terça-feira, 14 de abril de 2015

Vista de Toledo, de El Greco




Doménikos Theotokópoulos, conhecido como El Greco, (Fodele, 1541 – Toledo,1614): pintor, escultor e arquiteto grego que desenvolveu a maior parte da sua carreira na Espanha.

“Nasceu em Creta, que naquela época pertencia à República de Veneza, e era um centro artístico pós-bizantino. Treinou ali e tornou-se um mestre dentro dessa tradição artística, antes de viajar, aos vinte e seis anos, para Veneza, como já tinham feito outros artistas gregos.1 Em 1570 mudou-se para Roma, onde abriu um ateliê e executou algumas séries de trabalhos. Durante sua permanência na Itália, enriqueceu seu estilo com elementos do maneirismo e da renascença veneziana. Mudou-se finalmente em 1577 para Toledo, na Espanha, onde viveu e trabalhou até sua morte. Ali, El Greco recebeu diversas encomendas e produziu suas melhores pinturas conhecidas.”


A morte do poeta



A morte

E o Poeta morreu.
A sombra do cipreste pôde enfim
Abraçar o cipreste.
O torrão
Caiu desfeito ao chão
Da aventura celeste.

Nenhum tormento mais, nenhuma imagem
(No caixão, ninguém pode
Fantasiar).
Pronto para a viagem
De acabar.

Só no ouvido dos versos,
Onde a seiva não corre,
Uma rima perdura
A dizer com brandura
Que um Poeta não morre.

                                                Miguel Torga

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Uma questão sobre a vida e a obra de S. Freud


Freud e o amigo Fliess, no início de 1890.

Um amigo fraterno, seguidor deste blog, e que inicia a formação em Psicanálise, dirige-me a seguinte pergunta, para ser respondida – um pedido dele – no Loucoporcachorros: “Por que é importante à formação do psicanalista o conhecimento da biografia do Dr Freud?”. Ele argumenta ainda que “em outras ciências isso não é necessário em absoluto”.

Comecemos pelo princípio. De fato, Freud, ao escrever o artigo Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise (Ed. Standard Brasileira, Vol. XII, p. 125, 1912), não fez qualquer referência à necessidade da leitura da própria biografia. Esta leitura, portanto, não é indispensável.
Todavia, em muitos momentos a vida de Freud confunde-se com a própria ciência que ele desejava fundar. Sim, porque ele é considerado o criador da Psicanálise.
Dois bons exemplos desta inter-relação entre vida e obra são a autoanálise e a interpretação dos próprios sonhos. Evidentemente, Freud não dispunha de um colega psicanalista, para que pudesse ser por ele analisado. Dispôs-se então, com incrível disciplina, perseverança, coragem acima de tudo, a iniciar o que ele chamou de autoanálise. A tarefa era dificílima, se não impossível; certamente foi realizada de forma imperfeita e incompleta. Mas era o que ele podia fazer naquele momento, dispondo apenas de seu gênio.
A interpretação dos próprios sonhos é parte fundamental desta autoanálise. Este trabalho minucioso, diuturno, pôde ser compartilhado com alguns amigos, através de uma infinidade de cartas, em particular com Wilhelm Fliess (1858-1928), médico otorrinolaringologista, de quem Freud tornou-se íntimo. (Penso que é indispensável a leitura de algumas destas cartas, saborosíssimas porque muito bem escritas!1)
Na longa carta datada de 15 de outubro de 1897 (anterior, portanto, à Interpretação dos sonhos), endereçada ao “Querido Wilhelm”, onde um importante sonho é relatado, lemos:

“... Ser totalmente franco consigo mesmo é um bom exercício. Uma única ideia de valor geral despontou em mim. Descobri, também em meu próprio caso, o fenômeno de me apaixonar por mamãe e ter ciúme de papai, e agora o considero um acontecimento universal do início da infância, mesmo que não ocorra tão cedo nas crianças que se tornam histéricas. ... Se assim for, podemos entender o poder de atração do Oedipus Rex, a despeito de todas as objeções que a razão levanta contra a pressuposição do destino. ...Cada pessoa da plateia foi, um dia, um Édipo em potencial na fantasia, e cada uma recua, horrorizada, diante da realização de sonho ali transplantada para a realidade, com toda a carga de recalcamento que separa seu estado infantil do estado atual.”

           Aqui nesta carta, onde a intimidade do autor é corajosamente exposta, vida e obra se confundem. Não fosse por qualquer uma dessas razões, ou por tantas outras, o fato de tratar-se de um gênio, como poucos até hoje, só isso justificaria a leitura da biografia de Sigmund Freud.
            É o que penso sobre a questão levantada por meu amigo. Ele tem razão quando afirma que isso não se verificou em outras ciências. A vida de Albert Einstein pouco ou nada tem a ver com a Teoria da relatividade em si mesma. Tampouco a de Charles Darwin com a Teoria da evolução das espécies. Com Freud, foi diferente.


(1) Masson J M, editor. A correspondência completa de Sigmund Freud para Wilhem Fliess – 1887-1904, Imago editora,1986.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Diários




Para algumas pessoas a ideia de um Diário remete ao comportamento adolescente de registrar cenas banais do cotidiano, de modo meloso, derramado, num caderninho cor-de-rosa. Nada mais enganoso. Trata-se de gênero literário dos mais interessantes, desde que explorado por autores que sabem valorizá-lo.
            Tenho destacado com insistência neste blog o que chamo de escrita terapêutica. Penso que uma possível comprovação de minha tese é a publicação, por incontáveis autores de renome, de um certo tipo de literatura denominado Diário.
            Sob o ponto de vista puramente literário, pouca coisa compara-se aos Diários de Miguel Torga. Pseudônimo de Adolfo Correia da Rocha (Vila Real, São Martinho de Anta, 1907Coimbra, 1995), Torga foi um dos mais influentes escritores portugueses do século XX. Destacou-se como poeta, contista, memorialista, romancista, ensaísta e autor de peças de teatro.
           Escreveu 16 volumes de Diários, de 1941 a 1993, todos editados pela Coimbra, Portugal, edição do autor, com o mesmo formato, capa, papel, contendo poemas, crônicas, aforismos, observações emocionadas sobre fatos banais do cotidiano. O fato de ter exercido a Medicina – era otorrinolaringologista – no interior de Portugal enriqueceu-lhe a experiência de vida, o que foi registrado magistralmente nos Diários. A forma, inigualável!
            Torga encerra o último volume dos Diários, a 10 de dezembro de 1993, com o poema:

Réquiem por mim

Aproxima-se o fim.
E tenho pena de acabar assim,
Em vez de natureza consumada,
Ruína humana.
Inválido do corpo
E tolhido da alma.
Morto em todos os órgãos e sentidos.
Longo foi o caminho e desmedidos
Os sonhos que nele tive.
Mas ninguém vive
Contra as leis do destino.
E o destino não quis
Que eu me cumprisse como porfiei,
E caísse de pé, num desafio.
Rio feliz de ir de encontro ao mar
Desaguar.
E, em largo oceano, eternizar
O seu esplendor torrencial de rio.
           
            Outro bom exemplo do gênero são os Diários de Franz Kafka, iniciados em 1910 e findos em 1924, plenos de angústia e tormento. Em 12 de junho de 1924 ele escreveu:

“Sempre ansioso no instante de escrever. Isso se compreende. Cada termo, na mão dos espíritos – este impulso na mão é o toque que os caracteriza – torna-se um flecha atirada àquele que fala. E muito especialmente uma observação como esta. E assim até o infinito. O consolo estaria em que pudéssemos dizer: Tal sucederá, quer o desejes, ou não. E a tua parte de vontade apenas debilmente colabora. Mais do que o consolo, seria poder verificar: Tu também possuis armas.”

            Kafka escreve para si próprio, esta a impressão que nos transmitem seus Diários.
           
            Entre nós, recentemente, sob a organização de Ésio Macedo Ribeiro, a Civilização Brasileira (2013) publicou os impressionantes Diários de Lúcio Cardoso, um tijolo de 740 páginas, que eleva o gênero ao seu mais alto nível. O grande autor de Crônica da casa assassinada escreve em 1942:

“Apanha-me agora a sensação de vazio que costumo sentir e que certamente não é a nostalgia de qualquer das certezas perdidas. É impossível viver assim. Solto-me, largo as amarras e vou; não há nada que me prenda. Há horas em que verdadeiramente saio do mundo. Quem sabe mesmo se não me dissolverei? Pouco a pouco os pensamentos, as ideias, a consciência vão fugindo, fugindo, e assim talvez eu acabe por acabar de todo alguma vez.
Apavoro-me com isso.”

Alguma coisa aproxima os três trechos aqui apresentados, vindos de autores tão diversos no tempo, no estilo, na própria literatura de cada um. Mas há algo de comum entre eles. Penso que seja a intimidade transmitida pela forma Diário.