quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Viagem à Terra de Brunellos

            O viajante parte bem cedo de Florença, em direção a Montalcino. Passa por Siena, toma uma estrada vicinal asfaltada, cruza com pequenos povoados, nem isso, são apenas algumas casas de proprietários de terras cultivadas, vinhedos melhor dizendo, há só vinhedos por toda parte, a cobrir pequenas ondulações de terreno, morretes, até que chega à estradinha de terra, e é quando o viajante se dá conta do cascalho sobre o qual está rodando, o mesmo onde estão assentados os vinhedos. Terra ruim, é o que parece, pedregosa e dura, mas que produz um dos melhores vinhos do mundo, o Brunello, a partir do cultivo da uva sangiovese. Terroir raríssimo, diriam os entendidos.



A placa indica que chegamos ao nosso destino, a vinícola Donatelli Cinelli Colombini.



Somos recebidos por Violante, a bonita jovem dona da vinícola. São todas mulheres as seis ou sete proprietárias, uma nova e promissora tendência na Itália de hoje, ao menos na região da Toscana.




Somos logo introduzidos à cave onde repousam os barris de carvalho francês, caríssimos, contendo as iguarias, se é que a palavra aplica-se também a líquidos, especialmente aos vinhos. São Rossos e Brunellos que aqui repousam, são iguarias portanto!

          Em seguida visitamos os grandes toneis de aço, onde se processa a fermentação da uva.
          A casa – melhor que a chamássemos de sede – onde repousam os toneis também serve de residência a Violante, nossa amiga e paciente instrutora. Data de 1500, a construção, somos informados! É belíssima em sua robustez, muito bem proporcionada, com um interior aconchegante, amplo salão, onde são realizadas as degustações.







            Violante nos ofereceu os vinhos da casa, o Rosso, o Brunello di Montalcino Prime Donne e o maravilhoso Brunello reserva.
            Experiência inesquecível!
            

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Saramago vive!



             
              Com o coração a saltar pela boca de tamanha emoção, li os três primeiros – e únicos! – capítulos de Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas, de José Saramago, livrinho que acaba de ser publicado pela Companhia das Letras. Ter uma bela história para contar, num estilo ímpar, maravilhoso, e precisar interromper a narrativa porque se está a morrer, é de fazer chorar as pedras.
            Que é um livro, isto é, basta olhá-lo, tê-lo nas mãos, ver a capa encimada pelo nome do autor em letras brancas, metade do título em vermelho, que a outra metade Espingardas, espingardas, ficou na contracapa, e se o abrimos, podemos observar que se parece com qualquer outro livro, tem orelhas, até ilustrações ele contém, de autoria do romancista alemão Günter Grass: de fato, é um livro.
            Ao mesmo tempo, um livro não é. Não podemos chamá-lo assim, um livro, são apenas três capítulos que dão partida a uma história em tudo e por tudo promissora, escritos no mais puro estilo saramaguiano – e é o estilo que importa!, é o estilo que emociona!, inconfundível! Eis um bom exemplo, no diálogo entre Artur Paz Semedo e  Felícia, que se encontram separados até o momento:

“O telefone deu três sinais e ela respondeu, Estou, Sou eu, o artur, Já sabia, vi aqui o teu número, Desculpa vir ligar-te a esta hora, Ainda não é tarde, Aconteceu-me uma coisa que gostaria de te falar, Algum problema, perguntou ela, Problema, não direi, mas estou com o espírito confuso, Se isso é por causa de alguma mulher que acabaste de conhecer, desejo-te as maiores felicidades, Qual mulher, qual nada, tenho coisas mais importantes em que pensar, Olha que seria digna de exame essa tua preocupação, pelo menos assim me parece, de quereres que acredite que não tens andado com ninguém depois de eu ter saído de casa, Ande ou não ande, não é da tua conta, não te diz respeito, Muito bem, explica-me então por que tens a cabecinha confusa, Há uma semana fui à cinemateca para ver um filme chamado l`espoir, Também o vi, estive lá anteontem, É uma história comovedora, sobretudo aquela descida da serra de teruel, Custa a segurar as lágrimas, é certo, Eu confesso que chorei, disse artur paz semedo, Já to disse, também eu, disse felícia. Houve um silêncio. Podia-se pensar que estavam contentes por terem partilhado uma emoção tão forte, quem sabe se por coincidência sentados na mesma cadeira do cinema, mas nunca o reconheceriam, fazê-lo seria dar uma mostra de debilidade sentimental de que o outro poderia vir a aproveitar-se. Todo cuidado é pouco com os casais separados.”

O não-livro termina sem ponto final; melhor dizendo, não termina. E o leitor vira a página, vira outra página, outra mais, mais outra, e nada encontra a não ser a nostalgia da ausência do narrador. Sente-se então o peso da morte de José Saramago, a falta que ele nos faz.
            Os três únicos capítulos são seguidos por Anotações feitas pelo escritor, iniciadas em 15 de agosto de 2009, singelas e deliciosas, como esta primeira frase: “Afinal, talvez ainda vá escrever outro livro.”
A partir de uma ideia intrigante – “nunca houve uma greve numa fábrica de armamento” – surge o tema central do romance, e o primeiro nome que surge para o título é Belona, a deusa romana da guerra. Depois veio Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas, inspirado em Gil Vicente.
            Há pouco nessas anotações sobre o desenrolar da história, porém, em 16 de setembro do mesmo ano o autor escreve o que viria a ser a frase final do romance: “O livro terminará com um sonoro “Vá à merda”, proferido por ela. Um remate exemplar.” Ela é Felícia, a mulher divorciada do protagonista Artur Paz Semedo, pressuroso funcionário da fábrica de armamentos Belona S.A..
            Em 26 de dezembro, ainda em 2009, Saramago registra em seu computador, com a ironia de sempre: “Dois meses sem escrever. Por este andar talvez haja livro em 2020...” A doença grave impedia-o de escrever, mas ele não perdia a esperança.
            A última anotação data de 22 de fevereiro de 2010, e registra uma nova ideia para o desenrolar da trama: “As ideias aparecem quando são necessárias. Que o administrador-delegado, que passará a ser mencionado apenas como engenheiro, tenha pensado em escrever a história da empresa, talvez faça sair a narrativa do marasmo que a ameaçava e é o melhor que poderia ter-me acontecido. Veremos se se confirma.” Aqui, mais uma vez, presente a esperança de viver através do ato da escrita, na luta contra o marasmo que se instala com a ameaça de morte.
Saramago morre em 18 de junho de 2010, aos 87 anos de idade.
            Para a legião de fãs ardorosos (porque também há os que o odeiam, quase sempre por sectarismo religioso, além dos que acham que ele escreve “muito difícil”, sem que façam qualquer esforço para assimilar a oralidade em sua escrita, inspirada em Pe. António Vieira), este Alabardas é a comprovação material de que José Saramago não morreu. Cada um de nós dará o destino que bem desejar a Artur Paz Semedo e Felícia, ao Engenheiro e sua fábrica, com apenas uma única exigência, a de que a Ética e o respeito pelo próximo sejam preservados, ou não seria uma história de Saramago.
            

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

David, de Michelangelo

A foto do dia



Após 15 dias de férias, o Louco por cachorros volta à ativa, publicando aquela que o blogueiro considera a segunda obra de arte mais impressionante de todos os tempos, perdendo apenas para a Capela Sistina, no Vaticano.

Foto: A.Vianna, Florença, out. 2014.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

A caneta roubada



A seguinte nota foi publicada no Estadão de hoje:

“Uma caneta que pertenceu ao escritor Graciliano Ramos (1892-1953) foi furtada da exposição Conversas de Graciliano Ramos, aberta terça-feira, 17, no Museu da Imagem e do Som de São Paulo (MIS). Na montagem da mostra, três canetas estavam expostas em uma instalação que simula o ambiente de trabalho do escritor. Na quarta (17), porém, apenas duas permaneciam no local.” (1)

            Fico aqui matutando quem teria sido o ladrão da caneta. Se foi um gatuno comum, igual a tantos espalhados por aí, neste país de ladrões, só me resta lamentar o ocorrido. Coisa mais grosseira e sem graça. Provavelmente ele irá vender a peça a algum colecionador de quinquilharias, ou naquela feira de antiguidades embaixo do MASP, frequentada por colecionadores de bugigangas, o que também não tem graça alguma.
            Há uma segunda hipótese, e mais adiante explico de onde me veio tal ideia. É a de que o ladrão seja um fã ardoroso de Graciliano, leitor compulsivo de toda a sua obra, admirador incondicional do alagoano! Nesse caso, sinto até mesmo um certo constrangimento em chamá-lo de ladrão. Imagino que o homem nunca tenha roubado nada em toda sua vida, que jamais tenha emitido um cheque sem fundos, nem entrou em metrô sem pagar o bilhete. Trata-se de um sujeito íntegro, como poucos!
            Momentos de fraqueza, quem nunca os teve?
            Nosso homem, assim que soube da tal exposição, não perdeu tempo, pediu ao chefe para faltar o serviço, É por motivo de força maior, alegou. Saiu cedo de casa, vestindo a melhor roupa domingueira, dirigiu-se ao Museu da Imagem e do Som, com dificuldade para conter a excitação, na expectativa de conhecer melhor a intimidade de seu autor predileto, mesmo tantos anos após a morte dele.
            De repente, deparou-se com aquela escrivaninha humilde, a antiga máquina de escrever, algumas folhas soltas manuscritas, o tinteiro com tampa de prata, e aquelas três canetas de madeira com as respectivas penas de metal. Graciliano havia de tê-las nas mãos milhares de vezes. Tocá-las seria um verdadeiro milagre, pensou. Nosso homem estava emocionado!
            Encontrava-se paralisado diante daqueles objetos há mais de meia hora. Não conseguia desgrudar deles. Olhou em volta, ninguém na sala. O impulso surgiu como o de um cão bravo que late primeiro, só depois olha quem está chegando. Pegou uma das canetas, colocou-a no bolso interno do paletó, deixou a exposição sem ao menos vê-la por inteiro.
            Na rua, pegou o primeiro taxi que passou, foi direto para casa. Trancou-se em seu quarto, isolado do mundo, e contemplou, extasiado, a caneta que fora de Graciliano Ramos, e que agora era sua.
            De onde me veio esta ideia? Bem, tudo vem da infância.
            Os três filhos pequenos, residentes no interior, num tempo em que não havia computador, éramos fanáticos por Monteiro Lobato. Ao chegar na última página, fechávamos o livro, voltávamos ao início, como se agora fôssemos lê-lo pela primeira vez. Fizemos isso com a coleção inteira. Meu favorito? Os doze trabalhos de Hércules, em dois volumes.
            Mais crescidinho, não me recordo bem em que circunstância, fomos visitar a casa onde havia morado Monteiro Lobato, em Tremembé, na época pequena cidade próxima a Taubaté, onde nascera meu querido irmão. (Hoje, quando Tremembé surge no noticiário, é porque alguém famoso, um criminoso de verdade, está sendo levado para a penitenciária local.) Encontramos uma tapera, casinha pequena caindo aos pedaços, cercada de mato crescido, completamente abandonada. Aquilo era de cortar o coração do menino.
Durou pouco tempo a melancólica visita. Mas na hora de ir embora, resolvi levar um lembrança da casa do meu adorado Monteiro Lobato. (Hoje penso: teria ele mesmo morado alí algum dia?) Cruzava já o portal de saída, quando observei a madeira toda carunchada por cupins deste mesmo portal. Com cuidado, arranquei um pequeno pedaço da madeira – não media mais que dez centímetros de comprimento –, que facilmente veio-me às mãos. Escondi a relíquia no bolso da calça curta cáqui, que então usava, e mantive o segredo daquele furto até hoje.


 Fodo: idem.