quinta-feira, 25 de outubro de 2012
Observação
Ao perceber que as trepadeiras subiam céleres pela cerca do jardim, ela resolveu fazer o mesmo. O marido pegou-a em flagrante.
quarta-feira, 24 de outubro de 2012
instantâneo
se não posso reviver
o passado, e o futuro
está por vir, o que resta
(sei que isso não é pouco)
é o presente, a fração
diminuta desta vida
que dura apenas o tempo
da escrita de um poema
o passado, e o futuro
está por vir, o que resta
(sei que isso não é pouco)
é o presente, a fração
diminuta desta vida
que dura apenas o tempo
da escrita de um poema
segunda-feira, 22 de outubro de 2012
Efeito tardio
O trauma psíquico assemelha-se à mina
terrestre, que depois de plantada tem seu potencial explosivo mantido por longo tempo.
Até ser desativada.
sexta-feira, 19 de outubro de 2012
Escolhas
Desde criança, era louco por carros. Mas nunca gostou de estudar. Foi ser manobrista de estacionamento.
Só de raiva!
Depois de ver seu bar assaltado 18 vezes, tomou providência definitiva:
- A bebida agora é de graça!
- A bebida agora é de graça!
O louco da aldeia
O que mais surpreendia o menino era a atitude do pai,
homem conhecido por sua rigidez, pelos julgamentos rigorosos, e que abria a
porta de casa e recebia, até com certa gentileza, Heitor, o louco da aldeia. O
pai não abria a porta da casa para qualquer um. Para ser mais preciso, o pai
rarissimamente abria a porta da casa para alguém. Fazia-o, às vezes, por
obrigação, nunca por gosto, pressionado pela mulher, Deixa de ser bicho do
mato, homem. Se não frequentava a casa dos pouquíssimos amigos que tinha, se é
que podia chamá-los amigos, colegas talvez, com que direito pensavam eles que
podiam importuná-lo em seu próprio lar? Boa romaria faz quem em sua casa fica
em paz, não cansava de repetir.
Mas não era um bronco, o pai. Aquela mania de utilizar-se
de ditados, provérbios, adágios, anexins e afins, adquiriu-a com a leitura
atenta de Cervantes, da admiração profunda pelo Dom Quixote e seu escudeiro
fiel. Possuía edição riquíssima do Engenhoso Fidalgo, em quatro volumes
encadernados em couro, gravados com letras douradas e ilustrações de Gustave
Doré, um verdadeiro tesouro, o orgulho de sua biblioteca. A torto e direito,
sem quê nem porquê, lá vinha o pai com Tantas vezes vai o pote à fonte que um
dia ele se quebra, Falar é prata, calar é ouro, Mais vale um pássaro na mão...
Tampouco era ingênuo, o pai. Extremamente religioso, a tal rigidez e o
isolamento social eram provenientes muito mais de uma austera retidão moral, Este
é um mundo de expiações e provas!, resumia.
O menino não dispunha de palavras precisas, sutis, sofisticadas
para analisar o pai e definir-lhe a personalidade, mas era dotado de agudo
senso de observação, além de um genuíno e precoce poder de reflexão sobre a
natureza humana. Intrigava-o, portanto, aquela relação do pai com Heitor, o
louco da aldeia. O homem assustava até pelo porte físico, enorme, mais de 140
Kg de peso, pletórico, atarracado, ao andar adernava com pernas e braços abertos,
buscando o difícil ponto de equilíbrio, a cabeça enterrada no tronco sem
pescoço, o que talvez explicasse a voz cavernosa saída diretamente dos pulmões
para a boca e a respiração ofegante e ruidosa a sugerir alguma obstrução
respiratória, o cabelo cortado rente à escovinha ressaltando a cabeçorra
redonda como uma bola de futebol. Impressionava mais que tudo a cor dos olhos,
sempre arregalados, de um azul-água quase transparente. Eram doces os olhos de
Heitor.
A fala era rápida, entrecortada por soluços e engasgos,
as palavras saiam comidas pela metade, Trouxe uns diamantes da minha fazenda
para o senhor, disse Heitor assim que entrou na pequena varanda. O pai
agradeceu amável, Muito obrigado, Heitor, são lindos!, e recolheu as quatro
pedras roliças, lisas, dessas que se encontram no leito dos rios, cada uma
pesando cerca de meio quilo, Vou guardar os diamantes com carinho, São da minha
fazenda na Mantiqueira, Ah!, você tem uma fazenda na serra?, Tenho cinco mil e quinhentos
alqueires de terra muito boa, tudo plantado de café, estou exportando café, Que
interessante!, café plantado nas alturas dizem que é do bom, Além da mina de
diamantes, foi de lá que tirei esses aí, Ah!... A exclamação do pai deixava
transparecer a maior sinceridade possível.
E a conversa prosseguia animada, o menino assustado
entreolhando pela fresta da porta, tão perplexo com as pedras quanto com a
solicitude e a aparente credulidade do pai. Serão mesmo diamantes?, chegou a
pensar, E se os diamantes estiverem no miolo das pedras, que precisam ser
quebradas para revelar o tesouro? O menino começou a duvidar de tudo, de todos,
dele próprio, e delirou diante daquela estranha e incompreensível realidade.
Heitor despediu-se, o pai entrou carregando as pedras,
sorridente, bem humorado, e percebeu o ar interrogativo do filho, ar de aflição
mesmo, e tranquilizou-o, É o Heitor Louco, meu filho, mês que vem ele volta com
mais diamantes, e jogou as pedras no fundo do quintal. Mais não disse, nem lhe
foi perguntado.
Muitos anos se passaram, o menino tornou-se homem, e
aprendeu que não se desmente uma alucinação, pois para quem alucina, aquela é uma
verdade inquestionável. O pai, de alguma forma, intuíra o conceito de realidade
psíquica, algo que embora não seja concreto, nem por isso deixa de ser real.
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
Extravagância
Íntegro, conservador, muito religioso, frente a uma insinuação maldosa perdeu a cabeça e soltou um palavrão: Ora bolas!
cheiro de infância
este maldito cheiro
de doce de banana
a inundar a casa
na manhã de sábado
é o cheiro que não passa
da minha infância
pois é doce o cheiro
- hoje sei e sinto -
da minha infância
que não deixo passar
de doce de banana
a inundar a casa
na manhã de sábado
é o cheiro que não passa
da minha infância
pois é doce o cheiro
- hoje sei e sinto -
da minha infância
que não deixo passar
A bondade de maria
Embora
maria tenha lavado minhas fraldas quando nasci, pois não as havia descartáveis
naquela época, no mês de janeiro mais chuvoso de que se tem notícia até os dias
de hoje na Capital, a primeira lembrança que tenho dela data de nossa mudança
para a casa vizinha à casa de meus avós no Interior e eu já era um menino
crescidinho, e maria era a empregada de Breno e Ceci, desde sempre, salvo antes
de ela chegar à casa de meus avós, e aí residia o mistério!
maria
era a cozinheira e a cozinha o seu reino. Lá ela mandava e desmandava, escolhia
cuidadosamente os ingredientes no mercado municipal, carnes, verduras, legumes,
frutas, os mais variados temperos, incluindo a pimenta malagueta, a
indispensável banha de porco que emprestava todo o sabor às comidas, estipulava
ela mesma o cardápio, às quartas pastel de queijo, carne, palmito ou frango,
sua especialidade, embora não fossem menos apreciados o torresmo, o feijão
mulatinho temperadíssimo, o bife acebolado às segundas, o frango ao molho pardo
às quintas-feiras, o arroz soltinho todo santo dia. Manjar de coco com ameixas,
a sobremesa preferida da avó. No verão, sorvete de abacaxi! As refeições
encerravam-se infalivelmente com o cafezinho de coador, forte, perfumado,
saboroso, entregue ao avô adoçado e mexido, em xicrinha de porcelana, por Ceci,
um doce de mulher.
Não
havia quem desconhecesse a infinita bondade de maria. Analfabeta, pobre, meio
índia, quase sempre coberta de andrajos, porém boníssima, paradoxalmente
boníssima... Chaninho, o seu gato predileto, com tinturas de angorá; havia
outros, inúmeros, iam aparecendo e desaparecendo com o tempo, apenas Chaninho
permanecia, fiel como um cão, proprietário. maria os alimentava a todos com
iscas de carne de primeira, aquela que seria servida no almoço, para desespero
de Ceci, econômica ao extremo. Mas quando alguma gata de rua dava cria, maria
pegava todos os filhotinhos, enfiava-os num saco com uma pedra, jogava da ponte
bem no meio da correnteza do Ribeirão dos Alves.
- Coitadinhos,
não terão o que comer, alegava.
Além
da bondade, o cigarro de palha de fumo-de-rolo forte, fedorento, grosso, longo,
enorme para que durasse todo o dia, que se não estava no canto da boca
desdentada repousava atrás da orelha sempre à mão, era a outra indefectível marca
de maria. À noite, no silêncio do infecto porão sem janelas onde dormia em um
catre imundo, maria acendia o terceiro cigarro do dia; acompanhava o pito a
tosse violenta, catarrenta, constante, cansativa, maligna, e que anos mais
tarde a levaria à horrorosa morte enfisemática.
Apenas
uma vez vi maria derramar lágrimas copiosas, ela uma pessoa boníssima e feliz,
alegre e risonha por natureza. Foi quando Otília a repreendeu severamente por
não ter impedido que Beatriz, a filha mimada, brincasse de pular sobre um copo
de vidro, de-lá-pra-cá-daqui-pra-lá interminavelmente, E se Beatriz caísse
sobre o copo e o copo se quebrasse?, gritou Otília, histérica, maria
sentidíssima, mas a bondade dela a impedia de compreender essas coisas, essas
interdições, tudo aquilo que não fosse o desejo do outro, não o dela, que
desejos ela não os tinha, parece que nem sabia o que era desejar.
Todavia, havia um mistério. Não se
falava uma palavra sobre o passado de maria, mais um dos assuntos proibidos em
casa dos avós, discretíssimos sempre, também por natureza.
Muitos anos mais tarde ouvi o
comentário vindo de Otília de que maria era filha bastarda de um irmão de meu
avô, que então tomou a guarda da menina maria, aquela desvalida de lendária
infinita bondade, minha segunda mãe. Hoje sei, sou filho de maria.
sexta-feira, 12 de outubro de 2012
Autobiografias
À primeira vista,
apenas os notáveis deveriam publicar autobiografias, gente que, de fato, tem o
que dizer, registrar, revelar, tornar público, considerando a vida que levam, os
atos que praticam, e geralmente o fazem ao final da vida. A realidade, no
entanto, não tem sido esta: as livrarias estão abarrotadas de autobiografias de
pessoas de alguma notoriedade, porém “desimportantes”, digamos assim, e que
estão longe do fim da vida, provavelmente. Afora o compreensível e legítimo
desejo de ganhar dinheiro, o que buscam tais indivíduos ao exporem suas
intimidades? A fama perene? O reconhecimento público? Ou trata-se mesmo tão
somente de uma jogada comercial?
Todo homem tem sua
importância, e, em princípio, tem uma história a ser contada, a história de sua
própria vida. E se o homem comum é capaz de contar com engenho e arte a sua
história, então podemos pensar que aí reside a origem do Romance. A partir
desta ideia, surge a interrogação, desprovida de qualquer ranço de pedante
exibicionismo: todos temos direito a uma autobiografia?
Encontro no último
livro de Zygmunt Bauman, Isto não é um diário (Zahar, 2012), a
interessantíssima pergunta (a diferença entre filósofos e não filósofos é que
os primeiros sabem fazer perguntas!): “Qual é, afinal, a diferença entre viver
e contar a vida?” E, em seguida, Bauman cita José Saramago, ao qual rende
homenagens por ter se tornado fonte de inspiração recente: “Creio que todas as
palavras que vamos pronunciando, todos os movimentos e gestos, concluídos ou somente
esboçados, que vamos fazendo, cada um deles e todos juntos, podem ser
entendidos como peças soltas de uma autobiografia não intencional que, embora
involuntária, ou por isso mesmo, não seria menos sincera e veraz que o mais
minucioso dos relatos de uma vida passada à escrita e ao papel.”
Portanto, todo homem
tem sua autobiografia não intencional, e se a registra em livro ou não, esta é
uma outra questão a ser colocada a partir de motivações de ordem pessoal. Queiramos
ou não, e é bom prestarmos atenção nisso, (pois trata-se de nossa
responsabilidade perante a vida), estamos permanentemente a viver/contar a
nossa história. As palavras que proferimos, os gestos que praticamos, representam
a inscrição, o registro, a publicação contínua e indelével de nossa
autobiografia.
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