Aos
80, chantageado por um garoto de programa, disse à mulher que iria comprar
cigarros. Suicidou-se na pracinha, com um tiro no coração.
domingo, 26 de julho de 2015
Pensamento mágico
Nem mesmo em se tratando de matéria política os nossos meios de
comunicação e seus respectivos jornalistas nos contam toda a verdade. Se nos
revelam alguma verdade, já devemos nos dar por satisfeitos.
Há sempre múltiplos
interesses em jogo, ocultos, especialmente os financeiros. Para não perder
patrocinadores, incluindo os oriundos dos cofres públicos (nosso dinheiro!), se
a verdade não é completamente omitida, é escamoteada de tal forma que se torna
irreconhecível aos olhos menos avisados.
Temas considerados
tabus são evitados ao máximo, com receio de afugentar leitores. Até mesmo
articulistas de peso, intelectuais de valor reconhecido, preferem repetir o
óbvio que agrada ao leitor que não deseja pensar, em vez de apresentarem juízo
crítico construtivo sobre algum tema polêmico. Figuram entre os temas
considerados tabus a morte e a vida depois da morte, as crenças e superstições
de modo geral (incluindo a astrologia, presente diariamente em nossos melhores
jornais), o chamado pensamento mágico, tão bem descrito por Freud em Totem e
Tabu. São heranças que trazemos até hoje do homem mais primitivo.
Quando vemos Drauzio
Varella, na Folha de S. Paulo de ontem (25/7), escrever sobre o pensamento
mágico, de forma clara e corajosa, damo-nos conta de como isso é raro em nossa
mídia.
Varella inicia sua
crônica descrevendo a “cura” de uma senhora que mal andava, e que agora sai
toda serelepe diante das câmeras, para a graça de Deus, sob aplausos da plateia
e do pastor, naturalmente.
Afirma Varella:
“Feiticeiros,
xamãs, videntes, santos milagreiros e charlatães de toda espécie manipulam as
inseguranças humanas diante da incapacidade de moldarmos o mundo segundo nossa
vontade, do medo da decadência física, do desconhecido e da contradição imposta
pela morte. A ideia de que um dia fecharemos os olhos para retornar ao nada que
existia antes de nascermos é insuportável para a maioria esmagadora da
humanidade. Para escapar dos becos que nos parecem sem saída, nós nos agarramos
ao vai dar tudo certo, ao tenha fé em Deus. O pensamento mágico ignora as
evidências contrárias, ainda que estejam a um palmo de nós; nossos desejos
serão realizados por um toque da varinha de condão.”
E Varella complementa:
“O
pensamento mágico está por trás das poções que tanta gente ingere com o
propósito de manter boa saúde e curar males que vão do resfriado ao mal de
Alzheimer. São chás de todos os tipos, vitaminas compradas a preço de ouro e
uma variedade de receitas tão diversificadas quanto a imaginação humana
consegue criar. Muitas delas prescritas por profissionais que receberam o
diploma de médico.”
A expressão pensamento
mágico é utilizada para descrever a crença segundo a qual certos
pensamentos, por si mesmos, acarretariam a realização de desejos; mais que
isso, funcionariam como preventivos para acontecimentos funestos ou desagradáveis.
Este tipo de pensamento é típico da infância, e nos adultos sugerem, no mínimo,
um sintoma de imaturidade. O que facilita a exploração dos incautos pelos
espertalhões...
Freud, no magistral Totem e Tabu (1913), estuda a origem e a importância do
pensamento mágico no desenvolvimento psíquico da humanidade, e demonstra que
grande parte desta forma de pensamento persiste na vida moderna, sob diversas
formas, algumas delas abordadas por Drauzio Varella em sua crônica.
E nosso corajoso articulista conclui:
“A
única saída para formarmos gerações de mulheres e homens menos crédulos é
ensinar ciência e os princípios básicos do pensamento científico já na escola
primária.”
Suponho
que este também fosse o desejo de Galileu Galilei (1564-1642). Este tempo
chegará?
sexta-feira, 24 de julho de 2015
quarta-feira, 22 de julho de 2015
Barbárie
A estátua assíria foi esculpida no VII século
a.C. (a foto é de 1850).
Foi recentemente destruída pelo Estado Islâmico.
segunda-feira, 20 de julho de 2015
Cemitério de passarinhos, um poema!
Há
um cemitério de passarinhos na Ilha de Paquetá.
Dizem
que é único no mundo.
Mais
parece um poema de Manoel de Barros.
Teclado versus Letra de mão
O
caderno “Cotidiano” da Folha de S. Paulo deste domingo (19/7) traz duas
matérias aparentemente antagônicas, que chamaram minha atenção por razões que
explicitarei mais à frente.
Na primeira delas, a notícia do fim
do ensino da letra cursiva no ensino fundamental na Finlândia. A repórter
Patrícia Pereira reproduz as ideias de uma diretora de escola de Helsinque:
“...o ensino da letra de mão demanda muito tempo e causa frustração nos alunos.
Queremos incentivar a escrita criativa, e que a criança não se preocupe tanto
com a técnica, mas com o conteúdo.” A caligrafia será substituída por aulas de
computação a partir do próximo ano.
A segunda matéria, de Estêvão
Bertoni, com o sugestivo título “à mão”, informa que em São Paulo, “na
contramãletra de mãoo da tecnologia, calígrafos dão toque vintage a cartazes,
tatuagens e até cartas de amor.” Andréa trocou a pedagogia pela caligrafia e
afirma que “existe uma paixão na moçada de hoje, principalmente em designers
gráficos e publicitários, de fazer a letra, de descobrir esse prazer de
escrever e de usar instrumentos e tintas diferentes. A caligrafia é
extremamente relaxante. Você pode dar novas roupagens às letras, criar uma
fonte, digitalizá-la e disponibilizá-la mundialmente.” (Olha o computador
aí...) Segundo
Beatriz Modolin, analista de tendências, “há um sentimento de nostalgia do
tempo em que não havia tantas telas nos rodeando”.
Será
possível cotejar as experiências da Finlândia e de São Paulo, terras tão
distantes, culturas tão diferentes? Penso que sim, no mundo globalizado em que
vivemos. Será que a vez dos calígrafos finlandeses há de chegar? Os
computadores ou tablets chegarão algum dias para todos os alunos de nossas
escolas públicas?
Não
tenho respostas para estas e tantas outras questões cabíveis. (Apenas fico
pensando nos extensos manuscritos de Leonardo da Vinci, Machado de Assis,
Sigmund Freud e Manoel de Barros, para os quais nunca faltou criatividade...)
Passo
a relatar duas experiências pessoais que me são gratas, ligadas ao tema, e que
justificam minha opinião sobre o mesmo. Há mais de 30 anos, numa condição de
penoso isolamento, distante de meu país, submetido a intenso, permanente e
prolongado stress, o que ajudava a suportar o cotidiano era o ato de escrever
cartas à mão. À noite, deixava por alguns instantes o computador (novidade na
época) para escrever a meus pais, meu irmão, a alguns amigos que dispunham de
paciência para responder minhas cartas (entre eles, meu amigo até hoje, Dr.
Paulo Gonçalves de Oliveira). O exercício foi aprimorado com a aquisição de um
conjunto de penas de metal, adaptáveis a uma haste de madeira, compondo uma
caneta que era periodicamente molhada num tinteiro, o que retardava
tremendamente a escrita. Mas era exatamente este o objetivo primordial! Já
naquela época a técnica estava fora de moda, porém seu efeito relaxante, para
usar a expressão da Andréa, era indiscutível!
A
segunda vivência marcante com a letra de mão data da minha infância. Eu e meu
irmão nutríamos enorme admiração, verdadeiro fascínio, diante da assinatura de
meu pai. Criança, eu ainda não tinha palavras para defini-la; hoje posso
afirmar que se tratava de uma manifestação artística. Não havia letras
reconhecíveis, muito menos correspondentes ao nome do autor. Era um rabisco com
traços fortes, firmes, uma sucessão de 9 us – ou de enes – cujo único
significado era a marca pessoal de meu pai.
Ele
já era um homem velho quando pedi que escrevesse meu nome numa folha de papel.
Escaneei-o (a letra já tremia) e compus meu cartão de apresentação, no tempo em
que eu ainda usava essas coisas. Sempre que o entregava a alguém havia a reação
de admiração, Que letra linda!, Que cartão bonito! Com enorme prazer eu
explicava que aquela era a letra de meu pai.
Só
agora, ao escrever esta crônica, percebo que trago em minha assinatura certos traços,
nítida influência da assinatura de meu pai. Apenas por este fato, sou forçado a
defender o ensino da caligrafia no ensino fundamental de nossas escolas. A
Finlândia, às favas...
sexta-feira, 17 de julho de 2015
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