segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

sobre dois versos de ana cristina cesar


ana sabiamente diz que
“é sempre mais difícil
ancorar um navio no espaço”
no poema intitulado
“recuperação da adolescência”

com a chegada da velhice
é possível sentir o poema
de um outro modo

o desfazimento do corpo
o lóbulo da orelha esquerda
ameaça desprender-se da face
o coração titubeia
com os entupimentos
a memória se esvai
água de torneira escancarada
os músculos cansados
uma certa falta de ar
os olhos baços

corpo evanescente
com isso surge a leveza
as coisas já não têm importância
tempo de doar os livros
doar as roupas
nada de pedidos ou exigências

o tempo não importa mais
ler somente livros pequenos
conversar mais com os cães
escrever quando dá vontade
sem perguntar por quê
nem para quem

algo a ver com imortalidade?
talvez talvez talvez
agora é tempo de dúvida
nada é certo
nada é eterno
nada é confiável

nem mesmo o amor?
muito menos o amor
que nunca foi eterno
muito menos confiável

com o desfazimento lento
inexorável do corpo
o que resta?
o Nada
seu grito silencioso
e por isso tão leve
que torna bem mais fácil
ancorar o navio no espaço

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

O cão é fiel.

A foto do dia.


Cego e cão guia caem nos trilhos e são atingidos por metrô em Nova Iorque.

Futebol, culpa e circunstâncias


A crônica do Hélio Schwartsman no Estadão de hoje, Limites do legalismo (1), está primorosa a tal ponto que não resisto ao desejo de pensar um pouco mais sobre o assunto neste blog. Tudo começou com o rebaixamento da Portuguesa para a série B do Brasileirão (depois dizem que futebol não é coisa séria...), pela aplicação pura e simples do regulamento.
            Schwartsman pergunta: “Cumprir a lei em todas as ocasiões nos levaria a um mundo melhor?” E responde: “Tanto por razões teóricas como práticas, o legalismo estrito é uma posição incoerente. ...É impossível traduzir para um conjunto finito de regras discretas (as leis) a totalidade dos comportamentos que desejamos promover.”
            Em outras palavras, é preciso sempre levar em conta as circunstâncias.
            Deixo por instantes o futebol de lado (embora, no caso em questão, continue torcendo pela Lusa) para aplicar este conceito a um dos sentimentos humanos mais comuns, o sentimento de culpa.
            A culpa parece algo maior, universal mesmo. A Igreja Católica, espertamente, aproveitou-se dela para criar dois poderosos mecanismos de controle sobre seus fieis. O primeiro é o pecado original – você é culpado por ter nascido – e só poderá ficar livre deste pecado através da Igreja. O segundo é o eficientíssimo sistema da confissão: você peca, eu perdoo, você fica autorizado a pecar novamente, mas agora está nas minhas mãos.
            Mas voltemos à culpa que não leva em conta as circunstâncias. Um certo pai de família, homem honrado e ainda jovem, ofereceu aos amigos uma festa de aniversário em sua própria casa. Por isso, seu cão permaneceu preso durante todo o dia, para não incomodar os convidados. À noite, terminada a festa, com pena do pobre animal, embora cansado pela trabalheira do aniversário, resolveu levá-lo para um passeio. O animalzinho saiu latindo e pulando de alegria. Pelas tantas, num grande terreno baldio, o dono soltou o cão da coleira, para que ele pudesse exercitar-se, depois do longo dia de cativeiro. O animal disparou em direção à pista, e ao tentar atravessá-la, foi atropelado e morreu. O homem passou longo tempo remoendo torturante sentimento de culpa, Por que fui soltá-lo, Porque fui soltá-lo?, repetia sem poder pensar em outra coisa.
            Em nenhum momento o homem levou em consideração as razões pelas quais levou o cão para passear, embora cansado da festa; não pensou na necessidade do animal em distender os músculos; na felicidade de poder correr num terreno baldio, depois de um dia de prisão; no próprio amor que nutria pelo animal de estimação. Não havia espaço em sua mente para pensar as circunstâncias, completamente tomada pelo sentimento de culpa.
            Em lugar de absolvição, precisamos mesmo é de aprender a analisar o mundo em que vivemos, reconhecer nossas limitações, levar em conta as circunstâncias que nos rodeiam, a cada passo que damos nessa vida.
Schwartsman, com a lucidez costumeira, termina sua crônica reafirmando que, “Gostemos ou não, definir as situações em que devemos ignorar leis é tão importante quanto aplicá-las. Se não fosse assim, poderíamos substituir os juízes por iPads com um software que decidiria a pena a partir de uma descrição do caso. Poucos gostariam de ser julgados dessa forma.”

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Dinheiro jogado fora

A foto do dia.


Até que enfim: cientistas anunciam que suplementos vitamínicos são dinheiro jogado fora, quando não, prejudiciais à saúde.

Referência: http://www.theguardian.com/lifeandstyle/2013/dec/17/vitamin-supplements-waste-money-scientists

Palavras cruzadas


As palavras cruzadas completam 100 anos no próximo 21 de dezembro. O primeiro jogo de palavras cruzadas foi publicado no The New York World em 21 de dezembro de 1913, e seu inventor foi Arthur Wynne.

 Segundo Will Shortz, editor do New York Times, o
 sucesso foi enorme entre os leitores, porém, como não foi registrada a patente, Wynne nunca auferiu qualquer benefício com seu invento. (1)
            No jornal O Estado de São Paulo, a seção de palavras cruzadas estreou em 2 de abril de 1950, e é publicada até hoje no Caderno 2.
            Ao final dos anos 50 e início dos 60, meu pai era assinante e leitor assíduo deste jornal, diariamente entregue em nossa casa, no interior de São Paulo. O objeto era tratado como algo sagrado! Ai de quem ousasse tocá-lo – folhear o jornal então, nem pensar –, incluindo os filhos e até nossa mãe, antes que o pai o lesse.
            A leitura constituía-se de verdadeiro ritual. Realizava-se sobre a mesa da sala, onde o jornal era cuidadosamente aberto página a página, as folhas mantidas bem arrumadas em seus respectivos cadernos, de modo que, ao final da leitura, a impressão que tínhamos era a de que o jornal ainda não havia sido folheado. Aí sim, só então podíamos abri-lo, quase sempre em busca das tirinhas ou do Suplemento Infantil.
            Até me interessei pelas palavras cruzadas. Para a minha idade e vocabulário, eram dificílimas! Mas não desisti, sempre com a ajuda do pai, que de certa forma me incentivava. Tornou-se motivo de piada na família quando certa vez lhe perguntei, Pai, o que é fluxo e refluxo das águas do mar? A graça estava no fato de que pronunciei as palavras fluxo e refluxo com som de ch, como em “luxo”. O pai soltou gostosa gargalhada, corrigiu minha pronúncia e respondeu, Maré. Lembro-me muito bem de que não me senti nem um pouco ofendido com as risadas; era mesmo engraçada a minha ignorância infantil, eu podia perceber isso, além do que acabara de aprender mais uma palavra, com a ajuda do pai.
            Um pouco mais crescidinho, resolvi eu mesmo construir um jogo de palavras cruzadas e enviá-lo ao jornal. Tomei como modelo um quadriculado semelhante ao que era publicado e passei dias e dias, talvez semanas, na árdua tarefa de cruzar as palavras em um quebra-cabeças. Depois de pronto, remeti-o ao Estadão, pelos Correios, naturalmente.
            Desde então, tinha a consciência de que jamais veria minha obra publicada, e isso não me incomodava. Bastava o feito em si, do qual muito me orgulhava: eu havia enviado minhas palavras cruzadas para o jornal!
            Poucos anos depois nos mudamos para o Rio de Janeiro, e meu pai deixou de ler o Estadão. Após 10 anos, ao voltar a passeio a Guaratinguetá, encontrei-me com um ex-colega de ginásio que veio logo me dizendo, André, sabe que vi no Estadão uma palavra cruzada com seu nome como autor?! Era você mesmo?, perguntou incrédulo.
Era eu.

Sinal


Havia a suspeita de que estava morrendo. Quando surgiu a rachadura no lóbulo da orelha esquerda, então ele teve certeza.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Ah! As cartas!


Ouvi do amigo que e-mail é coisa do passado, um dinossauro da Internet.
O que dizer então, fiquei pensando, das cartas, aquelas manuscritas sobre uma folha de papel em branco, escritas à tinta com caneta-tinteiro, daquelas que exigem reabastecimento de tempos em tempos, utilizando-se dos tinteiros, estes também objetos pré-históricos. Depois de colocadas em um envelope, assinalados destinatário e remetente, e devidamente seladas, eram enviadas pelos Correios. Postar agora significa outra coisa.
            Lembrei-me então dos anos em que morei em Londres, onde a solidão assolava a alma. Não havia Internet naqueles tempos e o telefone era caríssimo, utilizado apenas em casos extremos.  O remédio para matar a saudade de casa e dos amigos era escrever cartas.
            Comprei um jogo de penas de metal, de diferentes espessuras, que se encaixavam numa haste de madeira, formando assim uma caneta. A depender do formato e calibre da pena, as letras mudavam de forma. É claro que a cada duas ou três palavras a pena precisava ser molhada no tinteiro, o que tornava a escrita tremendamente lenta.
            O que pode parecer um obstáculo, pode tornar-se uma grande vantagem. O grande mérito daquele tipo de escrita era exatamente este, a lentidão. Havia um tempo enorme para pensar a escolha de cada palavra e, em consequência, ajudar o tempo passar.
            O conteúdo das tais cartas era o que menos importava: notícias pueris, as variações climáticas – frio e chuva, chuva e frio, de vez em quando neve –, manchetes de jornal, pilhérias, chistes quase sempre tentando ridicularizar os ingleses, as dificuldades no trabalho causadas pela obstrução dos nativos, notícias da escola das crianças, das próprias crianças, a comida, a carestia, enfim, bobagens...
            (Com frequência, nas sessões de análise, os pacientes introduzem um tema dizendo, Isso que vou falar é uma bobagem...  Ao que eu sempre respondia, Aqui não vem bobagem. Nada é bobagem, agora sei.)
            Disponho de bom número de livros contendo cartas de gente famosa: correspondência entre Drummond e Mário de Andrade, Mário e Bandeira, Bandeira e Drummond, Freud e Fliess, Lou Andreas-Salomé e Freud, Rilke e sua mãe, grande parte delas a exprimir manifestações de afeto entre os correspondentes. Um outro amigo diz que gosto de bisbilhotar a vida dos outros, mas gosto mesmo é de literatura epistolar.
            Hoje percebo com clareza ainda maior a função daquelas “cartas inglesas”, perdidas para sempre nos lixos de seus destinatários. Muitos anos depois, utilizo-me deste blog para escrever bobagens, as minhas bobagens... Tenho pouquíssimos leitores, é verdade, mas também não havia muita gente a quem endereçar aquelas cartas. O que pouco importa, pois a função da escrita é a mesma, ajudar a mente a permanecer funcionando, dar novos significados ao passado (já não sinto tanto ódio dos ingleses...), e acima de tudo manter contato com as pessoas.
Não uso mais as tais penas ou canetas-tinteiro, e o computador pode ser bem empregado, com vantagens, para o exercício constante do escrever. Hoje, a publicação no blog é a carta que é enviada.
Porém, acredito que a carta ainda mantém seu charme. Qualquer dia desses escrevo uma ao amigo.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

A troca

"Foi saquear. Levou a mercadoria. E deixou o bebê."

          Este perfeito microconto é de autoria de Ariel Palacios, correspondente do Estadão em Buenos Aires, encontrado em seu blog http://blogs.estadao.com.br/ariel-palacios/foi-saquear-levou-a-mercadoria-e-deixou-o-bebe/ , e aqui reproduzido no Louco por cachorros, pois encaixa-se perfeitamente na série Baseado em fatos reais.
          Ilustra o caos argentino, com a greve de policiais e os saques que se multiplicam pelo país.
          Um certo casal conduzia o carrinho do bebê quando resolveu saquear a loja. Com a chegada da polícia, levou o produto do saque e esqueceu o bebê!
          Ficção e realidade se confundem! Ou, contando ninguém acredita!