segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Microconto de Natal

Baseado em fatos reais.

Morador de rua, encontrou objeto de valor, devolveu ao dono, um empresário, e não aceitou gorjeta. Ganhou dignidade, na forma de um emprego.


Praia de Ipanema!

A foto do dia.


Domingo de sol na Praia de Ipanema!

Foto: Wilton Júnior, O Estado de São Paulo.

Cura pela escrita?




Em crônica publicada no ótimo blog Literatura na poltrona (24/12/2014), José Castello fala do romance O lago, de Yasunari Kawabata (Estação 
Liberdade, 2010). Trata-se do relato de uma “busca sem sentido”, de uma irresistível obsessão, e uma das obsessões de Castelo é exatamente ler o romance de Kawabata todo fim de ano. (http://oglobo.globo.com/blogs/literatura/posts/2014/12/24/kawabata-no-escritorio-557002.asp)
            Depois de resumir a interessante trama do romance, José Castello encerra sua crônica tratando de tema que me interessa muitíssimo:

“... não existe esperança alguma de que a escrita possa "curar". A escrita não cura, mas dá vazão. Dá corpo – acolhe. Faz de uma coisa, outra – sem que, com essa transposição, coisa alguma se resolva. A literatura nada resolve, ela nos ajuda a viver.”

            O assunto veio à baila neste blog com O diário de Boris Fausto, onde comento o livro do famoso historiador, O brilho do bronze, que trata, em uma única palavra, do Luto, após a morte da esposa querida. Meu ponto de vista versava sobre a falta que senti, no livro, de alguma referência ao que chamo de Função Terapêutica da Escrita. (http://loucoporcachorros.blogspot.com.br/2014/12/o-diario-de-boris-fausto.html)
            O tema voltou ao Louco por cachorros com o título A escrita e o luto, enfocando certos comentários de Fausto numa entrevista concedida à Folha, em que o autor relata, “Escrever foi bom, foi útil, mas foi muito penoso em certos momentos”. 
(http://loucoporcachorros.blogspot.com.br/2014/12/a-escrita-e-o-luto.html)
            Agora vem o excelente José Castello, trazendo a palavra “cura” – assim mesmo, entre aspas – relacionando-a com a escrita. E conclui com a retumbante frase “A literatura nada resolve...”.
            Vamos tentar organizar as ideias, pois penso que, tanto um autor quanto o outro misturam conceitos, fazem afirmações obscuras, ou deixam de fazê-las – é o caso de Fausto em O brilho do bronze –, a respeito da Literatura e da Escrita. Uma coisa é a Literatura – com maiúscula, excluindo assim, desde já, aquela que se convencionou chamar de autoajuda –, outra coisa é a Escrita, o ato individual e solitário de quem escreve.
            A Literatura, de fato, não muda nada, ou quase nada. Sua “utilidade” é a mesma da Arte de um modo geral: ajuda, revigora, ampara, ameniza, mas por si mesma, não resolve, como afirma Castello. (Mas, afinal, o que é que resolve? O que é resolver?)
            A Escrita, vejo-a com outros olhos: trata-se de autocriação, de uma atitude tomada pela pessoa que escreve e que exige esforço individual, que pode ajudar a colocar em ordem os pensamentos, as emoções, enfim, clarear as ideias. Ajuda a pensar. Pode ensinar àquele que escreve a pensar melhor. Se aquele que escreve, lê, tanto melhor!
            Um ótimo exemplo desta aplicação do ato de escrever pode ser encontrado em O brilho do bronze, em que a escrita ajuda a vivenciar o luto. Qualquer pessoa naquela situação pode utilizar-se da escrita como forma de verdadeira autoajuda – palavra agora empregado em sentido completamente diferente do usual. É o que denomino de Função Terapêutica da Escrita.
            O paralelo que podemos traçar nesse ponto do desenvolvimento de minhas ideias é com a Psicanálise. O psicanalista jamais fala, muito menos promete, cura. Em se tratando de psiquismo humano (aqui não há pleonasmo, pois outras espécies animais têm seu próprio psiquismo), não se pode falar em cura. Uma das grandes contribuições freudianas para a psicologia foi a de que é impossível traçar um padrão de normalidade para a mente e comportamento humanos. Portanto, submeter-se a uma terapia não significa possibilidade de cura. O que ela possibilita, quando o processo é bem conduzido, é o que se pode chamar de expansão psíquica.
            O mesmo ocorre com a Literatura, as Artes, a Escrita; estas não curam ninguém. Porém, a Escrita, pela peculiaridade de que exige por parte de quem escreve um esforço, mínimo que seja, de autoconhecimento, de autorreflexão, pode ser terapêutica. Ela não precisa ser necessariamente artística, literária, ou coisa do gênero.
Qualquer pessoa pode escrever, se possui um mínimo de alfabetização, o que não acontece com outras formas de Arte, como a pintura, por exemplo. E o que se escreve nem sempre precisa ser publicado. (Lembro-me bem da estrondosa repercussão que foi a publicação, em 1960, de Quarto de despejo – diário de uma favelada, de Carolina Maria de Jesus (1914-1977), uma catadora de papel semianalfabeta, que de início escrevia para si mesma, até que foi descoberta pelo jornalista Audálio Dantas. Além das incontáveis edições, seu livro foi traduzido para mais de uma dezena de idiomas.)
            O exercício da Escrita pode tornar-se um meio de expansão psíquica, daí minha ideia de sua particular função terapêutica.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Caçada a Pedrinho




Alívio geral!
O Supremo Tribunal Federal rejeitou a inclusão de nota no livro "Caçadas de Pedrinho", de Monteiro Lobato, alertando sobre o racismo.
Em 2010, o Conselho Nacional de Educação recomendou a não distribuição da obra, distribuída pelo governo federal no Programa Nacional Biblioteca na Escola, ou o acréscimo de nota explicativa sobre racismo, por parte de Monteiro Lobato. Tanto barulho porque Lobato descreve a personagem negra Tia Nastácia como uma "macaca de carvão", se bem me lembro, na boca desaforada e irreverente da boneca Emília.
O Ministério da Educação pediu a revisão do parecer, justificando que a contextualização de obras desse tipo por parte dos professores seria suficiente para esclarecer os alunos, descaracterizando assim o ato de racismo.
O Instituto de Advocacia Racial, do Rio, e o técnico em gestão educacional Antonio Gomes da Costa Neto, discordaram da avaliação do Ministério e entraram com mandado de segurança no Supremo em novembro de 2011. "Nosso objetivo não era censurar a obra, mas sim garantir que o Ministério da Educação implemente medidas concretas como a capacitação dos professores sobre a história da África e a cultura afro-brasileira, como determina a lei nº 10.639/03", diz o advogado Humberto Adami, responsável pela ação.
A Procuradoria-Geral da República se manifestou contra o mandado de segurança por questões processuais, sem se aprofundar no mérito, e o Ministro Luiz Fux, do STF, rejeitou nesta sexta-feira (19/12/2014) o mandado de segurança. (Penso que o Supremo tem mais o que fazer...)
Adami, o advogado, afirma que irá recorrer da decisão no plenário do Supremo e, se necessário, irá aos tribunais internacionais.
O Brasil é mesmo um país incrível! O leitor já pensou, Monteiro Lobato nos tribunais internacionais, por causa de Emília e Tia Nastácia? No fundo, é o irritante politicamente correto.


O perfeccionista



             Alfredinho, desde pequeno, considerava-se um perfeccionista, mesmo antes de saber o significado desta difícil palavra. Ouvia-a dos pais, dos tios, até de uma avó bem velha, muito crítica e rabugenta, na opinião da família. Mas foi a palavra ouvida da boca dos professores que o influenciou de maneira definitiva, Esse menino é um perfeccionista!
Ano após ano repetiam todos aquele bordão, até que Alfredinho aprendeu o significado da palavra perfeccionista, precisou ir ao dicionário, já sabia ler aos sete anos de idade, aquele que realiza tudo com perfeição. Agora estava claro, e o menino incorporou aquela definição como algo seu, desde o nascimento.
           A primeira consequência desta incorporação foi que o menino transformou-se no primeiro aluno da classe, de todas as classes. Praticamente um gênio, repetiam os professores, e perfeccionista! No boletim, apenas notas 10!
            Forte, alto, de porte atlético, Alfredo também se destacava nos esportes, o que aumentou em muito sua popularidade na escola, entre os meninos. Vestia-se com apuro, com roupas de marca, como se diz, o que o tornou cobiçado pelas meninas.
            Chegou o momento de entrar para a faculdade, escolher uma carreira, uma profissão. Vai ser médico, e acabará por ganhar o primeiro Nobel para o Brasil, vaticinou a avó rabugenta. O pai, engenheiro da Estrada de Ferro Central do Brasil, garantiu que o filho seria um físico nuclear, e que o Nobel de Física estava no papo! Fosse qual fosse a escolha, o nosso Nobel estava garantido, era a opinião até mesmo da vizinhança, que a fama do garoto corria mundo.
            Para surpresa geral, Alfredinho anunciou solenemente, em reunião de família e agregados, Vou fazer Faculdade de Letras!
LETRAS?, exclamaram todos em uníssono. L-e-t-r-a-s, confirmou o rapaz. De sua velha poltrona a avó profetizou, Nada mal, bem que merecemos um Nobel de Literatura, pois até Portugal tem o seu, aquele herético do Saramago... E a Argentina tem o Borges, que não ganhou o prêmio, mas merecia, acrescentou o pai.
            Já ao final dos estudos, prestes a se formar, Alfredinho decidiu que chegara o momento de escrever um livro, seu primeiro livro. Será um romance de 800 páginas, anunciou ele, digno de um Tolstói, de um Thomas Mann, de um Jonathan Littell. Ainda não tinha a história bem delineada na cabeça: havia um padre pedófilo, que acabava assassinado, e desvendar o crime era parte do romance; havia também um escândalo financeiro que abalaria toda a estrutura familiar, o que provavelmente estaria ligado ao assassinato do padre; o patriarca tinha uma amante ambiciosa, porém incapaz de cometer um crime, ainda mais a morte do padre por estrangulamento; nos bons tempos, chegaram a visitar o Papa, episódio que seria descrito com minúcias no livro; um suicídio não poderia faltar; o neto rico, vagabundo, motoqueiro e viciado em drogas era o desgosto da família; dois divórcios rumorosos também abalaram a reputação do tradicional sobrenome quatrocentão; por aí afora. Era só começar que a história haveria de se desenrolar com perfeição, Verdadeiro fluxo de consciência, dizia nosso futuro Nobel.
            Perfeccionista, Alfredinho resolveu começar pelo título do romance, tarefa que se revelou complicada desde o início.
            – O crime do Padre Amparo: muito parecido com o Eça...
            – O Patriarca: religioso demais...
            – O castigo: não falta nem o crime para sugerir Dostoiévski...
            – Os Carvalhosas: Thomas Mann já escreveu Os Buddenbrooks...
            – Céu e inferno: dramático demais, parece Dante...
            – Gotas de fel: lembra Marcelino pão e vinho, afirmou a avó...
            – Doutor Boris: parece Goethe...
            – Flores de abril: mas que viadagem é essa?, disse o pai...
            – O tempo levou: pior ainda...
            ...
            A avó crítica e rabugenta comentou, Parece que nosso Nobel ainda vai demorar.