quinta-feira, 14 de novembro de 2013

de supetão


tive inveja
ora veja
autoanálise

e eu que tanto sonho
não ponho tino
no onírico?

pai, mãe, morte
insepultos todos
ensombrecendo a noite

o sonho: sobre o que versa?
e o que faz sentido?
apenas resulta

em mim ferido
a ausência
da mútua conversa


Aldo Pereira Neto

(Poema escrito "de supetão", segundo o autor, após a leitura de uma postagem deste blog (Esta noite sonhei com a Morte), http://loucoporcachorros.blogspot.com.br/2013/11/20-esta-noite-sonhei-com-morte.html).

Caninognição


Nina Simone

Ainda não li o livro de Brian Hare e Vanessa Woods, Seu Cachorro É um Gênio! (Ed. Zahar), mas não resisto, desde já, a tratar do assunto!

Começo por relatar o intrigante comportamento de um de meus cachorros, uma Yorkshire atualmente com 8 anos de idade, que atende pelo nome de Nina Simone, mas também responde pelas alcunhas de Nina, Nininha e Menina. Ela é filha de Camões e Lola, ambos adquiridos de bons criadores, mas Nina nasceu aqui em casa – eu e minha mulher fizemos o parto.
Dos três, é a única que sobe na mesa ao final das refeições, em busca de restos de comida. Ela não aprendeu isso com seus pais, que nunca o fizeram, porém, é interessante registrar, dois irmãos dela, vivendo em casas de amigos, também desenvolveram tal comportamento. Serão os tais genes recessivos?
Logo que percebemos esta característica pouco civilizada, tratamos de educá-la, reprimindo-a com energia. Em nossa frente, Nina Simone nunca mais cometeu tamanha deselegância. Ela espera que nos levantemos, deixemos o ambiente, para só então voltar a subir na mesa...
Nos fins de semana costumamos tomar o café da manhã na varanda. Ao terminá-lo, caminhamos até o jardim, quando somos acompanhados por Camões, Lola e Nina. Para nossa surpresa, vimos que Nina, a meio do caminho, dá meia volta e, sorrateiramente, retorna à varanda e sobe na mesa. Incrédulos, repetimos a experiência por três ou quatro vezes, fingindo não prestar atenção na Menina, e ela repetiu a artimanha de sempre. Inteligência não lhe falta, tivemos que admitir!
Hare, neurocientista fundador do Centro de Cognição Canina da Universidade Duke, nos EUA, e sua mulher Vanessa Woods, baseados em estudos sobre o assunto que chamaram de caninognição – a cognição dos cães – chegaram à conclusão de que o processo evolutivo que transformou lobos em cachorros domésticos fez com que os animais adquirissem um novo tipo de inteligência social, tornando-os o segundo mamífero mais bem sucedido no planeta, atrás apenas do homem.
A população de cães de estimação aumenta em praticamente todos os países, ao passo que o mesmo não ocorre com o nascimento de bebês, que cai progressivamente em alguns países mais civilizados.  É cada vez mais comum encontrar animais cercados de mimos, tratados como filhos por seus donos. O sucesso dos cachorros entre os humanos pode ser explicado pela genialidade canina. Os autores descrevem seis características principais do cão, que justificam a teoria.

1. Entende a linguagem corporal humana:

O cachorro compreende perfeitamente gestos e olhares de seu dono, habilidade extremamente rara entre os animais (nem mesmo os chimpanzés podem interpretar tão bem nossos gestos).

2 . Pode aprender palavras:

Os cães podem ser treinados para aprender um grande número de palavras e seus significados, com relativa facilidade.

3. Consegue se comunicar com as pessoas:

Os cães usam diferentes tipos de latidos, rosnados, gemidos, ganidos para se expressarem e serem compreendidos pelos humanos. E os donos muitas vezes conseguem compreender os significados desses diversos “ruídos” de seus animais.

4. Faz e valoriza amizades:

            As amizades estabelecidas pelos cães ocorrem primordialmente para com os donos, mas também para com os filhos dos donos, os amigos dos donos, e entre os outros animais da casa . (Isso sou eu quem diz, não deve estar escrito no livro...)

5. Sente empatia:

O sentimento de empatia manifesto pelo cão, ou seja, de se sentir mal ao ver alguém sofrendo, ou ficar feliz quando alguém sorri, pode ser facilmente percebido por seu dono, em inúmeras circunstâncias. Podemos afirmar que, às vezes, o cão chora conosco, ou ri conosco.

6. É capaz de enganar o dono:

Bem, aqui é preciso citar textualmente o artigo cuja referência está no final desta crônica (1):
“A inteligência dos cachorros também tem seu lado negativo. Um estudo realizado na Universidade de Viena, na Áustria, mostrou que os cães sabem quando estão ou não sendo observados pelo dono e se comportam de formas diferentes de acordo com isso. Os pesquisadores chegaram à conclusão de que os animais desobedecem mais ordens quando os donos não estão no mesmo ambiente que eles ou estão distraídos por alguma outra atividade, como ler ou ver TV.” 
           
Discordo radicalmente de que esta seja uma característica “negativa” dos cachorros. Esta é uma visão moralista do comportamento animal. As crianças pequenas exibem com frequência este mesmo tipo de comportamento, narcisista e de autopreservação. Os preceitos morais, o chamado processo civilizatório, vêm depois, para os humanos! Não para os cães.
            Nina Simone sabe quando está ou não está sendo observada, e decide qual atitude tomar, em função desta variável. O mais notável é que ela é capaz de conter o forte impulso instintivo de ir em busca de comida, ao saber que está sendo vigiada, pois já aprendeu que esta não é uma atitude permitida, civilizada portanto. Contudo, se reconhece que não está sendo observada, o instinto fala mais alto. Nina Simone não faz julgamentos morais.
            Nós, humanos, somos muito diferentes disso?

(1) http://veja.abril.com.br/noticia/saude/seu-cachorro-e-um-genio-saiba-o-porque?utm_source=redesabril_veja&utm_medium=twitter&utm_campaign=redesabril_veja&utm_content=feed&
Foto: A.Vianna, Brasília, 2009.

O segundo mamífero mais bem sucedido

A foto do dia,
para a Cecília!


Cachorro conversa!

terça-feira, 12 de novembro de 2013

20. Esta noite sonhei com a Morte.


Esta noite sonhei com a Morte.
Encontrei no quintal de minha casa uma de minhas cadelas, Falena, a quem dedico especial carinho, com um rasgo enorme na barriga. Não era uma ferida linear, incisão cirúrgica, realizada com bisturi ou faca afiada; eram múltiplos rasgos irregulares, tortuosos, os tecidos dilacerados, porém sem qualquer sangramento. Com as mãos, eu afastava cuidadosamente as bordas das feridas e via o interior da cavidade abdominal. Não havia vísceras, a cavidade estava completamente vazia, o que me causava angústia extrema. Pensei imediatamente em ligar para Ana, a veterinária, sempre cuidadosa com meus cães, amorosíssima – abraça e beija e conversa com eles sempre que vão à consulta.
Mas tinha já a certeza, no sonho, que Ana nada poderia fazer: as vísceras já haviam desaparecido, a cavidade estava completamente vazia. Voltava a pensar em Ana e em seus cuidados, recorrentemente, parecia-me a única possibilidade de salvação.
Às tantas, saí pelo quintal à procura de um bicho qualquer, estava certo de que um animal feroz era o responsável pelos estragos, e que havia devorado as tripas da cadela. Nada encontrei. 
Voltei ao meu cão estendido no chão, agonizante, portanto ainda vivo, abri novamente a ferida e constatei que realmente o abdome estava vazio. Não havia esperança de que pudesse sobreviver.
Acordei tomado por intensa angústia.

Ana, a veterinária, representa o amor da mãe, incondicional, aquele único capaz de nos salvar dos perigos desta vida – a necessidade de ser cuidado, bem cuidado, cuidado com amor, que surge desde o nascimento e perdura por toda a vida. Ressurge nas situações ameaçadoras que nos remetem àqueles tempos mais primitivos, o que vale também para os primórdios da humanidade, quando a sensação de desproteção era extrema. O homem só podia apelar mesmo para a Mãe Natureza. Ou ao seu equivalente maior, um deus todo-poderoso organizador desta mesma Natureza, capaz de oferecer proteção incondicional.
Ana, a veterinária, sabe conversar! É disso que precisamos quando a coisa aperta. (Uso a palavra coisa, que diz tudo e nada, e vem de um tempo onde não havia palavras que exprimissem determinados sentimentos.) Precisamos tão somente de alguém que converse conosco, que esteja do nosso lado, mesmo, ou especialmente, quando seja para morrer.
As vísceras são o representante da Vida. Sem elas não há vida. Nos primórdios, somos apenas tripas. (“O ego é antes de tudo corporal”, assinalou Freud.) Tantas vezes conferi o abdome do cão durante o sonho, e encontrei-o sempre vazio (o que explica a intensa angústia ao longo do sonho), até a constatação definitiva de que as tripas haviam desaparecido. Ana era minha esperança de vida. Até que concluí que ela já não podia me salvar.
Procurei por alguém a quem pudesse responsabilizar por aquela circunstância, o Bicho de garras enormes e afiadas, causador das múltiplas feridas dilacerantes, no sonho o representante da Morte. Sempre buscamos por um responsável pelos nossos infortúnios. Alguém precisa ser o responsável (culpado). É difícil assumir nossa própria responsabilidade perante a vida, especialmente se necessitamos de uma explicação ou justificativa plausível para os infaustos acontecimentos ao longo desta mesma vida. Aqui voltamos às duas condições primitivas a que estamos presos: a eterna busca da mãe (ela era a fonte de amor e ódio no princípio da vida), e à necessidade da existência de um deus a quem possamos responsabilizar por tudo, para o bem ou para o mal.
No sonho, nada encontrei. Não havia mais esperança de viver. É a falta de sentido da vida, o único sentido desta vida. Quando podemos admiti-lo, dissipa-se a angústia ao despertar.
Esta noite sonhei com a Morte.

inocência




                                   sobre o túmulo
                                          gabriela
                                          dança
                                   ainda não conhece
                                   o lado mais triste
                                   (e verdadeiro)
                                   da vida
                                                 a certeza
                                                  da morte