coisa mais interessante da Cora Coralina que li foi aquele longo poema “épico” sobre o milho, pois tem muitas ressonâncias míticas, remetendo, por exemplo, ao “Popol Vuh”, sem falar que é ecologicamente um marco contra as nossas sementes manipuladas de hoje.

            Como não me considero um intelectual, longe disso, haja vista a existência deste Louco por cachorros, sinto-me livre para gostar de Cora Coralina. Que, diga-se de passagem, continua viva!
            Primeira estrofe de Os aborrecimentos de Aninha:

Meus vestidos de menina...
pregados – saia e corpo.
Abotoados na cacunda.
Pala rodeada de babados
que eu mordiscava, mascava,
estragava. Mãe ralhava.
Falta de cálcio, vitamina, alimentação,
leite ovos, esclarecida depois do tempo.
Vício, dizia a casa. Filha de velho doente.
Em Vintém de cobre –
Meias confissões de Aninha.



quinta-feira, 20 de agosto de 2015

"Leitura Liberta"


Eis que em meio a tanta desgraça, tanta notícia ruim, tanto desalento quanto aos prometidos investimentos em Educação nesse país, surge o interessantíssimo projeto intitulado “Leitura Liberta”, uma iniciativa da juíza Denise Pedrosa Torres, titular da 1ª Vara de Zé Doca, que institui a remição de pena através da leitura.
A magistrada reconhece que a leitura contribui para o processo de reinserção social do apenado, além de oferecer a ele novos valores éticos e morais. Podem participar os presos com capacidade para leitura e escrita.
Cada participante recebe uma obra literária e tem 30 dias (prorrogáveis por mais 30) para a elaboração de um trabalho final, que consiste em redação, um relatório de leitura ou resumo a respeito do livro, com o mínimo de uma folha e o máximo de três folhas. A remição da pena será de 4 dias para cada relatório de leitura apresentado. Assim, em um ano, o custodiado terá a possibilidade de reduzir sua pena em até 48 dias.
O projeto inclui ainda a criação de Oficinas de Leitura, com vistas ao incentivo à leitura e ao desenvolvimento da escrita como forma criativa de expressão. Os funcionários da unidade prisional e colaboradores poderão participar dessas atividades.
            Trata-se, portanto, de investimento no ser humano, naquilo que ele tem de mais precioso, o ato de educar-se.



quarta-feira, 19 de agosto de 2015

"Morreste-me"


  
                 Somente agora a editora Dublinense publica (2015) o primeiro livro escrito pelo  português José Luís Peixoto, originalmente lançado em Portugal no ano 2000, e que revelou este que é hoje o premiadíssimo autor.
            A prosa poética de Peixoto tem início pelo próprio título da obra:

Morreste-me

            Só os portugueses seriam capazes desta surpreendente e bela construção verbal!
            O livro trata da morte do pai, uma homenagem que certamente fez parte do processo de superação do luto pelo autor. (Mais uma vez, e não se cansa de repetir, este blogueiro faz referência à função terapêutica da escrita.)
            Eis uma pequena amostra do texto:

“E pensei não poderiam os homens morrer como morrem os dias? Assim, com pássaros a cantar sem sobressaltos e a claridade líquida vítrea em tudo e o fresco suave fresco, a brisa leve a tremer as folhas pequenas das árvores, o mundo inerte ou a mover-se calmo e o silêncio a crescer natural natural, o silêncio esperado, finalmente justo, finalmente digno.”

            A maneira como o autor encerra seu relato é belíssima e revela enorme paz de espírito:

“Eras um pouco muito de mim. Descansa, pai. Ficou o teu sorriso no que não esqueço, ficaste todo em mim. Pai. Nunca esquecerei.”

            Quando podemos sentir de verdade que aquele que parte permanece dentro de nós, este o maior alívio, o maior amparo possível diante da perda de um ente querido.