quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

A Batalha do Avaí



Nos últimos dias de 2013 a Sextante editora publicou o livro que é uma obra de arte: A Batalha do Avaí, com o subtítulo A beleza da barbárie: a Guerra do Paraguai pintada por Pedro Américo. Autores: Lilia Moritz Schwarcz, com Lúcia Klück Stumpf e Carlos Lima Júnior.
            Assim tem início a narrativa, com a descrição espetacular – sob o ponto de vista literário e de crítica de arte –, de um detalhe central no quadro de Pedro Américo:




“A feição do soldado sentado, de torso nu e boné tricolor à cabeça, disposto no meio do quadro, jamais será desvelada. Ele dirige o seu olhar para o interior da tela. Faz companhia ao combatente negro, o qual, ferido mortalmente à cabeça, parte de vez dessa batalha sangrenta. O mesmo triste fim experimentará o lutador paraguaio em poucos instantes, já que está bem na mira da arma de um militar do exército brasileiro. Diante dele, homens armados avançam para todos os lados, na mais absoluta desordem, empunhando suas baionetas, lanças, espadas e pistolas. A morte está, pois, por toda a parte, em primeiríssimo plano, sem qualquer maquiagem.”

Após longa e detalhada contextualização histórica sobre a Guerra do Paraguai, repleta de ilustrações e obras de arte de pintores brasileiros, o livro traz um Caderno de imagens, com fotografias de Jaime Acioli. Neste Caderno, o enorme quadro de Pedro Américo é esquadrinhado, e cada detalhe acompanhado do respectivo comentário explicativo. A qualidade das fotografias e da impressão é inacreditável!






Não tivemos outra alternativa senão chegar um pouco mais tarde à praia numa terça-feira dessas férias, para revisitar o Museu Nacional de Belas Artes, na Av. Rio Branco, no Rio, ao lado do Teatro Municipal e da Biblioteca Nacional, onde repousa a monumental A Batalha do Avaí. São duas experiências fundamentais: ler o livro e visitar o museu.



Fotos: A.Vianna e Mercêdes, Rio, jan. 2014.

Conto de verão


Alfredo era dessas pessoas que precisam de alguma explicação para tudo, mas para tudo mesmo. Ele nem faz questão de comprovação científica, não vai ao Google para conferir, apenas não pode ficar sem uma explicação diante dos fatos mais corriqueiros da vida. Enfim, trata-se de um crédulo.
            Viajaram de férias para a praia, ele e a mulher. Logo no primeiro dia, a atenção de Alfredo foi despertada pelo enormíssimo número de pessoas com tatuagens. Homens apenas com uma sunga, mulheres com quase nada, a pele assim exposta desnudava também as tatuagens, distribuídas nas mais diferentes partes do corpo. Alfredo incomodou-se.
            – Matilde, por que as pessoas deixam-se tatuar?
            – Lá vem você com suas perguntas, Alfredo, resmungou a mulher.
            – Mas deve haver uma explicação, Matilde. Parece que só nós dois não somos tatuados nessa praia! Isso é um fenômeno que precisa ser explicado.
            No dia seguinte Alfredo chegou à praia munido de caderno e caneta, e iniciou a catalogação das tatuagens que observava ao longo do dia, na expectativa de poder classificá-las segundo a localização, tamanho, cor e temática, além da natural distribuição por gênero, naturalmente. Pensava que tal método poderia levá-lo ao entendimento do fenômeno, depois de coletadas algumas centenas de observações.
            – Alfredo, estamos de férias, vamos relaxar, veja o mar como está lindo!
            De nada adiantaram as ponderações de Matilde. Alfredo precisava de uma resposta, trabalhou freneticamente e em três ou quatro dias encheu o primeiro caderno. Afinal, material não lhe faltava. Deixava a mulher sentada debaixo de uma barraca e saía caminhando pela praia, de uma ponta à outra, observando, tomando notas, às vezes até ilustrando o texto com a reprodução aproximada da tatuagem, em toscos desenhos.
            Uma primeira impressão começou a delinear-se em sua mente, assim registrada num dos cadernos:
          a.     mulheres tatuam pequenas flores no pescoço, tornozelo e pouco acima do cofrinho;
          b.     rapazes usam nomes de mulher nos braços e antebraços;
          c.      homens preferem grandes tatuagens no dorso;
          d.     os ombros e braços são locais de preferência em ambos os sexos;
          e.     a escrita de palavras, em número variável, é frequente, mas não pude ler o que diziam, por uma questão de discrição;
          f.      às vezes a escrita se faz na forma de ideogramas, o que é muito intrigante, já que ninguém fica sabendo do que se trata (será vontade de revelar algo proibido e que, paradoxalmente, não pode ser revelado?);
          g.     ou em letras do árabe, chinês, japonês, ou coisa que o valha;
          h.     preto e vermelho são as cores mais comuns;   
          i.       hoje vi um homem de meia idade com todo o corpo tatuado, mas todo mesmo;
          j.       um outro trazia umas labaredas amarelas e vermelhas nas costas, que entravam por baixo da bermuda, e sabe deus onde iam parar;
          k.     uma jovem tatuou em todo o dorso uma dessas deusas da mitologia indiana, cheia de braços e pernas, lenços e panos, tudo muito colorido;
          l.       cotovelos e joelhos são as partes do corpo menos tatuadas, até onde posso observar;
          m.   a perna direita é mais tatuada que a esquerda;
...
Matilde encontrava-se desconsolada, dando como perdidas aquelas férias, Alfredo cada vez mais obcecado com a pergunta Por que as pessoas deixam-se tatuar? Embora avançasse na classificação topográfico-temática, encontrava-se cada vez mais perdido com relação à motivação das pessoas, Ainda mais que se trata de algo indelével, dizia ele. É para sempre! é para sempre! exclamava inconformado. E se o sujeito briga com a namorada, separa-se da mulher, deixa de acreditar em divindades, muda de religião, até de opção sexual as pessoas mudam, o que fazer então com as tatuagens?
Até que Matilde teve uma iluminação, Preciso arranjar uma resposta antes que nossas férias acabem.
– Alfredo, você acredita em astrologia?
– Claro que não, Matilde.
– Por isso é que somos as únicas pessoas da praia sem tatuagens.
– Como assim, mulher-de-deus?!
– As pessoas deixam-se tatuar porque acreditam em astrologia, tatuam-se por influência dos astros.
Alfredo calou-se ensimesmado, mocho, trancou-se num silêncio impenetrável, deixou de lado os cadernos, olhou para o mar.