quarta-feira, 7 de novembro de 2012

O que sentimos quando nos indignamos?


A – indignar-se, é preciso?

B – de vez em quando.

A – e o ódio toma parte na indignação?

B – penso que não.

A – nem um pouquinho?

B – hum!... não estou certo disso.

A – pois acho que sim, o ódio se intromete na indignação.

B – é preciso pensar para indignar-se.

A – concordo.

B – e o ódio é inimigo do pensar.

A – mas impede o pensar completamente?

B – talvez não, a depender da intensidade do ódio.

A – então, um pouquinho de raiva pode ajudar na indignação!

B – talvez, mas não estou convencido disso.

A – o que sentimos quando nos indignamos?

B – frustração, sentimento de injustiça, desejo de reparação...

A – e uma pitada de ódio.

B – parece bastante humano. 

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Luto ou melancolia


      Não sei o que é perder um filho, pois nunca perdi. Tenho ouvido falar, presenciado o sofrimento, a dor, a infinita tristeza, tenho constatado a revolta, o inconformismo, o ódio, tenho conversado sobre o assunto, mas não sei o que significa perder um filho, pois nunca perdi. O que sei é fruto de alguma observação (limitada), além do conhecimento teórico (mais limitado ainda) a partir do magnífico trabalho de Sigmund Freud, Luto e melancolia (ótima a tradução de Marilene Carone, Cosacnaify, 2011).
            
      Se a perda é recente, lidamos com o luto. Às vezes a perda ocorreu há mais de uma década e é bem provável que estejamos diante da melancolia. Nesta condição, aquele que sofre parece não fazer distinção entre a perda e a dor da perda, e sente que ambas são permanentes, definitivas, inexoráveis.
            
      A perda sim, é permanente, definitiva, inexorável; a dor não, pode ser elaborada, modificada, atenuada, sublimada. No luto, a possibilidade de elaborar a dor aos poucos vai sendo considerada, e o passar do tempo pode ajudar. Na melancolia, quanto mais passa o tempo mais difícil torna-se tal elaboração. A dor funde-se ao sentimento de perda, e aquele que sofre não deseja mais abandonar a ambos, com a fantasia de que se deixar de sentir a dor, há de esquecer-se da perda, e consequentemente do ente perdido.
            
      Certa feita ouvi de uma mãe que havia perdido um filho há muitos anos, em pranto convulso, talvez já de posse deste entendimento aqui apresentado, ou pelo menos diante da possibilidade de tal entendimento, a sugestiva frase:
            “– Deixa eu ficar mais um pouco com meu filho!”
E cruzou os braços sobre o peito, como quem abraçava fortemente o filho morto.

      De fato, não há por quê esquecer-se do filho que morreu; ao contrário, sua memória precisa ser cultivada como algo muito precioso, fruto da experiência única que é a convivência entre pais e filhos. Porém, ao fundir a perda com a dor da perda, o melancólico preserva muito mais a lembrança do filho morto, do que a memória do filho vivo que guarda dentro de si. A certeza de que esta memória não será perdida, que pode ser cultivada com alegria, pode constituir-se no primeiro passo para a elaboração daquela dor. 

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Calvário

Só e mal-amada, abandonada pela família, não encontrava razão para continuar vivendo. Resolveu implicar-se com o vizinho.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Não-saber


O não saber incomoda tanto o ser humano que, desde a infância, ele inventa, cria teorias (a origem da Fantasia), a partir da onisciência e onipotência infantis, e inicia assim o processo de aprendizado do pensar.
            Só então ele aprende a formular perguntas (a fase dos porquês), para continuar aprimorando o funcionamento do denominado “aparelho de pensar” (W. R. Bion).
            Como as respostas pouco ensinam (porque sempre incompletas), pode-se continuar perguntando vida afora, e consequentemente, aprendendo.
            Ou então pode-se concluir que já se sabe (uma Ilusão) e com isso interromper o processo de aprendizado do pensar, às vezes para o resto da vida. (É possível que os chamados livros de autoajuda, que apresentam soluções prontas e acabadas para o sofrimento psíquico do ser humano, colaborem fortemente para a Ilusão do saber.)
            A enorme dificuldade de se conviver com o não saber deve-se à perseverança da onisciência infantil na vida adulta, e tal desconforto (o não saber) gera agora (e cristaliza) verdades definitivas, aparentemente confortáveis (Eu Sei, Tenho Certeza!), mas que emperram o funcionamento do “aparelho de pensar” (provavelmente uma das causas do fundamentalismo religioso, em oposição ao progresso da Ciência, ancorado no contínuo e disciplinado desejo de saber).
            O processo analítico pode nos ensinar a tolerar o não saber e, mais que isso, propiciar verdadeiro conforto psíquico diante do Não Sei!, preservando assim o saudável e permanente processo de aprendizado do pensar e a consequente expansão psíquica.

Observação

Ao perceber que as trepadeiras subiam céleres pela cerca do jardim, ela resolveu fazer o mesmo. O marido pegou-a em flagrante.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

instantâneo

se não posso reviver
o passado, e o futuro
está por vir, o que resta
(sei que isso não é pouco)
é o presente, a fração
diminuta desta vida
que dura apenas o tempo
da escrita de um poema

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Efeito tardio


O trauma psíquico assemelha-se à mina terrestre, que depois de plantada tem seu potencial explosivo mantido por longo tempo. Até ser desativada.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Escolhas

Desde criança, era louco por carros. Mas nunca gostou de estudar. Foi ser manobrista de estacionamento.

Só de raiva!

Depois de ver seu bar assaltado 18 vezes, tomou providência definitiva:
- A bebida agora é de graça!

O louco da aldeia


O que mais surpreendia o menino era a atitude do pai, homem conhecido por sua rigidez, pelos julgamentos rigorosos, e que abria a porta de casa e recebia, até com certa gentileza, Heitor, o louco da aldeia. O pai não abria a porta da casa para qualquer um. Para ser mais preciso, o pai rarissimamente abria a porta da casa para alguém. Fazia-o, às vezes, por obrigação, nunca por gosto, pressionado pela mulher, Deixa de ser bicho do mato, homem. Se não frequentava a casa dos pouquíssimos amigos que tinha, se é que podia chamá-los amigos, colegas talvez, com que direito pensavam eles que podiam importuná-lo em seu próprio lar? Boa romaria faz quem em sua casa fica em paz, não cansava de repetir.
Mas não era um bronco, o pai. Aquela mania de utilizar-se de ditados, provérbios, adágios, anexins e afins, adquiriu-a com a leitura atenta de Cervantes, da admiração profunda pelo Dom Quixote e seu escudeiro fiel. Possuía edição riquíssima do Engenhoso Fidalgo, em quatro volumes encadernados em couro, gravados com letras douradas e ilustrações de Gustave Doré, um verdadeiro tesouro, o orgulho de sua biblioteca. A torto e direito, sem quê nem porquê, lá vinha o pai com Tantas vezes vai o pote à fonte que um dia ele se quebra, Falar é prata, calar é ouro, Mais vale um pássaro na mão... Tampouco era ingênuo, o pai. Extremamente religioso, a tal rigidez e o isolamento social eram provenientes muito mais de uma austera retidão moral, Este é um mundo de expiações e provas!, resumia.
O menino não dispunha de palavras precisas, sutis, sofisticadas para analisar o pai e definir-lhe a personalidade, mas era dotado de agudo senso de observação, além de um genuíno e precoce poder de reflexão sobre a natureza humana. Intrigava-o, portanto, aquela relação do pai com Heitor, o louco da aldeia. O homem assustava até pelo porte físico, enorme, mais de 140 Kg de peso, pletórico, atarracado, ao andar adernava com pernas e braços abertos, buscando o difícil ponto de equilíbrio, a cabeça enterrada no tronco sem pescoço, o que talvez explicasse a voz cavernosa saída diretamente dos pulmões para a boca e a respiração ofegante e ruidosa a sugerir alguma obstrução respiratória, o cabelo cortado rente à escovinha ressaltando a cabeçorra redonda como uma bola de futebol. Impressionava mais que tudo a cor dos olhos, sempre arregalados, de um azul-água quase transparente. Eram doces os olhos de Heitor.
A fala era rápida, entrecortada por soluços e engasgos, as palavras saiam comidas pela metade, Trouxe uns diamantes da minha fazenda para o senhor, disse Heitor assim que entrou na pequena varanda. O pai agradeceu amável, Muito obrigado, Heitor, são lindos!, e recolheu as quatro pedras roliças, lisas, dessas que se encontram no leito dos rios, cada uma pesando cerca de meio quilo, Vou guardar os diamantes com carinho, São da minha fazenda na Mantiqueira, Ah!, você tem uma fazenda na serra?, Tenho cinco mil e quinhentos alqueires de terra muito boa, tudo plantado de café, estou exportando café, Que interessante!, café plantado nas alturas dizem que é do bom, Além da mina de diamantes, foi de lá que tirei esses aí, Ah!... A exclamação do pai deixava transparecer a maior sinceridade possível.
E a conversa prosseguia animada, o menino assustado entreolhando pela fresta da porta, tão perplexo com as pedras quanto com a solicitude e a aparente credulidade do pai. Serão mesmo diamantes?, chegou a pensar, E se os diamantes estiverem no miolo das pedras, que precisam ser quebradas para revelar o tesouro? O menino começou a duvidar de tudo, de todos, dele próprio, e delirou diante daquela estranha e incompreensível realidade.
Heitor despediu-se, o pai entrou carregando as pedras, sorridente, bem humorado, e percebeu o ar interrogativo do filho, ar de aflição mesmo, e tranquilizou-o, É o Heitor Louco, meu filho, mês que vem ele volta com mais diamantes, e jogou as pedras no fundo do quintal. Mais não disse, nem lhe foi perguntado.
Muitos anos se passaram, o menino tornou-se homem, e aprendeu que não se desmente uma alucinação, pois para quem alucina, aquela é uma verdade inquestionável. O pai, de alguma forma, intuíra o conceito de realidade psíquica, algo que embora não seja concreto, nem por isso deixa de ser real.