terça-feira, 11 de março de 2014

Vidas invisíveis

Baseado em fatos reais.

Continuou vivendo por um mês, sem dar conta da morte do marido. Dois cães presos no quarto morreram de inanição. Os vizinhos nada notaram.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Sobre dilemas morais


Por que não admitir? O Papa Francisco surpreendeu o mundo dias atrás, ao confessar publicamente que havia surrupiado o crucifixo que repousava sobre o corpo de um padre amigo, no momento em que o velório estava vazio, cruz que carrega até hoje (sem qualquer conotação metafórica...) e à qual apela nos momentos difíceis. Como tudo é mesmo relativo nessa vida, suponho que o Santo Padre só tenha granjeado louros e simpatias com este insólito gesto: um roubo.
A lembrança que me veio ao bestunto foi a de meu saudoso José Saramago, em seu belíssimo livro Viagem a Portugal. Ao passar por Carrazedo de Montenegro, o escritor foi “tentado pelo demónio”. Visitava uma igreja local quando deu com uma grande imagem de Nossa Senhora, com anjos dispostos aos pés, “mesmo à mão de apanhar”. Surge-lhe o tinhoso, provocador: “Vinha dizer-te que estes anjos estão seguros só por um espigão. Basta puxar e ficam-te nas mãos. A Virgem, não te aconselho. É pesada, grande, e viam-te à saída.”
Depois de um rápido bate-boca entre os dois, o viajante zangou-se e saiu da igreja. Descia já os degraus em frente à edificação quando resolveu voltar; tornou a entrar no coro deserto, postou-se frente à imagem, agarrou um anjo, puxou-o, e, de fato, como havia instruído o demônio, ficou com ele nas mãos. “Durante três segundos, céu e terra pararam para ver o que ia acontecer: perdia-se aquela alma, ou salvava-se”, escreve Saramago.
Recolocou o anjo aos pés da Virgem e partiu.
Pouco tempo depois da morte de Saramago, encontrava-me numa grande livraria do Rio de Janeiro, quando dei com uma linda fotografia do escritor, com seu nome, anos de nascimento (1922) e morte (2010), e as palavras Saudade não tem remédio. A foto, em papel brilhante de ótima qualidade, vinha colada a um cartão com dispositivo dobrável por detrás, de modo que permanecia de pé, chamando a atenção dos transeuntes. Desejei imediatamente aquela fotografia, que seria emoldurada e posta em meu consultório, em homenagem ao grande escritor! Procurei o gerente da livraria e pedi-a de presente. Ele negou. Implorei que ma vendesse. Ele negou mais uma vez, alegando que o “produto” precisava ser devolvido à editora, terminada a campanha publicitária. Só não lhe sugeri o que devia fazer com o tal produto, em virtude do retratado ser quem era.
Na semana seguinte, chegando a Brasília, ao entrar em outra grande livraria, dei de cara com a mesma fotografia! Freguês antigo que sou, pensei, Agora está no papo. Engano meu. Nem de presente, nem comprada. A gerente veio com o mesmo argumento, tinha que ser devolvida à editora, blá blá blá blá blá. Puta que pariu!
Passada a raiva inicial, resolvi arquitetar um plano mais ou menos complicado. A porta da livraria dispunha de alarme, qualquer livro que passasse sem ser desmagnetizado, era aquele escândalo. Examinei cuidadosamente o objeto e não encontrei sinal do dispositivo que faria soar o alarme. Mesmo assim, fingindo que falava ao telefone, “distraído” portanto, peguei a fotografia, passei pela porta e retornei imediatamente para o interior da livraria. Silêncio! Nada de alarme. Recoloqueia-a debaixo de uma pilha de livros, onde não seria encontrada por ninguém e fui almoçar com meus três amigos, que presenciavam estupefatos todas aquelas minhas estranhas manobras.
Não se tocou no assunto durante o almoço. Voltamos à livraria para o café. Depois do café, escolhi um livro de tamanho maior que a fotografia, paguei-o no caixa e coloquei-o numa sacola de plástico. Voltei à pilha de livros, coloquei o produto – agora a palavra aplica-se com perfeição – na sacola juntamente com o livro, deixei a livraria sem alarde.
Um dos amigos que me acompanhava exclamou:
– Mas isso é roubo!
– É, respondi.
Nada mais foi dito, nada foi perguntado.
Não há quem deixe de elogiar a fotografia belamente emoldurada, ao vê-la em minha casa. Não é para qualquer um que relato a origem da mesma, mas sempre há o pretexto para uma boa conversa sobre José Saramago.
Deixo por conta do leitor o possível julgamento do dilema moral vivido pelos três personagens desta história, se é que dilema houve no primeiro e terceiro exemplos. Parece que Saramago foi tentado pelo demônio interior que habita todos nós. Francisco e eu, suponho, consideramos as circunstâncias, certos de que daríamos – e demos – melhor destino aos dois objetos subtraídos, e trazemos a consciência tranquila – também suponho.
Tudo é mesmo muito relativo, quando se trata de ganhar ou perder as almas.

sexta-feira, 7 de março de 2014

O velório


Baseado em fatos reais.

O velório estava vazio. Ao ver o belo crucifixo nas mãos do morto, afastou as flores, meteu-o no bolso, e continuou a rezar pela alma do amigo.

Transitoriedade da beleza e da felicidade


Escrito em novembro de 1915, o ensaio de Freud intitulado A transitoriedade foi escrito a pedido da Sociedade Goethe de Berlim, para um volume do qual participavam outros escritores, em homenagem ao grande poeta alemão. Privilegiava-se, portanto, a literatura, e Freud foi escolhido exatamente por seus dotes literários, comprovados mais uma vez pelo ensaio cujo início aqui transcrevo, na tradução de Paulo César de Souza:

“Não faz muito tempo empreendi, num dia de verão, uma caminhada através de campos sorridentes na companhia de um amigo taciturno e de um poeta jovem mas já famoso. O poeta admirava a beleza do cenário à nossa volta, mas não extraía disso qualquer alegria. Perturbava-o o pensamento de que toda aquela beleza estava fadada à extinção, de que desapareceria quando sobreviesse o inverno, como toda a beleza humana e toda a beleza e esplendor que os homens criaram ou poderão criar. Tudo aquilo que, em outra circunstância, ele teria amado e admirado, pareceu-lhe despojado de seu valor por estar fadado à transitoriedade.” (1)

            Freud não acredita nessa visão pessimista do poeta e refuta-a veementemente:

“Pelo contrário, significa maior valorização! Valor de transitoriedade é valor de raridade no tempo. A limitação da possibilidade da fruição aumenta a sua preciosidade. É incompreensível, afirmei, que a ideia da transitoriedade do belo deva perturbar a alegria que ele nos proporciona.”

         E o criador da Psicanálise completa sua argumentação com uma frase de grande efeito estético:

“Se existir uma flor que floresça apenas uma noite, ela não nos parecerá menos formosa por isso.”

         O que Freud ressalta, antes de mais nada, é o “valor da realidade”, em oposição a uma “ilusão, ao desejo ardente de salvaguardar o que amamos, a esse sentimento lírico que anima os sentimentos e o pensamento do poeta”, nas palavras de Edmundo G. Mango (Freud com os escritores, J.-B. Pontalis e E.G Mango, Três Estrelas, 2013).
        
         Reconhecer esta realidade, eis a questão! Da mesma maneira, podemos pensar que é fundamental reconhecer os momentos de felicidade. A partir das ideias de Freud é possível estabelecer uma analogia entre Beleza e Felicidade. Tão importante quanto reconhecer a realidade, não se deixando enganar pela ilusão do desejo, é saber reconhecer os momentos desse sentimento a que chamamos felicidade. Há os que se iludem ao pensar que felicidade deve ser, ou pode ser, um estado de espírito permanente, o que não existe neste mundo, onde as frustrações preponderam. Para estes, como não pode ser permanente, então a felicidade não existe, o que gera profundo sentimento de melancolia.
         A felicidade existe – mesmo que momentânea –, e é preciso saber reconhecê-la, considerando sempre a realidade. A felicidade se esconde nas coisas mais simples, despretensiosas, como uma boa conversa entre dois irmãos. Às vezes vamos encontrá-la numa radiosa manhã de sol à beira mar, em um bom livro, num ótimo filme capaz de proporcionar rica troca de ideias entre dois amantes, e sobretudo na relação amorosa.
         Porém, como a flor que se abre apenas em uma noite, a felicidade é sempre transitória.


Sempre Carnaval!

A foto do dia.


Foto: Andrew Seyder


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quinta-feira, 6 de março de 2014

Seja homem!


Baseado em fatos reais.

Com 8 anos de idade, o menino gostava de lavar louça e dança do ventre. Para andar como homem, o pai espancou-o até a morte.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Jaboticabas à noite

A foto do dia,
acompanhada de haicai.


noturno segredo
encerrado em negro brilho
doçura insuspeita


(A pequena jaboticabeira aqui de casa!)

Foto e haicai: Mercêdes Fabiana, fev., 2014.