A charge do dia.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2015
quinta-feira, 22 de janeiro de 2015
quarta-feira, 21 de janeiro de 2015
Autoridade e violência
A excelente crônica de hoje do psicanalista e escritor
Francisco Daudt na Folha trata da violência e das suas diversas formas de
expressão. (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidiano/204803-violencia.shtml)
Daudt termina com tema recentemente
abordado neste blog, a partir de ensaio publicado na revista Serrote por Joseph
Epstein, intitulado Infantocracia: cada
menino, um delfim. (http://loucoporcachorros.blogspot.com.br/2014/12/a-tirania-das-criancas.html)
Trata-se da
relação entre pais e filhos, aparentemente mais conturbada do que nunca nos
dias de hoje. Eis a abordagem de Daudt:
“A
disparidade de poder entre uma criança e um adulto é a situação mais delicada
com que lidamos: precisamos exercer autoridade junto a nossos filhos, eles
precisam disso. Em situações limite, a autoridade também precisa lembrar que é
mais forte (quando, em geral, basta mostrar que é mais sábia). Se os pais
desenvolverem medo de seus filhos, porque o senso comum os vê sempre como
coitadinhos, não exercerão mais autoridade sobre eles, e com isso... estarão
sendo sutilmente violentos.”
A palavra chave é autoridade,
aplicável tanto no ambiente familiar quanto em sala de aula. Se a criança
realmente precisa dela, negá-la é um
ato de violência, segundo
Daudt. A sutileza a que se refere o autor
reside exatamente no fato de que a criança sem limites encontra-se perdida, desamparada,
frágil, aterrorizada muitas vezes, embora demonstre autossuficiência sob a
forma de arrogância defensiva – o leitor perdoe o pleonasmo. Deixá-la nessas
condições é um tipo de violência, raramente reconhecida pelos pais e pela
sociedade em geral.
Daudt
fala ainda do medo que os pais sentem de seus filhos e penso que a
infantocracia a que se refere Joseph Epstein é que acarreta nos pais tal
sentimento.
O
sentimento que falta para completar este quadro angustiante é o sentimento de
culpa, reconhecido ou não pelos pais, ao tentarem exercer autoridade sobre os
filhos. Em algum lugar, num determinado momento, os pais aprenderam que dizer Não é errado, sob o ponto de vista
pedagógico. Esqueceram-se que dizer Não
significa justamente estabelecer limites, a criança ou o adolescente gostem ou
não. Em tais circunstâncias, dizer Não
é um ato de amor.
O
adulto, porém, não pode se esquecer daquilo que Daudt chamou de “a disparidade
de poder”, entre ele, adulto, e a criança. A fronteira entre autoridade e
autoritarismo é tênue e requer sabedoria para não ser transposta. A criança,
mesmo que não compreenda quando há invasão, ela o sente, e fica marcada por
isso.
Não é fácil ser pai ou mãe,
muito menos filho...
O ducentésimo microconto
Baseado em fatos reais.
Homem, 32, desempregado, joga videogame
numa lan house, sem parar nem para
comer. Após 3 dias é encontrado morto, debruçado sobre o teclado.
Com o microconto acima, o
Loucoporcachorros chega à histórica marca de 200 microcontos publicados. O mote
é oportuno, sugere que não se deve passar muitas horas em frente ao computador,
isso pode ser mortal. Daí a relevância do microconto: rápido, rasteiro, no
canto em que o goleiro não está!
Afinal, o que é um
microconto? Alguns o chamam de miniconto, ou até de nanoconto; não há
uniformidade de regras, a não ser aquela imposta pelo Twitter, que o limita a
140 toques. Quando surgem concursos de melhores microcontos, os organizadores
estabelecem as regras, limitando o número de toques, letras ou palavras. (O
Loucoporcachorros segue a regra do Twitter.) O que não faz diferença alguma, pois os
teóricos (ainda) não o reconhecem como gênero literário. O Vocabulário
Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras, nem mesmo
registra o vocábulo microconto.
Os aficionados não cansam
de enaltecer o que chamam de o mais famoso microconto do mundo, de autoria de Augusto
Monterroso:
“Quando acordou, o dinossauro ainda
estava lá.”
Parece
que Marcelino Freire concorda com isso, pois deu-lhe destaque em Os cem menores contos brasileiros do século
(Ateliê Editorial, 2004), embora Monterroso tenha nascido em Honduras e vivido
no México.
Tão
surpreendente quanto este “dinossauro”, ou ainda melhor, é o microconto de
Manoel de Barros; reconheço que sou o primeiro e único a classificá-lo como
tal, pois faz parte de livro de poemas (Poesia completa, Leya, 2010, p. 222), e
não de contos:
“Ovo de lobisomem não tem gema.”
Através
destes dois exemplos – ainda em busca de uma definição –, podemos concluir que
o microconto, muito mais que contar uma história, ele sugere uma história, e
deixa que o leitor a complete.
Franz Kafka escreveu em seu diário, em 6 de dezembro de 1922, o microconto perfeito, a ilustrar tudo o que foi pensado até agora:
Franz Kafka escreveu em seu diário, em 6 de dezembro de 1922, o microconto perfeito, a ilustrar tudo o que foi pensado até agora:
"Duas crianças, sozinhas no apartamento,
entraram numa grande mala,
a tampa fechou-se, não a conseguiram abrir
e morreram asfixiadas."
O
Loucoporcachorros inaugurou, tempos atrás, o microconto Baseado em fatos reais. Ao tomar conhecimento das notícias do
cotidiano, percebi que muitas vezes não há diferença entre ficção e realidade.
Publico o microconto e deixo para o leitor a decisão de acreditar ou não na
realidade: Ah!, isso é conversa fiada, dirão alguns. Eis um bom exemplo de
história baseada em fatos reais:
“Agora estou tranquilo, afirmou o
assassino, preso após decapitar 6 pessoas.”
Outro
exemplo:
“Presidiário é escoltado até a delegacia
mais próxima para registrar queixa
de roubo de celular ocorrido em sua
própria cela.”
Mais
uma definição de microconto: a arte de cortar palavras. O exercício propicia o
desenvolvimento da concisão. Nossos políticos bem que poderiam cultivá-lo, como
antídoto para a prolixidade que os caracteriza. Filósofos e psicanalistas
lacanianos também.
O
Loucoporcachorros publica hoje seu ducentésimo microconto, certo de que o
formato se presta como uma luva à ligeireza da Internet, mais precisamente aos
blogs. Mesmo sem o reconhecimento da Academia, acredito que o microconto já
pode ser considerado um gênero literário. (Alô! mestrandos e doutorandos, eis
um tema para uma boa tese...)
Ítalo
Moriconi, organizador de Os cem melhores
contos brasileiros do século (Objetiva), à guisa de prefácio ao livrinho de
microcontos organizado por Marcelino Freire, escreveu:
“É no lance do estalo que a cena toda se
cria.
Na narrativa e na poesia.
Alguém já disse, poesia é uma frase
Ou duas e uma paisagem inteira por trás.”
São palavras que se ajustam
perfeitamente à elaboração do microconto.
Suicídio
Baseado em fatos reais.
Homem,
32, desempregado, joga videogame numa lan
house. Após 3 dias é encontrado morto, debruçado
sobre o teclado.
poucos
poucos os leitores poucos
esses amores tampouco
enchem das mãos os dedos
pouco o tempo pouco
de contar os dias
e de contar os medos
dias que eram como que
um cantar de melodias leves
justas concisas condensadas breves
de um desbravar de meio-dias
em segredo
pouca a leitura tão pouca
hegel marx freud o teeteto
a filosofia que a literatura espouca
louca
rouca
o dharma o dao a trilha reta
o que então por quanto tempo
um tempo de instantes
tristes mudos e vibrantes
que eram horas antes
e contudo agora
são segundos poucos
tão poucos mesmo
aldo pereira neto
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